Agenor ou qualquer outro?

NO NOVO JORNAL

Da excelente entrevista de Cassiano Arruda, na Palumbo, cada tópico dá um texto. Pincei um deles. A observação de que houve quem não quis ser senador em 1974.

A oposição vinha de uma derrota acachapante, em 1970, quando duas vagas para o Senado foram disputadas e que uma delas seria do MDB, com Odilon Ribeiro Coutinho. Mas a Arena ganhou com Dinarte Mariz e Jessé Freire.

Em 74, ninguém duvidava da vitória de Djalma Marinho, candidato do Governo. Odilon, candidato natural, não topou a disputa. Consta que vários nomes foram sondados ou convidados e declinaram do convite. Padre Zé Luiz, Érico Hakradt, Woden Madruga. Cassiano parte de uma avaliação quase unânime de que qualquer um derrotaria Djalma. Baseado no resultado e no apoio de Aluízio Alves, até então imbatível e transferidor de votos. Aluízio estava cassado, mas o filho e o sobrinho davam seu recado.

As condições objetivas sinalizam para essa conclusão. A impopularidade da Ditadura, o crescimento nacional do MDB, o uso da televisão pelos candidatos e a campanha de Pernambuco, com Marcos Freire e Jarbas Vasconcelos. O programa eleitoral deles influenciou todo o Nordeste. Mas se omite a questão subjetiva.

Vejamos. Érico Hakradt, dos melhores homens públicos que conheci, era um político urbano. Elegia-se com os votos de Natal, numa rede sólida de amizades e num trabalho social com os nativos de Ponta Negra. Não tinha apelo populista. Teria o apoio frio dos Alves. Woden Madruga teria o apoio ostensivo de Aluízio e Agnelo. Mas Woden não possui os cacoetes da demagogia, componentes da campanha. Não consigo imaginá-lo no meio da feira abraçando desconhecidos e fazendo promessas. Zé Luiz talvez fosse o mais próximo do que foi Agenor. Mas não entusiasmava os Alves. E sem esse apoio ostensivo, morria uma das condições objetivas. Era preciso criar o antônimo de Djalma. Jurista, orador acadêmico, temeroso de fogos e horóscopo.

Agenor foi pego na estrada, num caminhão velho. “Vocês precisam pagar minhas contas, senão os credores vão cobrar no pé do palanque”. Ele me contou depois. Em 74, eu estava preso.

Desafiou Djalma para um debate. E o candidato não topou, alegando que não debateria com marinheiro tatuado. O apelido pegou. Como o cigano de 60. O antagônico estava pronto, tão ao gosto da massa.

E Agenor Maria se mandou para o sertão. Tomou cachaça nos balcões, fumou cigarro de palha, sentou nas calçadas. Algodão, milho e feijão viraram bandeiras. De Natal, cuidou o aluizismo.

Quem faria isso? Ou como tocava nas rádios a modinha disfarçada: “Ninguém matou a esperança/ Venceu mais uma vez o coração/ Só quem ama como eu alcança/ O sentido escondido da canção”. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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