Clássica, erudita ou de concerto?

Fotografia: Natália Kikuchi

Quando em uma tarde agradável de janeiro encontrei Conrado, quem, diga-se de passagem, não via há dez anos, confesso que fiquei curioso para saber o motivo do repentino encontro. 

O mesmo me faz um Convite para me juntar a equipe do Substantivo plural, já me trazendo a noticia da participação de pessoas que admiro de longa data, como Clotilde Tavares e Geider, e ainda mais turbinada com uma reluzente nova geração com Henrique Fontes (foi meu aluno na antiga Escola Técnica Federal e dirigiu a cena da montagem da ópera L a Serva Padrona em parceria comigo) e Ana Morena.

Coloquei-me a pensar: Aceito a proposta? Não tenho prática de escrever para mídias sociais e o tempo anda curto com dois filhos pequenos, orquestra e orientações de mestrado para dar conta. Enfim, tremi. 

Resolvi então consultar pessoas como a Sra minha esposa e o meu parceiro de empreitadas musicais, Fábio Presgrave. Todos deram o maior apoio e aí lembrei a letra entrecortada de Rita Lee “um certo dia resolvi mudar…e fui andando sem pensar em voltar. ”. Ligo para Conrado pra dizer que “aquele sonho cresceu”.  Convite aceito, vem a questão: o que falar?

A etimologia


Concerto da Orquestra Sinfônica da UFRN com a de Câmara da Hochschule Fur Musik Karlsruhe, na Sala Wolgang-Rihm

Não é porque inauguro aqui nesse mundo que deixei toda a minha carga e itinerários para trás. Sou professor há 30 anos e a gente vive dando definição.

No caso da música, certos termos trazem tanta confusão que até para musicistas de formação razoável a coisa fica sem explicação, vide orquestra sinfônica X orquestra filarmônica; Coral X Madrigal e por ai vai…

Então vamos la, elegi como primeiro tema a questão: existe diferença entre os termos música clássica e música erudita?

Gosto de dicionários e sempre que posso vou na etimologia das palavras:

Quando se vai a um Clássico dos dicionários em português, o Houassis, encontramos: “que serve como modelo; exemplar; que obedece às regras; correto, puro, apurado. A etimologia vem do latim: o que vem da primeira classe, da elite. ” 

Ao irmos para um dicionário específico de música a coisa pode ficar um pouco mais complexa, pois o termo tanto é usado para denominar este tipo de música quanto para o período que vai de meados do século XVIII até o início do Século XIX e que tem como característica o apego a formas, à simetria e à claridade.

Verbete belicoso

Nós aqui no Nordeste temos por tradição e ,talvez para evitar confusão, o hábito de nos referirmos à música dos BBB (Bach, Bethoven, Brahms) como Música Erudita. Confesso que nunca fui atrás da etimologia da palavra, mas ano passado ao reger o pianista Alvaro Silviero, ele matou a charada: junção do prefixo EX, que quer dizer “fora” com o sufixo RUDIS, traduzido entre nós como “rude”, “sem polimento”, “grosseiro”.

Correntemente este termo é usado em oposição à música popular e folclórica.  De novo um problema, digamos “interno”, pode apresentar-se: Villa-Lobos fez uso corrente de melodias e ritmos populares, isso faz dele um compositor fora da alcunha de “clássico ou erudito”?

Como já se não bastasse toda essa questão semântica dos termos “música clássica, música erudita”, eis que em uma conversa com o meu orientando Roberto Ramos, venezuelano e que coordenava um núcleo de um dos mais consistentes projetos de inserção social através da música, o El Sistema; Ele me pergunta se o uso do termo “música erudita” não afastaria as pessoas das escolas de música, das salas de concerto. 

Confesso nunca ter pensado que um verbete tão corrente pudesse causar esse tipo de estranhamento em pessoas que nós gostaríamos de nos aproximar, que vivenciassem com prazer o que nós produzimos.  Perguntei a ele como se referiam a esse tipo de música na Venezuela e escutei “Música de concerto”! Realmente parece um termo que evita controvérsias.

Experiência quase espiritual


Concerto da OSUFRN na Abertura Glomus 2017, com tema “Choros N.06”, de Heitor Villa-Lobos

Hoje estamos com o grande desafio de atrair pessoas para as nossas salas de concerto, de aproximar a cultura e a arte de uma formação educacional que se não liberte as pessoas do poder opressor do “jabá”, ao menos não transforme o grosso de nossa sociedade como mero reprodutores de melodias “chiclete”, onde as pessoas não se dão conta de muitos refrões sabiamente reforçados por melodias “chiclete” banalizam a figura da mulher, normalizam “o beber até cair”. 

Dentro das tentativas feitas, vimos orquestras fazendo junção entre a música e o cinema, escutamos execuções de música de caráter incidental, onde as ideias de forma, proporção e transparência tão presente no classicismo, não podem ser rapidamente observados. 

Gostando-se ou não, qualquer um dos termos, erudita, clássica ou de concerto certamente deixará claro ao leitor o que ele encontrará na sala de concerto.  Pessoalmente, o que não abro mão é de que a experiência além de emocionante também seja culturalmente enriquecedora, diria que quase espiritual.  Sim, habita em nós a vontade de transformamos (e nos transformamos) a cada dia em ex rudis.

Professor-doutor em música e regente da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Carlos Zens 24 de Março de 2019 20:37

    Parabéns professor regente André Muniz pelo artigo pois é preciso falar desse Tema.

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