Alecrim – Um século do mais querido bairro de Natal

Alecrim 100

Primeira parte

Em 20111 o bairro do Alecrim, criado no dia 23 de outubro de 1911, completa cem anos. Como antigo morador do bairro mais querido e mais populoso de Natal, participo das comemorações do secular bairro que mora em mim e faz parte da minha biografia. Bairro onde brinquei criança e fui alfabetizado. Escrevo algumas breves crônicas sobre as escolas, cinemas, tipos populares, amigos de infância e avenidas onde habitei e percorri nesse bairro querido.

I – PADRE CALAZANS PINHEIRO

Na Rua Sílvio Pélico, onde morava seu Antonio, fica situado a Escola Estadual Calazans Pinheiro. Em homenagem ao importante educador e religioso Monsenhor José Calazans Pinheiro, nascido em São Gonçalo do Amarante no dia 27 de agosto de 1899 e falecido em 1946. Filho do capitão Manoel Joaquim da Costa Pinheiro e de Gertrudes Cassimiro Pinheiro, morador da Rua Vigário Bartolomeu.

Calazans Pinheiro ordenou-se padre em 20 de dezembro de 1891. Foi professor de Latim e Grego no seminário São Pedro e colégio Ateneu Norte – Rio- Grandense. Um homem culto também ensinou Geografia e publicou um importante com noções de Cosmographia.

Corria o venturoso ano de 1922 quando o sudeste brasileiro comemorava a Semana de arte Moderna. Uma grande festa feita por alguns dos maiores fazedores da arte e literatura brasileira.

Em Natal, o padre José de Calazans Pinheiro, lente de Geografia e Cosmographia, ensinava no famoso colégio Ateneu. O Pe Calazans publicou as suas Liçôes de Cosmographia em 1922 pela Typografia Leuzinger do RJ.

Um livro de excelente nível didático e com um conteúdo bastante abrangente. Formado de 25 lições e ao final uma lista de exercícios com três problemas pra cada unidade, tudo conforme o programa do Ginásio Nacional.

O livro começa com noções de Geometria Euclidiana. Estuda o universo e as forças da natureza, O sistema planetário e as leis de Kepler. A lua e suas fases, O sol e a atmosfera da Terra. Eclipses, as estrelas e constelações, o zodíaco e termina com os calendários Juliano e Gregoriano.

Chama atenção a riqueza de conteúdo e clareza das lições ensinadas pelo padre Calazans numa escola pública no início do século XX. Alguma ou outra informação precisava ser atualizada.

No geral o livro de Cosmografia do padre Calazans é muito bom e didático e cumpria bem a sua função numa época de difícil acesso a livros didáticos escritos em português.

Falta a bibliografia para torná-lo mais completo. Um livro que mostra o nível de nossa escola pública no passado e como eram bons seus professores que lecionavam com material produzido do próprio punho.

II- Tipos populares do ALECRIM

Em toda cidade tem seus tipos populares. No Rio grande do Norte eles são de montão.

Na Natal de antigamente foram muitos os personagens populares que fizeram a alegria da cidade e da meninada que têm um pacto com o capeta. Pouca gente conhece os seus nomes de batismo. No Alecrim eles animavam as feiras e os dias pacatos. Muitos eram fascinados pelo movimento veloz.

“Cuíca” pedia esmolas e quando era agraciado batia forte com a cabeça na parede, no chão ou na carroceria de algum caminhão. Quando a ente dizia Cuíca, ele respondia ajuizado: – meu nome é Juzé.

“Lambretinha” gostava de fazer ponto na Praça Gentil Ferreira, onde algumas vezes fazia suas trapalhadas e necessidades. Numa cidade de pouco tráfego de automóvel, Lambretinha acelerava e corria célere feito uma lambreta pelas ruas da cidade. Gostava de chupar laranja mesmo misturada com água suja. Dormia em baixo das mangueiras de Maria Boa. Certa vez um cliente perguntou se era boa aquela dormida, e ele de pronto respondeu: – seria melhor não fosse o barulho das meninas.

