O afrocuban jazz de Harold López-Nussa

Harold López-Nussa é um soco na cara de quem olha para Cuba e só enxerga política, política, política.

Uma ilha do tamanho de Pernambuco, repleta de ótimos escritores, cineastas e, sobretudo, músicos (basta dizer que eles criaram a salsa, o mambo e o bolero), mesmo sob embargo econômico dos Estados Unidos desde os 60s.

Embargo esse que veta o pleno intercâmbio cultural, com grande perda para nós outros, saiba você.

“Mas lá tem aquele negócio de socialismo, gosto não”, grita um dândi natalense, cujo gasto mensal com sapatos e cosméticos supera a renda de muita família de Jucurutu.

É como deixar de escutar Hendrix e os Ramones, caso Donald Trump seja eleito presidente.

Já pensou?

Aculturado, com a mente embotada pela parcialidade do noticiário e pelo desgaste natural de um mesmo governo há mais de meio século no poder, ele, o dândi, despreza o que os cubanos têm de melhor, para se apegar em conceitos políticos tacanhos.

Pois bem, voltemos a Harold López-Nussa.

O pianista havaneiro de 33 anos é daqueles artistas que nos obriga a parar pesquisas, leitura de romances, etc, para mergulharmos em sua arte.

De uma família com os dois pés fincados na música, começou a estudar piano aos oito anos, até virar garoto-prodígio na cena jazzística mundial.

Prêmios acumulam em sua estante, como os de Melhor Pianista, em Montreux 2005 (escolha popular), e de Talento do Jazz, em 2011, por uma das principais sociedades artísticas francesas, a ADAMI.

Sua fama no exterior teve início após três temporadas em excursão com Omara Portuondo (Buena Vista Social Club)

Além de apresentações ao lado de Chucho Váldes, um monstro responsável por momentos antológicos com sua antiga banda Irakere.

Harold López-Nussa é da nova geração do afrocuban jazz (ou latin jazz, como queiram) e tem percorrido vários festivais importantes da Europa e América do Norte.

Alguns em momentos especialíssimos, como no Cosmojazz Festival 2014, em Chamonix, nos alpes franceses.

Entendo a correria diária, mas arrume tempo, vinho ou cerveja e uma companhia para ver o pequeno show no festival a mais de 2000 metros de altitude, em um cenário deslumbrante.

Sem perder a cubanía jamais

Fixada no papel ou na memória, a música já existe antes da performance.

Pelo menos, em tese.

Em países de rica musicalidade, no entanto, casos de Brasil, Cuba e Estados Unidos, creio que tudo nasce no mesmo instante.

É o que me vem à cabeça ao ver Harold López-Nussa em gestos contidos, sem exibicionismos, numa justaposição de sons em choques violentos causadores de fortes e imediatas sensações.

Com sólida formação acadêmica, ele é autor de composições impressionantes, sem perder a cubanía, o espírito cubano, feito a ‘brasilidade’ atestada por meio mundo.

Por falar em Brasil, uma curiosidade: o primeiro álbum gravado por Harold López-Nussa foi Cinco Conciertos para Piano e Orquestra de Heitor Villa-Lobos (2003), acompanhado da Orquestra Sinfônica de Cuba.

Foi logo depois desse trabalho que ele resolveu investir no jazz com exclusividade.

Um acerto tremendo.

Se você deseja fruir o melhor da produção do havaneiro do Vedado (bairro turístico e indispensável na capital cubana), saiba que seus dois últimos discos, New Day (2013) e El Viaje (2016), são o suprassumo.

No mais recente lançamento, inclusive, tem uma versão para Bacalao com Pan, do próprio Chucho Valdés com o Irakere, tema de 1974 para Trio Mocotó e James Brown algum botar defeito.

Vale um confere na versão original da mítica banda cubana:

A parceria com o irmão Ruy Adrián (bateria e percussão) e com o baixista senegalês Alune Wade resultou fundamental nas 11 faixas de El Viaje.

Natural que o jazz incomode nosso conforto em escutar música, pois a linearidade, a coerência no andamento e nas melodias é quebrada o tempo inteiro.

Muito da ideia do jazz ser ‘som cabeçudo’ vem daí.

Preferimos algo estável, em vez da dispersão. Ordem, em vez de diferenças.

Por outro lado, o som de Harold López-Nussa sai na medida certa entre o jazz tradicional e os ritmos populares de Cuba, simpático para ouvidos ansiosos ou lapidados.

Falo daquele piano malemolente, patrimônio cultural cubano, de fácil identificação com a música brasileira, mesclado com um virtuosismo bem distante de qualquer chatice.

Para fãs da cultura cubana, fica a dica de mais um tesouro encontrado na Baía de Havana, lá pertinho do Castillo Del Morro, o maior forte das Américas, construído pelos espanhóis em 1589.

Para os detratores, sugiro repensar um pouco.

Esnobar uma sonoridade tão estimulante por puro descompasso ideológico é sandice em grau máximo, de uma pequenez lamentável.

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