Ainda existem bons romances por aí

Semana passada, numa comum noite de insônia, fui olhar a pilha de meus livros não lidos à procura de um romance que fosse no mínimo divertido, inócuo, mas eficiente. Já havia percorrido algumas páginas de Mrs Dalloway, de Virginia Woolf e percorrido uma boa extensão de Os Irmãos Karamazov, do velho e bom Dostoievski. Mas estava cansado de profundidades. Queria algo apenas para matar o tempo. Peguei então um romance curtinho de um jovem autor brasileiro sobre um cara que sofre de esquizofrenia ou coisa parecida, mas não consegui passar da segunda página. Cabeça demais, pretensioso demais.

Aí peguei um tijolaço de um autor autraliano (na capa dizia que era um Best seller do New York Times, grande m…) que tentava contar como era sua relação com o pai. Li umas cinco páginas e a primeira frase de me veio à mente foi “é mesmo uma grande m…”. Mudei para outro calhamaço de uma escritora americana (moça bonita na foto da orelha, currículo de primeira também). Era um romance ambientado na Florença do século 15, minha época e local preferidos. Mas a ilustre autora ficava páginas e páginas descrevendo ambientes, aspectos físicos dos personagens, episódios pitorescos e nada, nenhuma trama interessante, uma coisa rasa feito um pires. A arte do romance histórico está toda nas páginas de Stefan Zweig. É assim que se faz. Peguei outro tijolaço e, nesse caso, o cara simplesmente não sabia escrever. Tentei mais um, era um autor francês descrevendo um atentado a bomba. Páginas e páginas daquilo sem nenhum talento para prender o leitor e eu fui perdendo a paciência. Então resolvi dar mais uma chance e peguei este O Jardim dos Últimos Dias, de Andre Dubus III, Record, 476 páginas, R$67,90, em que o autor se propunha a contar alguns dias na vida de uma stripper que entrou em contato com um dos terroristas do 11 de setembro, antes da tragédia do World Trade Center.

Aí eu percebi que estava diante de um escritor, no mínimo, competente. A técnica do romance é, aparentemente, simples. Você apresenta os personagens, o tema e vai soltando aos poucos o fio da meada. Logo você dá a dica do ambiente, contextualiza e vai puxando o leitor pela mão, oferecendo informações interessantes, fazendo comentários inteligentes e elevando a temperatura do suspense. Você nunca entrega tudo logo, claro.

Os mestres do romance, como Balzac e Stendhal, só para dar dois bons exemplos, deixaram todas essas premissas ao alcance de todos. É só ler com atenção e tentar fazer parecido. Alguém já disse que um bom romance começa com uma frase que prende o leitor até a última página, como Moby Dick. Eu dou a chance de até dez páginas para um autor me conquistar. Depois disso, ou eu vou adiante ou largo o livro para sempre. Você, leitor maldoso, já deve estar dizendo, e você por acaso já escreveu algum romance com tais premissas? E eu digo, tenha calma. O romance encontrou seu limite com o Ulisses, de James Joyce, o fluxo de consciência de Virgínia Woolf, a busca do silêncio de Samuel Beckett, as experiências lingüísticas de João Guimarães Rosa. Eu sou filho dessa tradição.

Então passei muitos anos tentando escrever na trilha de outros escritores bem sucedidos. Já tentei escrever como os beatniks americanos, Jack Kerouac, John Fante, William Burroughs. Depois tentei seguir os passos do poeta caribenho Derek Walcott. Em seguida procurei fazer algo na linha dos dramaturgos de circo do interior. Por último escrevi um romance histórico ambientado na Natal do século 20. Fracassei em todas essas tentativas, eu sei. Atualmente estou escrevendo um folhetim nos moldes das premissas acima relatadas no meu feriasnoinferno’s blog. Tem me dado muita alegria. Se estiver me divertindo, então é bom.

Muita gente que quer escrever procura as oficinas literárias para encontrar um caminho. Escritores importantes como Raimundo Carrero dão oficinas literárias e acreditam que se pode forjar um escritor nessas oficinas. Eu acho que a oficina ajuda e muito no aprendizado. Mas acredito que a pessoa forja sua arte no trabalho duro, solitário e persistente. Quem quer ser um bom escritor lê muito, escreve muito e dispensa muito material escrito. Acredito que noventa por cento do que a gente escreve só merece o caminho do lixo. Os dez por cento que ficam são o ouro. É com isso que vamos deixar nossos nomes gravados no coração de alguns leitores. Agora, se o livro escrito vai fazer sucesso ou não, isso só os deuses das letras podem dizer.

