Afetos

Por Arthur Dapieve
O GLOBO

Ritchie (foto) e Dinho cantam em inglês

No começo dos anos 1980, eu e o rock brasileiro estávamos querendo pegar mais gente. Durante dois períodos fiz musculação numa pequena academia na Siqueira Campos para cumprir a Educação

Física da faculdade. Fracassei miseravelmente. Não em abater os créditos, mas em abater as moças. Talvez por isso há quase trinta anos eu não entre em academia nem para pedir informação sobre endereço, quadro que breve talvez seja alterado por força da idade e da falta de tempo para exercícios ao ar livre.

Já o rock brasileiro dos anos 1980 — que chamei de BRock num livro — se deu bem melhor na tarefa de pegar mais gente. Ele investiu em cantar num português reto, que contrastava com os labirintos metafóricos nos quais o resto da música popular havia sido aprisionada pela ambição e pela Censura Federal. A partir do grito “mas realmente, realmente, eu preferia que você estivesse nua!”, da Blitz, ele fez tanto sucesso que quase monopolizou a década. Em 1986, o Plano Cruzado de José Sarney — um congelamento de preços que logo jogou o país de novo na hiperinflação — catapultou as vendagens do BRock para a casa do milhão. Dois milhões e tal de “Rádio Pirata ao vivo”, do RPM.

Quando, ao final daquela década, Fernando Collor foi eleito presidente com 35 milhões de votos e deu visibilidade aos sertanejos que faziam romaria à Casa da Dinda para puxar-lhe “aquilo roxo”, o rock ficou em segundo plano, mas não a ponto de sumir do mapa, como se tivesse sido mais um modismo vindo de fora. Ficou num nicho, de vez em quando enviando boas notícias como O Rappa ou Los Hermanos. Rock em português. Hoje, a não ser pelos xiitas congelados no Fla-Flu ideológico dos anos 1960, é reconhecido como uma das infinitas maneiras de se fazer música brasileira.

Resolvida a naturalização, as responsabilidades dos descendentes do BRock hoje são menores. Além disso, as massas são outras, ascenderam socialmente com outros gostos (e uma questão crucial para os produtores culturais é como falar também a este público sem deixarse estagnar, isto é, sem renunciar ao poder transformador da arte). Isso permite a dois veteranos dos anos 1980 lançarem discos cantados em inglês. Há pouco foi Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial, hoje uma das bandas mais populares do país. Agora, Ritchie, contemporâneo da Blitz naquele grito libertário.

Nas minhas memórias, a trilha sonora dos dois períodos em que fiz musculação em 1983 foi “Menina veneno”, do inglês Richard David Court, radicado desde o comecinho dos anos 1970 no Brasil, para onde viera atraído pelos Mutantes. Era quase só o que tocava no som da academia. “Menina veneno” não chegou a saturar porque, logo em seguida, vieram “Pelo interfone”, “A vida tem dessas coisas” e “Casanova”. O LP no qual elas estavam, “Voo de coração”, vendeu mais de 800 mil cópias. Trazia um tecnopop de letras espertas que grudou no inconsciente coletivo. Em 2008, quando saiu a edição de 25oaniversário, tive a honra de ser convidado a escrever o release.

“Voo de coração” não era a primeira experiência musical de Ritchie no Brasil. Ele criara o Escaladácida, entrara para a Barca do Sol e formara o Vímana com Lulu Santos, Lobão, Luiz Paulo Simas e Fernando Gama. No entanto, o seu novo disco tem pouco a ver com esse passado todo. Chama-se “60” porque, sim, comemora o 60o- aniversário do cantor. Curiosamente, é o primeiro gravado no seu idioma original. Não, nada de “Poison girl”. Ritchie coletou músicas da década de 1960 que lhe despertaram o desejo de ser artista. Entre as 15 faixas estão “Sunshine Superman”, de Donovan, e “How can we hang on to a dream?”, de Tim Hardin. Minhas favoritas, porém, são as baladas “Wichita lineman”, de Jimmy Webb, e “Trains, boats and planes”, de Bacharach & David. O conjunto resultou num CD classudo, puxado para o melancólico.

Essa foi também a sensação que tive ao ouvir o disco solo de Dinho Ouro Preto, de 48 anos, com clássicos do rock em inglês. Melancolia. É o que une não apenas as letras da maior parte das canções escolhidas mas os arranjos registrados, até quando “animados”. Ora, um CD não se chama “Black heart” à toa. Só a faixa de abertura, “Hallelujah”, de Leonard Cohen, não funciona bem (como, né, depois do que o finado Jeff Buckley fez dela?). Nas outras 11, contudo, ouço Dinho senhor de sua voz, que, como a de Ritchie, nunca foi grande, extensa. Maturidade tem de servir para alguma coisa, certo? Dinho resgata “Nothing compares 2 U”, do Prince, da chatice de Sinéad O’Connor. Manda bem em “There is a light that never goes out”, de Morrissey & Marr. E, para encerrar, realça toda a tristeza subjacente a “Being boring”, dos Pet Shop Boys.

Se um antecessor distante — “The Stonewall celebration concert”, de Renato Russo, cantado em inglês para se diferenciar da Legião Urbana e lançado em 1994 — tinha uma agenda política, de ativismo gay, os novos discos de Ritchie e de Dinho têm compromisso apenas com seus própriosafetos. Já não seria pouca coisa em tempos tão insinceros, mas também não é nada mau que eles falem aos afetos alheios.

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Reparo a “Reparação”. O sempre vigilante deputado federal Chico Alencar, do PSOL, pegou um erro (ou teria sido ato falho?) meu na coluna da semana passada, sobre a aprovação das cotas no STF. O senador Fernando Collor não está no PMDB e sim no PTB. Quem está no partido de José Sarney é o seu acólito Renan Calheiros (ou serão os dois políticos eleitos por Alagoas a mesma pessoa?).

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