Ainda sobre mulher e cidade no Brasil

Por Antonio Risério
NO TERRA MAGAZINE

Se as mulheres da elite, no Brasil, viviam recolhidas, a grande reviravolta aconteceu quando elas começaram a dar as caras. Primeiro, aparecendo diante das visitas, em sua própria casa. Segundo, passando a frequentar lugares públicos, como teatros. Terceiro, saindo às ruas. Mas tudo foi muito lento. A mudança se inicia no reinado de dom Pedro II, nas últimas décadas do século XIX. E no contexto da elevação do grau de urbanização do país e da modernização de nossas principais cidades. O Rio se expande, São Paulo dá um salto, as mulheres começam a se soltar.

Um sinal claro dessa transformação é visível na supremacia que o médico passa a ter sobre o confessor (o sacerdote foi, por cerca de três séculos, confidente e guru das fêmeas senhoriais; agora, a palavra do médico, com sua leitura objetiva do corpo feminino, valia mais: o corpo se tornava uma entidade mais real, mais tangível, o que significou uma alteração relevante na visão da mulher). Outro sinal está na intensidade assumida pela vida mundana, “em sociedade”, com recepções, saraus, concertos, etc. Era, para lembrar o título do livro de Wanderley Pinho, a voga dos salões e damas do segundo reinado.

“No século XIX, a vida da mulher da camada senhorial sofria algumas modificações, à proporção que se intensificava o processo de urbanização. Embora nenhuma alteração profunda se tivesse produzido em sua posição social, já não vivia reclusa na casa-grande. O ambiente da cidade propiciava mais contatos sociais nas festas, nas igrejas, nos teatros. A família patriarcal perdia sua dimensão rígida, permitindo à mulher desenvolver certo desembaraço de atitudes”, observa Heleieth Saffioti, em A Mulher na Sociedade de Classes: Mito e Realidade.

Mas só no século seguinte as mulheres das classes médias e altas irão desfilar, de fato, no espaço público das cidades, entre ruas, escritórios e lojas. Lembre-se, a propósito, do reacionário Menotti del Picchia protestando, em 1920, na Revista Feminina, contra as moças que “serelepeavam nos asfaltos, irrequietas e sirigaitas” e “se desarticulavam nos regamboleios do tango e do maxixe”. Além disso, as mulheres começavam a trabalhar, com mais frequência, fora de casa. E veio a onda da educação física e das práticas esportivas, com as mulheres exibindo seus corpos em movimento – corpos percebidos, a essa altura, em termos bem físicos.

Nas primeiras décadas do século XX, com o avanço do processo urbano-industrial, “a vida feminina ganha novas dimensões não porque a mulher tivesse passado a desempenhar funções econômicas, mas em virtude de se terem alterado profundamente os seus papéis no mundo econômico. O trabalho nas fábricas, nas lojas, nos escritórios rompeu o isolamento em que vivia grande parte das mulheres, alterando, pois, sua postura diante do mundo exterior” (H. Saffioti). O crescimento das cidades passou a fazer solicitações inéditas e trouxe novas formas de sociabilidade e lazer. Expostas abertamente aos olhares da população masculina, as mulheres das classes mais altas tiveram de se submeter a um novo aprendizado gestual. Tiveram de aprender a se movimentar – a andar e a se apresentar – no espaço público.

Veja-se o caso paulistano, examinado por Mônica Raisa Schpun, em Beleza em Jogo: Cultura Física e Comportamento em São Paulo nos Anos 20. Aquela foi uma década de forte crescimento da cidade. Os grandes proprietários rurais tinham trocado o campo pela vida citadina. A imigração, iniciada no final do século XIX, inundara a cidade com levas e mais levas de estrangeiros. O êxodo rural também despejara gente ali. A cidade, ela mesma, se modernizou. E é nessa paisagem urbana em plena transformação que vão circular as mulheres da elite – e devemos lembrar, aliás, que a própria autonomia (relativa) da mulher era tomada, então, como índice de modernidade.

“Mantendo a distância física (bairros residenciais e pontos de encontro reservados) e simbólica em relação às outras camadas sociais, o grupo a elite do café exibe a todo instante uma identidade social solidamente construída, insistindo nas fronteiras bem espessas que o separam do resto da população”, comenta Mônica Schpun. É uma elite que se deixa caracterizar por uma disposição bifronte diante do mundo. Cultiva a tradição, práticas ancestrais, a fantasia do quatrocentão descendente de bandeirantes. Mas quer ser moderna e cosmopolita. Nessa pauta, “os papéis das mulheres e dos homens na sociedade e na família estão sujeitos, ao mesmo tempo, ao respeito das tradições, para garantir as prerrogativas de classe, e às novas exigências de uma sociedade moderna, com mulheres emancipadas, presentes nas ruas, participando das formas de sociabilidade”.

Ainda Mônica Schpun: “A instalação da oligarquia rural na cidade gera conseqüências especificamente ligadas à ocupação do espaço urbano. Entram em ação códigos de diferenciação ligados à apresentação física, que preparam os cidadãos para repartir esse espaço de forma anônima, mas sem deixar de exibir, pelo modo de aparição pública, suas identidades sociais”. No caso das mulheres da elite, a nova didática do desempenho público nasce de um discurso normativo de gênero (o que define a mulher é a graça; ela deve ser espontânea, nada vulgar, ter sutileza na sedução) e implica determinadas práticas corporais (dança, natação, equitação, tênis etc), com a finalidade de assegurar o controle gestual e a juventude do corpo.

