Afinal, pra que livros?

biblioteca de Alexandria

Por Marcelo Carneiro da Cunha
NO TERRA MAGAZINE

Estimadíssimos leitores, fui a Belo Horizonte e voltei, com escala no aeroporto de Confins, que como o nome diz, fica em lugar algum. Lá, participei do evento Beagalê, em um debate sobre o filme do meu livro, Antes que o Mundo Acabe, junto com Eduardo Moreira, do ótimo grupo Galpão e que atua no filme.

Para uma platéia atenta pude explicar o que eu sei do filme e o que autores pensam de atores: a gente se esforça pra criar a história e quem acaba no Castelo de Caras, sempre, são eles. Em outro momento do mesmo evento participei de um debate sobre a literatura e o seu espaço nesse mundo pop em que todos, menos o Bolsonaro, vivemos.

A platéia era formada por educadores, bibliotecários, gente que se importa, e muito, com o que acontece com a literatura e com os livros, e uma das questões mais presentes era “Como fazer para as pessoas lerem?”.

Eu não estudei o suficiente para ser educador e admiro bibliotecários tanto quanto admiro o genial inventor do dulce crema de leche; a pergunta me pegou de lado e ao mesmo tempo em que não compreendi exatamente o sentido dela, me esforcei ao máximo para dizer algo que soasse inteligente na hora, e não consegui, como nunca consigo.

A minha pergunta inicial seria: para que ler? Por que isso seria realmente importante, e para quem? Será que eu ajudo o mundo quando convenço pessoas a ler? Quando escrevo algo que elas se disponham a ler? Elas não seriam mais felizes vendo novela da Globo? Elas não são mais felizes vendo novela da Globo?

Bons livros não fazem a gente mais feliz, estimados leitores. Eles não são feitos para isso. Eles fazem a gente mais gente, claro. Mas isso é bom? Pra todo mundo?

Nessa era pós-industrial não somos mais importantes, ou tão importantes, como quem produz coisas. Nesse sistema, somos mais úteis consumindo. Consumidores precisam ler alguma coisa além de propaganda e manual de operação de celular? Não muito.

E então acho que compreendi o que sentem aquelas pessoas tão legais reunidas em BH. Elas não querem que sejamos apenas consumidores. Elas acreditam que existe um outro projeto, maior, onde seres humanos ocupam um lugar mais central do que televisores de LCD. Elas acreditam que existe, ou deve existir um mundo onde somos o sujeito e os objetos são o objeto. Deve haver um mundo onde somos importantes, e nele, livros são importantes porque eles nos fazem pensar, sentir, ser, coisas que não são nada importantes para objetos, mas são essenciais para quem se vê como sujeito. É isso.

Então sim, livros são importantes, ler é muito importante, porque ler é o maior exercício da nossa humanidade que existe, porque ele une o que sabemos e sentimos com o que não sabemos exatamente que existe. Livros unem partes fundamentais de nossas vidas, que são o nosso imediato com o nosso essencial. E livros, diferentemente de filmes ou romarias até Aparecida, acontecem dentro da gente. Eles se constroem dentro de nós, e, ou interagem com a gente ou não acontecem. Livros dependem de nós, de nossas mãos e nossas mentes, ou eles mesmos não existem. A interdependência é plena.

Então, se livros são importantes e essenciais, se ler é o caminho mais curto entre os milhares de quilômetros que separam nós de nós mesmos, como fazer para as pessoas lerem mais e melhor? Pensei nisso em todo o trajeto desde BH até Confins, o que levou séculos. Acho que do mesmo jeito de sempre. Com bons e ótimos livros, daqueles que a gente começa e quando vê até as moléculas dos nossos ossos querem saber o que vai acontecer na página 122. Dando a cada livro 20 páginas de chance, indo além e até o final se isso parecer bom ou ótimo, dando 20 páginas a mais de chance caso a gente fique em dúvida, largando aquele e pegando outro, caso a gente se convença nas primeiras 20 que o resto vai ser igualmente tão ruim quanto um bom Paulo Coelho. Simples. Azar que somente me dei conta dessa resposta quando já estava em Confins, a capital do lugar algum, onde nem meu celular funciona.

Com mais e mais bibliotecas, para remover o obstáculo que o custo de um livro representa para muita gente. Com mais bibliotecários apaixonados como eles. Com bibliotecas nas estações do metrô e nos pontos de ônibus, com vendedores da Avon indo de casa em casa. Com os novos livros digitais aproximando as pessoas dos textos e depois, espero, das páginas em papel, que ainda são mais gostosas ao tato do que um Ipad.

Uma sugestão? Meu amigo Michel Laub acaba de lançar um livro ótimo, Diário da Queda, desses que estragam o dia, a semana da gente e por isso são tão bons. Experimentem.

Agora lembrei que aprendi a ler sozinho, apenas para impressionar uma pessoa. A consequência foi que passei a ler tudo que via pela frente, o que me impressionou muito. A pessoa para quem eu aprendi a ler é a minha maravilhosa mãe, eu sabia que ela gostava muito de ler. “A gente precisa viver grandes amores”, dizia a minha mãe, aferrada a um bom romance. Hoje ela completa invisíveis 85 anos de idade e, se alguém aí precisa de mais alguma demonstração de que ler faz bem, eu posso apresentar a saltitante dona Zilah Carneiro da Cunha como prova.

Ler nos faz indestrutíveis, é o que eu penso, enquanto mando pra ela um beijo do tamanho da emoção que eu senti quando ela me viu lendo pela primeira vez, do que eu vi naquele olhar, que representa pra mim o tamanho possível da literatura. Que nos faz maiores do que somos, que nos torna melhores do que somos, e assim e por isso mesmo, melhores.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo