Afinidades Eletivas

ERIC, NORTON, OSCAR E AS AFINIDADES ELETIVAS

Da primeira vez em que prestei atenção em Eric Clapton, ele não cantava, nem tocava guitarra e, portanto, naquele momento, Clapton não era Deus. Estava bem humano, dando uma entrevista e falando do centro de recuperação Crossroads, para tratamento de pessoas com problemas no consumo de drogas e álcool, o qual ele fundara em Antigua, ilha caribenha. Falava também das tragédias de sua vida, desde a perda do filho Connor à dependência de álcool e heroína. No final, a repórter perguntou-lhe sobre a vida, apesar das tragédias. Eric respondeu-lhe: a vida não é o que ela nos dá, mas o que podemos dar para ela. Foi essa frase que me prendeu a Eric. Antes eu gostava de algumas das suas músicas, sem nunca ter sido fã, nem saber de sua trajetória. Agora, li avidamente sua autobiografia e uma coisa reafirmo: elegi-o, de algum modo.

Nunca sei explicar as minhas afinidades eletivas, sempre penso que elas têm mais de eleição do que de afinidade mesmo. Eric é um sobrevivente e eu tenho simpatia pelos sobreviventes, eles semeiam sensatez. Penso sempre nos sobreviventes quando o desespero me ronda. Penso nos que experimentaram extremos quando tendo a atribuir aos meus melodramas pessoais a dimensão da tragédia. E penso que todos devem cultivar um modo qualquer de aproximar-se dos sobreviventes, um modo feito de simpatia e respeito. Tempo haverá, tempo haverá para que a lembrança das sobrevivências seja uma salvação.

Norton Nascimento eu achei lindo quando o vi pela primeira vez, nas telas. Era mais lindo pessoalmente e tinha um carisma de anjo. Uma vez, eu e uma amiga estávamos querendo alguma coisa para fazer no Rio de Janeiro. Queríamos também encontrar um amigo que morava para os lados da Barra da Tijuca e descobrimos que, em um bar temático, com nome e decoração inspirados na arte cinematográfica, a meio caminho entre nós e o nosso amigo, haveria um Pocket Show do ator Norton Nascimento, que cantaria sucessos da Soul Music. Para mim, uma oportunidade de apreciar mais esse talento de Norton. O show seria para ajudar Cassiano, mestre da Soul Music no Brasil, à época sofrendo de alguma doença crônica, se não me engano, nos rins. Norton falou com muita meiguice de Cassiano e eu, se já era fã de Norton, reelegi-o ali, naquela noite. Depois, acompanhei com apreensão o transplante de coração a que ele foi submetido, comemorei a sua sobrevivência, agora perecida. Tenho simpatia e cultivo uma espécie de aproximação dos sobreviventes. Às vezes, uma aproximação silenciosa, até parece distância, de tão discreta. Mas, se aprendo com eles, isso é aproximação.

Quando penso em Oscar Niemeyer, a palavra sobrevivência veste outro significado. Oscar está sobre a vida, acima da vida, ele é muito maior do que a própria vida. Essa é a sua sobrevivência grandiosa. Ele é história pura e o fato de estar vivo me dá a impressão de poder atravessar uma dimensão, de viajar no tempo. Dele escutei outro dia que fica da vida a nossa contribuição para ela. Clapton o disse, e também Norton, quando defendia a doação de órgãos. A vida é o que podemos dar para a vida.

Clapton não é Deus, ao contrário do refrão escrito no metrô londrino, nos anos sessenta. Nem Norton, que tão cedo perdeu a sobrevivência, o era. Tampouco Oscar, com seus cem anos de história na carne, é Deus. Às vezes, a humanidade é muito grande, muito, mesmo. Tão grande, que assusta. E comove.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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