Vale dizer, uma certa ideologia do feminino conduz a uma certa “cultura da beleza”, com vistas a qualificar, em sentido classista, a presença da mulher no espaço público. Mônica: “A beleza espiritual e moral, defendida pelas vozes católicas, cede irremediavelmente seu lugar à percepção exclusivamente física da beleza feminina. O medo da feiura, que deve ser eliminada a qualquer preço, acompanha uma aprendizagem da apresentação física, com discursos sobre as diferentes partes do rosto e do corpo. Estes constituem um verdadeiro carnê de tarefas para a nova cidadania urbana, da qual os corpos participam cada vez mais. Pois a urbanização, e a intensificação da vida urbana que daí decorre, é responsável pela significativa presença e frequência das mulheres no espaço da cidade. Essa ocupação da rua, dos locais de lazer e de comércio – e, especificamente em relação às mulheres burguesas, dos espaços dedicados à vida mundana -, exige preparação, trabalho prévio a ser realizado sobre o rosto e sobre o corpo”.

Tudo para tentar alcançar o que Fernando de Azevedo, na época, batizou nos termos de uma “poesia da locomoção”. Para Azevedo, a educação física deveria produzir, no corpo das mulheres, efeitos de ordem estética. Para Mônica Schpun, é sintomático que Azevedo insista na “graça da ‘locomoção’ feminina, elemento que deve ser desenvolvido pela educação física: num momento em que o corpo das mulheres desfila mais… diante do olhar dos homens, nas ruas, lojas e espaços de lazer, é necessário que elas invistam no seu andar, alvo de novas atenções e, portanto, de novas vigilâncias”. Bem, o discurso normativo para as mulheres era, certamente, alienado e repressivo. Mas o que realmente importa sublinhar é que, no século XX, pela primeira vez em nossa história, mulheres de todas as classes sociais frequentavam os espaços públicos das principais cidades do país. Ao mesmo tempo, Mônica Schpun relativiza a mudança em curso, sem reduzir sua relevância:

“Os anos vintes são o palco de importantes transformações no que se refere ao aparecimento das mulheres na cena pública. Entretanto, é preciso matizar. Assiste-se com certeza, no período, à crescente exposição dos corpos femininos na cidade: todos os tipos de discursos exprimem a admiração que envolve essa presença, ainda muito recente, das mulheres nas ruas, nas lojas, nos eixos de sociabilidade, enfim, fora de casa, em espaços até aqui reservados à convivência masculina. Mas essa ocupação da praça pública… está longe de corresponder à experiência masculina. Um certo embaraço continua existindo na relação entre as mulheres e o espaço da rua; várias formas de resistência ao fenômeno procuram marcar maior intimidade dos homens com a cidade e lembram incessantemente que as mulheres pertencem antes de mais nada ao espaço privado. Nas situações de consagração coletiva, sua presença é ainda minoritária, tanto nos eventos esportivos quanto nas comemorações cívicas. As massas urbanas são mais masculinas que mistas. Apesar disso, mesmo que a divisão dos espaços públicos ainda seja muito desigual, em detrimento das mulheres, se pensarmos no tradicional confinamento destas, torna-se evidente que a realidade se transforma rapidamente. Elas saem mais, tendo cada vez mais álibis para estar na rua, mesmo que os álibis ainda sejam necessários e mesmo que tais saídas devam ser feitas preferivelmente em grupo. E essas transformações também envolvem as mulheres burguesas, mais vigiadas e confinadas ao espaço privado que as outras. O desenvolvimento do comércio, dos lazeres, do conjunto dos equipamentos urbanos as chama cada vez mais a transpor a soleira da porta”.

Discursos diversos sobre a mulher entravam também em cena. Acontecera já a aparição de Nísia Floresta, figura quase lendária do positivismo no Brasil. Mas poderíamos falar também da mineira Francisca Senhorinha, jornalista que editou o semanário O Sexo Feminino, defendendo igualdade de direitos para as mulheres – inclusive, o do voto -, em 1890, muito antes que o movimento sufragista aflorasse. Mas é nas primeiras décadas do século XX que a onda ganha corpo. Com os anarquistas pregando igualdade e mesmo o “amor livre”. Com a poesia erótica de Gilka Machado (“sinto pelos no vento”), uma das fundadoras do Partido Republicano Feminino, em 1910. Com a sergipana Ítala Silva de Oliveira e a bióloga paulista Bertha Lutz. Com Ercilia Nogueira Cobra: “…os homens no afã de conseguirem um meio prático de dominar as mulheres, colocaram-lhe a honra entre as pernas, perto do ânus, num lugar que, bem lavado, não digo que não seja limpo e até delicioso para certos misteres, mas que nunca jamais poderá ser sede de uma consciência… A mulher não pensa com a vagina, nem com o útero”.

Na década seguinte, teremos o brilho intenso de Pagu. Depois dos disparos inovadores e reluzentes do movimento da antropofagia, ela e Oswald de Andrade editam o pasquim O Homem do Povo. Um jornal agressivo, esquerdista, de caráter panfletário e humorístico, primando pela invectiva polêmica, que acabaria empastelado pelos estudantes de direito do Largo de São Francisco, sempre conservadores. Nele, além de fazer cartuns, Pagu assina uma coluna chamada “A Mulher do Povo”, onde critica hábitos e valores das mulheres paulistanas e, de uma perspectiva marxista, ataca o feminismo “pequeno-burguês” então em voga, com seus discursos emancipacionistas. Mais ou menos por essa época, as mulheres participaram também da conquista de um espaço público precioso. Do processo da reinvenção da praia no Brasil.

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