Outro doido que andava correndo era “Velocidade”. Veado assumido. Homossexual era pra gente granfina. Numa sexta feira Velocidade teve um banquete. Ao passear na companhia de um marinheiro numa sexta- feira, um menino que o conhecia brincou: – hoje é sexta-feira santa. Velocidade respondeu de imediato: – Marinheiro não é carne é peixe.

Muitos doidos eram deficientes físicos. “Maria sai da Lata” tinha um defeito na perna e pedia esmolas. Os meninos gritavam: – Maria sai da lata! Ela dizia correndo com um cabo de bassoura: – Maria sai da lata é a mãe.

Geraldo de Lagoa Salgada parecia um cachorro, quando sentado. Andava de quatro por conta do defeito físico. Também corria muito e freiava como se fosse um carro.

Muitos outros personagens fizeram a alegria da cidade de Natal, como um todo.

A viúva Machado comia o fígado dos meninos.

Cú de ouro foi um grande pianista.

A imperatriz do Brasil já não freqüenta o Teatro Alberto Maranhão.

Zé Menininho não toca mais sua sanfona e passou a batuta para André Rabequeiro, que também faleceu.

A cidade perdeu seus doidos famosos. Os de hoje são enrustidos e sem graça. O mais famoso é um que anda ali pela cidade alta e não acredita em Deus nem em nada.

– E Deus, fulano?!

– Que Deus que nada, nunca ninguém me deu nada.

Só se acalma quando recebe uma gorjeta

III O ALECRIM E O CINEMA

Foi no Alecrim onde vivi os anos risonhos da infância e onde tive os primeiros deslumbramentos com a sétima arte. Comecei vendo filmes caseiros projetados nas paredes. Depois foram os seriados e os filmes sazonais como a Paixão de Cristo, Marcelino Pão e Vinho entre outros.

No cinema São Pedro assistia todos os anos a Paixão de Cristo. Fazia parte do calendário da Semana Santa quando ouvíamos música sacra na rádio, não comíamos carne e terminava com danação do Judas.

No cinema “Olde” (depois transformado em Teatro Infantil de Jesiel Figueredo) assisti o filme “A Moreninha”. Uma projeção ruim e truncada. No São Luis vi muitos filmes de Tarzan, Zorro e outros capa e espada. Era ali, na calçada do São Luís onde trocávamos revistas e cromos dos belos álbuns de figurinhas.

Televisão só na casa do Dr. Grácio Barbalho, onde a meninada traquina reunia na frente da casa para brechar.

No Alecrim havia a maior concentração de cinemas de Natal, pouco lembrado pelos historiadores do écran natalense. Em comemoração ao centenário do Alecrim passo a listá-los em ordem aleatória.

Cinemas do Bairro do Alecrim

– Alecrim Cinema. O primeiro cinema do bairro foi inaugurado em 1918, na rua Mário Negócio, com os filmes O Triunfo, com Gaby Deslys em 7 partes e “As Modalidades de Marcos”, com Mary Doro em 5 partes

– Cine São Luís, situado na Avenida 2 (rua Presidente Bandeira). Inaugurado no pós-guerra , em 1946, com o filme “ Amar, foi minha ruína”

– Cine Alecrim, situado na célebre Praça Gentil Ferreira, inaugurado em 1947.

– Cine São Pedro, inaugurado no final do ano 1930, na Rua Amaro Barreto Nesse cinema eram exibidos os seriados O Cobra, O Homem Aranha, O Falcão do Deserto, os Tambores de Fumanchu entre outros.

– Cine São Sebastião, situado na Avenida 10 ( avenida Coronel Estevam), Inaugurado em 1947, em frente à Igreja de São Sebastião.

– Cine Paroquial (Cine Olde), na Rua Fonseca e Silva, ao lado da Igreja de São Pedro, inaugurado no final dos anos 60. Depois demolido para construir o Salão Paroquial da Igreja.

Fontes bibliográficas:Alecrim ontem, hoje e sempre, de Evaldo Rodrigues de Carvalho

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezesseis + cinco =

ao topo