Ainda Monteiro Lobato

TENDÊNCIAS/DEBATES

Monteiro Lobato no tribunal literário
ALDO REBELO

Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos
estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da “nota explicativa”

O parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) de que o livro “Caçadas
de Pedrinho” deve ser proibido nas escolas públicas, ou ao menos
estigmatizado com o ferrão do racismo, instala no Brasil um tribunal
literário.
A obra de Monteiro Lobato, publicada em 1933, virou ré por denúncia -é
esta a palavra do processo legal-de um cidadão de Brasília, e a Câmara de
Educação Básica do Conselho opinou por sua exclusão do Programa Nacional
Biblioteca na Escola.
Na melhor das hipóteses, a editora deverá incluir uma “nota explicativa”
nas passagens incriminadas de “preconceitos, estereótipos ou
doutrinações”. O Conselho recomenda que entrem no índex “todas as obras
literárias que se encontrem em situação semelhante”.
Se o disparate prosperar, nenhuma grande obra será lida por nossos
estudantes, a não ser que aguilhoada pela restrição da “nota explicativa”
-a começar da Bíblia, com suas numerosas passagens acerca da “submissão da
mulher”, e dos livros de José de Alencar, Machado de Assis e Graciliano
Ramos; dos de Nelson Rodrigues, nem se fale. Em todos cintilam trechos
politicamente incorretos.
Incapaz de perceber a camada imaginária que se interpõe entre autor e
personagem, o Conselho vê em “Caçadas de Pedrinho” preconceito de cor na
passagem em que Tia Nastácia, construída por Lobato como topo da bondade
humana e da sabedoria popular, é supostamente discriminada pela desbocada
boneca Emília, “torneirinha de asneiras”, nas palavras do próprio autor:
“É guerra, e guerra das boas.
Não vai escapar ninguém -nem Tia Nastácia, que tem carne negra”. Escapou
aos censores que, ao final do livro, exatamente no fecho de ouro, Tia
Nastácia se adianta e impede Dona Benta de se alojar no carrinho puxado
pelo rinoceronte: “Tenha paciência -dizia a boa criatura. Agora chegou
minha vez. Negro também é gente, sinhá…”.
Não seria difícil a um intérprete minimamente atento observar que a
personagem projeta a igualdade do ser humano a partir da consciência de
sua cor. A maior extravagância literária de Monteiro Lobato foi o Jeca
Tatu, pincelado no livro “Urupês”, de 1918, como infamante retrato do
brasileiro. Mereceria uma “nota explicativa”?
Disso encarregou-se, já em 1919, o jurista Rui Barbosa, na plataforma
eleitoral “A Questão Social e Política no Brasil”, ao interpretar o Jeca
de Lobato, “símbolo de preguiça e fatalismo”, como a visão que a
oligarquia tinha do povo, “a síntese da concepção que têm, da nossa
nacionalidade, os homens que a exploram”.
Ou seja, é assim que se faz uma “nota explicativa”: iluminando o texto com
estudo, reflexão, debate, confronto de ideias, não com censuras de rodapé.
O caráter pernicioso dessas iniciativas não se esgota no campo literário.
Decorre do erro do multiculturalismo, que reivindica a intervenção do
Estado para autonomizar culturas, como se fossem minorias oprimidas em pé
de guerra com a sociedade nacional.
Não tem sequer a graça da originalidade, pois é imitação servil dos
Estados Unidos, país por séculos institucionalmente racista que hoje
procura maquiar sua bipolaridade étnica com ações ditas afirmativas.
A distorção vem de lá, onde a obra de Mark Twain, abolicionista e
anti-imperialista, é vítima dessas revisões ditas politicamente corretas.
País mestiço por excelência, o Brasil dispensa a patacoada a que recorrem
os que renunciam às lutas transformadoras da sociedade para tomar atalhos
retóricos.
Com conselheiros desse nível, não admira que a educação esteja em situação
tão difícil. Ressalvado o heroísmo dos professores, a escola pública se
degrada e corre o risco de se tornar uma fonte de obscurantismo sob a
orientação desses “guardiões” da cultura.

ALDO REBELO, 54, jornalista, é deputado federal pelo PC do B de São Paulo.

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