Afrossamba assombroso

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

O Chico que muitas das pessoas querem, com frisson, escutar, não é o Chico que está diante delas agora

Estou fazendo uma experiência inédita: escrevo esta coluna ouvindo ao mesmo tempo no fone de ouvido, bem baixinho, o novo disco de Chico Buarque (falo disco porque CD também é disco, compacto disco).

Não é a primeira escuta, já vou indo aí pela quinta. Fazendo assim neutralizo de saída o fantasma da vulgaridade e da banalização que muitas vezes querem falar mais alto que as coisas realmente altas. Vulgaridade e banalização parecem distantes galáxias ausentes do que estou ouvindo. Não estou aqui como crítico de música, e me dou este presente. Não preciso simular distância, e a crítica já corre nas veias. Salve a festa, salve a floresta, salve a poesia.

Li com delícia um crítico dizer num jornal que havia “rimas equivocadas”, como entre “acorda” e “Flórida”. Se alguém, mesmo que fosse o maior especialista em métrica, fonética e semântica da Universidade de Salamanca, pretendesse ensinar alguma coisa sobre rimas a Chico Buarque, já seria fantasticamente inverossímil. Que um inepto o faça é hilariante. Mas acho sinceramente, sem carregar em ironias, que essa parte da recepção do disco, o destampatório das bobagens, é saudável. Que venham todas à tona. Confrontadas com a realidade das canções, elas poderiam ser colocadas numa espécie de lâmina comparativa, e expelidas por contraste.

Não é de hoje que Chico Buarque pratica com brilho único essas rimas na tangente, aproximativas, toantes, quase-rimas. Na mesma canção (“Essa pequena”) onde se vê “acorda” e “Flórida”, há um pequeno show de outras do mesmo tipo no mesmo lugar das estrofes, em verdadeiro virtuosismo paralelístico, dificílimo de fazer e naturalíssimo no modo como feito. Que dizer da rima de “sobra” com “cor de abóbora”, e de “sai” com “take your time”? Que elas fazem com “acorda” e “Flórida” um incrível sistema de rimas toantes jogando com palavras paroxítonas e proparoxítonas, curtas e longas. No estilo “tardio” e maduro do “Chico”, esses procedimentos não estão ali para ostentar habilidade, nem de longe, mas para quintessenciar a canção, que fala da paixão leve e cheia de graça do homem mais velho pela garota, paixão que irradia sua leveza antimelancólica por todo o disco.

Na mesma linha ainda do palpite sobre rimas, outros disseram que o verso “amar uma mulher sem orifício”, da canção “Querido diário”, era um disparate infame feito só para rimar com “sacrifício”. Não estou aqui para tentar explicar a letra dessa canção de cinco faces, que precisam ser vistas como um todo. Mas dizia- se que nela não havia poesia. Fernando Pessoa diz que para se ler poesia é preciso acionar a simpatia (a vibração com o que se lê), a intuição (a abertura para o entendimento do que parece não ter sentido), a inteligência (o senso da integração das partes), a compreensão (a entrega de tudo o que você já viveu e leu) e a graça, senão os símbolos estão mortos para você, e você, morto para os símbolos.

Não estou pretendendo fazer dessa coluna uma lamentação sobre o mau entendimento da canção de Chico Buarque. Estou ouvindo alegremente um disco mais belo a cada escuta, que desarma por si só qualquer lamentação. É bacana que a apresentação seriada de “Chico” pela internet o tenha tirado da posição aparente da unanimidade que ele não é nem merece ser. Aliás, sob certo aspecto, ele não é unanimidade nem para o seu público mais frenético e mais fiel. O Chico que muitas das pessoas querem, com frisson, escutar, não é o Chico que está diante delas agora, e já faz tempo.

Ele mesmo disse, em parte brincando, mas em parte a sério, que negociava com a plateia em seus shows, cantando as músicas antigas que ela queria ouvir para poder tocar as novas, que é como se só ele quisesse tocar. Insisto nesse ponto, que, mais do que “verdadeiro”, é sintomático. Ele conta que sonhou, literalmente, que fazia um show só com “Bolero blues”, a mais difícil, tortuosa e enigmática das canções do seu último disco até então (“Carioca”), e depois de tocá-la quarenta vezes o público a exigia como bis, e a cantavam todos, de cor, em êxtase onírico, juntos.

Tamanha “realização do desejo” é o sinal irônico da discrepância entre aquilo que se acumulou como memória compartilhada e cristalizada, através das canções dele, e aquilo que foge às cristalizações: o adensamento, a complexidade e as dificuldades reais que se colocam para todo verdadeiro artista contemporâneo. A verdade é que o cancionista Chico Buarque nos embalou, mas não cabe em nenhuma embalagem. E chegou a uma quintessência da canção que é quase esotérica no seu apuro formal, sem deixar de ser amado por tantos e tantas.

Ao se chamar simplesmente “Chico”, o CD parece se lançar para além da cisão entre o Chico da memória coletiva e o Chico denso e complexo cancionista contemporâneo, “pós-canção”, cujo “ultrapassamento” ele mesmo anunciou em famosa entrevista. Destampando as contradições que desperta, deixando falar o coro dos contrários, Chico coincide com Chico mais do que nunca, se liberta dessa dualidade que não é dele e pode assim abrir caminho para ser entendido abertamente como um só.

Falando nisso: a última canção, “Sinhá”, com linda melodia de João Bosco, é uma impressionante formulação da doçura e da truculência brasileiras, bebidas na mesma fonte, e um salto poético na elaboração do enigma terrível e fascinante da ambivalência da nossa mestiçagem. O mesmo crítico que desclassificou a rima de “acorda” com “Flórida” se impressionou vivamente, e diz a palavra que eu direi, concordando com ele: é um afrossamba assombroso.

Comentários

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  1. Aparecida Fernandes 23 de julho de 2011 17:43

    Chico não só não é o mesmo, como também vem percorrendo, ao longo de sua carreira, uma linha ascendente que o torna cada vez melhor… Já ouvi barbaridades como a de que era um compositor “decadente” (sic!) por não fazer mais canções como Construção, Apesar de você ou Cálice. Os tempos destas eram outros. Quem afirma isso pôs o artista no limbo e com ele se enclausurou nos anos 60-70; não percorreu o caminho dele e não consegue perceber o esmero poético p. ex. de “Xote da navegação” ou o mesmo engajamento em “Assentamento” e “Iracema voou” para ficar só no CD “As cidades”; sem falar no cronista urbano apuradíssimo de “Carioca” ou em “Renata Maria”, “Ela faz cinema” – lirismo puro – ou no impactante baião/rock/rap suburbano de “Ode aos ratos” (“Tenaz roedor
    De toda esperança/Estuporador da ilusão”) em “Carioca”. O CD novo ainda não ouvi; aguardo a entrega da Biscoito Fino. Mas o espero avidamente com a expectativa de que vem melhor que os anteriores. E se é pra falar das rimas de Chico, basta conferir em “Paratodos” o trabalho de arquiteto da linguagem que ele é. No mais, é preciso educar os ouvidos e a sensibilidade para perceber que o vô Chico está cada vez mais sofisticado.

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