Água viva

ÁGUA VIVA

No dia em que decretastes em mim tua morte, chorei, chorei dizendo ao meu sorriso que estavas mentindo-me.

Chorei, lavei o rosto com lágrimas e lambi delas o sal, depois pus-me a olhar para minha alma no espelho do quarto da minha inútil e dilacerada aquarela e lá estavas cego e sem cor dentro do meu olhar.

Perdeste o brilho que o meu ofuscava, perdeste dentro da minha retina aquele tom azul que sempre nos guiava. E agora as lembranças tão doces eram como algas luzentes, salgadas, como água viva, queimava-me e minha pele arranhada, toda marcada, ardia e não não mais te queria, e eu não sei o nome que dar àquele instante, àquele sentimento no qual me afogavas.

Epitáfios, vários, me socorreram, cada um mais real e forte, cada um menos belo diante desta sorte.

Assim, fingimos ser parente de cada morte.

(………….)

Corri até o chuveiro, tomei um demorado banho, como que querendo lavar do cérebro teu único e real beijo. É que ele ardia em minha boca como um torpe sobejo de veneno, me fazia muito mal tocar a boca e sentir nela o resíduo do aroma que deixaste ficar.

Na tarde morna em que fiz tua vontade suicida, não via mais em nada, nem em ninguém, motivo para seguir.

Mesmo assim, estraçalhada pela dor que tua morte trouxe, saí do banho, deitei-me muda e nua no gelado chão, já sem um sequer soluço, levava na mão fechada um batom vermelho, aquele que usava só para te encantar, aquele que fazia minha boca ser a rosa que tanto querias beijar.

Virei de lado e sem carecer de olhar-me, desenhei nos lábios um falso sorriso, um destes que só um palhaço melhor faria. Sequei o pranto, pintei os olhos como se fosse noite de festa, encolhi-me como aquele caracol que vomitei, trazia teatro nas palavras, gemia e enfim nos suicidamos.

Desespero e silêncio, usamos como flores. Lembrei-me das orquídeas de um certo setembro, lembrei da felicidade de havê-las tido um dia, como símbolo do que chamei de amor.

Durante algum tempo, não sei quanto, estive convulsa, estática e murmurei teu nome, como quem se vinga e assim rezei:

*Que eu viva para sempre a morte deste amor.*
(Dolores Duran).

Ergui-me, dei alguns passos, tonta, sem saber a direção que tomariam meus sonhos, e do lado de dentro do meu peito rasgado, saiu um grito que ninguém mais pode ouvir.

Doei tudo teu que ficaria em mim. Das tuas juras, fiz versos de mentiras; dos teus sorrisos só um guardei para mim, aquele que não me foi doado que destes ao vento, mas eu o roubei, este está comigo, foi este teu sorriso que me fez sorrir.

Hoje ao olhar-te, vejo que havias morrido e jazias dentro de ti mesmo.

Aquele pedido não fora tua hora de morrer, pois quem mata os sonhos, mata o amor, mata a liberdade, és apenas um fantasma que brinca de viver.

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