Lições pela pedra: Aldeia das Dez e o Piodão

Com um rio nos olhos, me falara aquela senhora dos dias secos. Áridos. Me falara do fogo que consumia a terra e matava os bichos. A vida desaparecia diante de seus olhos. Era verão em Portugal. Aquele rio baldeou meus sentimentos. Agora, eram dois rios vendo o fogo. Foi assim, que me chegou a gente daquela terra.

Não era verão, era primavera, eu estava na Aldeia das Dez, uma freguesia portuguesa do concelho de Oliveira do Hospital. Momentos antes do fogo, eu caminhava com mais duas colegas pelas ruas da Aldeia à procura de um mercado e acabara conhecendo aquela senhora. 

Dissera ela: ficamos aqui, enquanto o fogo queimava tudo. Ela descortinou os meus olhos. Fiquei horas e horas olhando para o horizonte mirando os pequenos pontos verdes. A vida curando a vida. Mais que ver, meus olhos agora eram também um modo de escutar. Agradeci a gentilize e nesse encontro de rios saí em direção ao mercado com os  olhos  marejados.

Leia “A influência da literatura brasileira no Neo-realismo Português”, de Beth Olegário

Esta foi a primeira lição que recebi quando cheguei na aldeia.  Havia feito a reserva para três dias com um grupo de amigos. Ficamos na Aldeia das Dez, no Largo do Terreiro do Fundo do Lugar, isto é, à cerca  de  34 minutos de Piódão. Cinco jovens de nacionalidades diferentes.   Ouvindo as pedras, o povo e as cinzas.  

Ao longe, a vida se renovava e com ela nos renovamos também. Estávamos no Terreiro do Fundo do Lugar. Pagamos 180 euros pelos três dias, mas as lições são para a vida inteira.

Piodão: a educação pela pedra

Na área rural de Coimbra, Piodão é uma aldeia que parece uma cidade em miniatura, no meio de um vale encantado.

De lá aproveitamos para ir ao Piódão, uma freguesia portuguesa do concelho de Arganil situada na encosta da Serra do Açor. Quem vê a cidade ao longe, fica maravilhado com o engenho de quem empinou as casas na encosta da montanha. As habitações possuem as tradicionais paredes de xisto, tecto coberto com lajes e portas e janelas de madeira pintadas de azul. A gente é hospitaleira, o lugar transmite um sentimento de paz e a maioria das casa tem a  imagem de um santo na frente.

Disse o poeta que em uma educação pela pedra é preciso “frequentá-la, captar sua voz inenfática, impessoal”. E assim foi. Três dias frequentando a pedra, vendo  casas  empinadas na encosta de uma montanhano Largo do Terreiro do Fundo do Lugar.

Quem contou-me essa história foi uma amiga que estava neste grupo de jovens no último fim de semana no Piódão. Ao ver as fotos deu-me vontade de quedar-me no lugar e altear-me no espírito. Há muitas formas de viajar.  Ouvir as pessoas talvez seja uma. (Beth Olegário).

* Também conhecida como ‘Aldeia  Presépio’, Piódão é considerada uma das 7 maravilhas de Portugal (categoria Aldeia) 

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