Águas

Circulo pelo meu bairro numa manhã de sol alto e céu azulado com  laivos de nuvens no horizonte. Carrego no bolso um exemplar de Triângulo das Águas, de Caio Fernando Abreu que uma amiga me deu num momento de ternura. Sento num lugar ventilado, um barzinho de beira de calçada e apóio meus velhos tênis numa tora de madeira. O mundo estava perfeito. Para não ouvir a música do bar, lanço mão de meu velho truque de ouvir minha própria música nos fones de ouvido. Ao longe um avião faz a curva no rumo do paraíso. Abro um sorriso e saco o livro para ler alguma coisa antes que a cerveja tire minha concentração. Vou pulando as partes em que ele narra a história e paro apenas quando filosofa. Sinto meu corpo todo tremer a cada frase. São solavancos de prazer e medo com tanta beleza ali à minha frente. Parece amor e sexo. Penso comigo, porra, isso é que é poesia. No entanto, minha mente racional diz, foda-se a poesia, não quero mais ler a poesia que andam fazendo por aí. Quero ler essa coisa que me arrebata, que me lança às profundezas do espaço sideral. Quero ser feliz, quero amar o improvável, o impossível. Mas a manhã precisa acabar e com ela a tarde e a noite… e eu preciso ir para casa dormir.

Jornalista e escritor. [ Ver todos os artigos ]

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