Alcoolismo seletivo

Chegando a Martins, encontro uma amiga de longo tempo, no Mirante Mãe-Guilé. Abração e cheiros. Ela pergunta: “François, você já foi alcoólatra”?. Respondi de pronto: “Não. Eu sou alcoólatra”. Não consigo viver sob abstemia de álcool. Porém, como em tudo tem porém, ou entretanto mas porém, como dizia Zé Limeira, meu alcoolismo é seletivo. Só tomo cerveja. E só tomo cerveja muito gelada. Ou chopp com pressão. E tem as marcas preferidas. Na ausência da cerveja, não tomo pinga nem uísque nem vinho. Quando muito, no meu alpendre em Cajuais da Serra, um vinho do Porto com queijo de coalho maturado, envelhecido fora de geladeira. Na praça Floriano, do Rio de Janeiro, tomo chopp com salmão grelhado. No bar da esquina da Cândido Mendes, na Glória, chopp com frango acebolado. No Catete, defronte do Palácio de mesmo nome, chopp com bolinho de bacalhau. É ou não é um alcoolismo afrescalhado? Na Colônia Penal eu tomava até refresco de maracujá com álcool. Gazaneo Cabral trazia álcool da oficina e nós o misturávamos numa proporção de uma garrafa de álcool para três de suco do maracujá. Mas hoje é democracia. Para esse regime de bosta, melhor do que a merda milicada, nada como uma frescura alcoólica. Fui, forçado pelas molecas, a uma psiquiatra. Ela lá pras tantas me perguntou: “Por que o senhor insiste na cerveja”? Respondi: “Pra não ter de gastar dinheiro com a senhora”!

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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