Água Menina

Do fundo da mata surgiu o rebento vindo da escuridão oceânica de uma bolha d´agua.
Chorou o canto primevo. Cresceu nos igarapés e foi abduzido por
Iaras que o escalavam, deixando-o imóvel. A beleza da Iara o asfixiava.
Sua placidez espectral ofuscava os transeuntes da noite de pirilampos e sapos.
A rede balançava os amores na noite ancestral.
A noite era a casa. Caçavam… Como era bom brincar com Iara!.
De repente ela sumia feito uma aparição. Brincadeira de
esconde-esconde. Não entendia aquelas mudanças tão drásticas.
Dissimulada, criava armadilhas que me levavam à loucura. Iara se
desmanchava num oceano de espumas. Tudo foi como um lampejo que
ribanciou os seixos que rolavam na parede inconsútil dos riachos. Aquilo era bom.
Brincadeiras de “tim bum”. Passava por entre as pernas e
entrava num concílio de ninfas. Ela era a mais bela. Plurabelle. Diana dos meus amores.
Enfeitiçada de azul e sargaços
Cobria-me com o seu manto de algas. Flutuava nua num céu de nimbos e cirros.
Tudo ficava eclipsado e dava medo. Não quero mais brincar, dizia. Vou
dormir para sonhar drapejado por seus raios que ferem a sombra.
Corria … Fugia… e só deixava pegar para depois escapar. O seu canto enfeitiça os rochedos errantes.
Bela sereia de cabelos a ladrilhar os
caminhos das águas. Em teu seio o mar faz caminho. Seduzido vou ao seu encontro. Sei que não vai dar
em nada, nada. Escuto seus ais. Ergo castelos de cristais para a
proteger. Dos sonhos mais lindos fiz uma coroa para anunciar a sempre
viva. Das suas lágrimas faço um arco-íris. Sereia rainha dos meus idílios. Nas ondas de lá, nas ondas de cá, quero ser feliz quero te
namorar.
Livra-me dos males minha dindinha Iara. Tu és branca como a cor dos meus sonhos. Tenho ciúmes da tua eterna nudez a refletir a minha espada.
Repouso em teu regaço. Guerreiro cansado. Que são essas manchas?
Não chora querida que afogo.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

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