Existem romances que são definitivos, dão enorme prestígio aos seus autores, mas nenhum dinheiro. Existem romances que são verdadeiras porcarias, mas que agradam a seus contemporâneos e vendem muito e dão muito dinheiro a seus autores. Existem romances que conseguem as duas coisas. São bem escritos, quebram paradigmas, vendem muito e às vezes até vão parar no cinema, um prestígio adicional aos livros nesses tempos modernos.

Estou fazendo todos esses “arrodeios” para mostrar aos meus leitores que mistérios maravilhosos envolvem o ato da leitura. O romance de Andre Dubus III (mania desses americanos com a monarquia, hein? Adoram numerar o nome dos filhos) me proporcionou o enorme prazer de descobrir esse obscuro mundo das strippers americanas. Descreveu o universo dos terroristas muçulmanos, atolados até o pescoço na ignorância, no fundamentalismo e na intolerância, nos mesmos moldes de seus carrascos americanos, os senhores da guerra que eles tanto odeiam. O livro mostra que o mal está em todo lugar. Mas no meio do estrume também nascem flores.

Os americanos ficaram traumatizados com a brutalidade dos ataques às torres gêmeas e, em sua extrema dor, não souberam distinguir os bons muçulmanos que apenas praticam sua religião e pregam a paz entre os humanos, dos maus muçulmanos que só entendem o caminho do ódio. Outro dia eu vi o filme Caminhos Cruzados (London River), de Rachid Bouchared, em que uma mulher inglesa protestante e um homem africano muçulmano procuram seus filhos após um atentado a um ônibus em Londres. As pessoas tendem a julgar as outras pela aparência. Não têm muita paciência para conversar e entender o outro. É daí que nasce a intolerância (que gera monstros como este maluco norueguês que matou pessoas inocentes, apenas porque ele não suporta a idéia de democracia e multiculturalismo). Existem muitas pessoas como ele, aqui mesmo em Natal.

Andre Dubus III é também autor do premiado livro Casa de Areia e Névoa, que foi adaptado para o cinema por Vadim Perelman. Como se vê, ele não é amador.

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Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Cellina Muniz 3 de agosto de 2011 16:54

    Fiquei curiosa para saber quais os títulos dos livros que não conseguiram prender sua atenção nessa noite de insônia… Será que o “mal” está só neles? Eles são uma m… em si mesmos? Pergunto isso porque me parece que certas leituras precisam de um momento propício para engrenar, aquela ocasião em que a coisa pega de jeito. Pelo menos assim foi comigo em alguns casos, no que se inclui o próprio “Os irmãos Karamazovi” citado no texto: a primeira vez em que tentei iniciá-lo, por mais que já conhecesse e admirasse o autor, não consegui ir em frente. Na segunda tentativa, por força também de uma dor de cotovelo (confesso), decidi encarar o desafio de lê-lo, na serra de Palmácia, Ceará. Li num fôlego só. E amei.
    Será que isso não faz parte desses “mistérios maravilhosos” que envolvem o ato de leitura?
    Abraços!

  2. Anne Guimarães 3 de agosto de 2011 14:58

    Carlos, querido…
    Adorei o seu texto e me identifiquei demais com a sua visão sobre os respectivos autores, pelo menos os que já li e reli. Concordo com você quando fala sobre o ato de escrever o que vale à pena, um exercício nada fácil. Gostei de você ter falado sobre os islãs, pois infelizmente no Ocidente a maioria das pessoas acham que muçulmanos são apenas (ou possíveis) homens-bombas e simplesmente por acreditarem em outro Deus isso os tornam inferiores ou qualquer coisa negativa.(Claro que a mídia de uma certa forma ajuda a distorcer as verdades e aí gera-se tamanhos absurdos, o danado do preconceito.) Até onde sei a Fé é algo individual e o que me interessa se meu vizinho crê numa pedra? Ah! é preciso ter muita paciência com quem não percebe o que é sagrado no coração do outro. Esse filme que você citou “Casa de areia e névoa”, de 2003, com o incrível Ben Kingsley e Jennifer Connelly (direção de Vadim Perelman) é um drama que me fez refletir bastante, com cenas que nos prendem a alma no grau mais alto da sensibilidade… Convivo com um muçulmano e sei que não sou melhor do que ele em nada, nem nas atitudes nem nos sentimentos. Como o livro mostra “o mal está em todo lugar.” Cabe a nós enxergar o que realmente é preciso.
    Resumo de literatura árabe: http://professoraericarenata.blogspot.com/2011/02/contribuicoes-de-estudiosos-muculmanos.html
    Um abraço no espírito colega!
    🙂

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