Alegria, alegria

Por Joaquim Ferreira dos Santos
O GLOBO

Alienados e engajados se enfrentam em 1967

Caminhando contra o vento das evidências, eu reescrevo a história dos festivais e, diferentemente do que todos viram no documentário “Uma noite em 67”, declaro “Alegria, alegria” a grande vencedora.

Sem o lenço, que não se usa mais, e sem o documento dos jurados, eu abro o meu voto diante do belíssimo filme, mas, antes de explicar os critérios do julgamento, permitam me abaixar para escapar do violão que Sérgio Ricardo acaba de jogar na plateia. Permitam também saudar o coleguinha jornalista que no dia seguinte, para noticiar o incidente num jornal popular, estampou a célebre manchete “Violada no auditório”.

Em seguida viria 1968, “o ano que não acabou”, como quer o livro de Zuenir Ventura. Os jovens começaram 1968 como fossem, ali por junho, mais tardar julho, se sentar no trono do Alvorada, e eufóricos escreviam nos muros da cidade o fabuloso “a imaginação no poder”. Mas em dezembro houve o AI-5, e, muito antes de John Lennon anunciar para o mundo, o sonho acabava por aqui. 1967, se for preciso de um rótulo para explicar o Brasil por trás daquelas canções geniais, foi “o ano em que tudo começou”.

O sol musical de 1967 se repartia em times, e os principais colocavam em lados opostos os jogadores dos “alienados” e dos “engajados”.

Os primeiros vestiam calças apertadas da marca Calhambeque, os outros usavam japonas existencialistas de quatro botões. Os primeiros queriam inventar uma maneira menos culpada de amar loucamente a namorada de um amigo meu, os outros estavam preocupados em lembrar que gado se tange, engorda e mata, mas com gente é diferente.

Os alienados queriam a revolução do comportamento; os engajados queriam mudar a política. No festival da Record, eles colocaram música nesses projetos.

Quem gostasse da Jovem Guarda, dos livros de Moacyr Cirne sobre quadrinhos e do filme “Edu, coração de ouro”, com Leila Diniz, estava com a música de Caetano Veloso, principalmente aquela frase do “peito cheio de amores vãos”. Eram garotos que amavam os Beatles, os Rolling Stones, tomavam sem grilo a CocaCola dos imperialistas e sonhavam com cardinales bonitas, veruschkas deslumbrantes e outras dispersões dos sentidos. Se já houvesse a moda, tatuariam “O sol é tão bonito” na omoplata.

Dormiam abraçados com o Mug, um bonequinho que o Wilson Simonal havia lançado e, garantia a propaganda, dava sorte.

Não era de bom-tom universitário gostar de cabeludos e admitir numa música que está sem fome e sem fuzil no coração de um Brasil miserável, como Caetano perfilava o jovem classe média daquele momento. Era alienação demais.

A hora, diziam os guerrilheiros da MPB, era para anunciar que “pelos campos há fome em grandes plantações”. O herói de “Alegria, alegria” sonhava, onde já se viu?, em cantar na televisão.

Os engajados na luta social que o Brasil enfrentava queriam ter uma viola para cantar e sentiam chegar o seu momento de fazer a revolução.

Votaram em “Ponteio”, a vencedora do festival de 1967, uma música de aceno solidário para o Nordeste brasileiro, onde começaria, estava no subtexto das canções de Edu, Vandré, a mudança do status quo com a tomada do poder pelas Ligas Camponesas.

Nem chuva, nem sol, nem vento assustavam a turma dos participantes engajados, que sentiam, segundo “Ponteio”, estar chegando o momento de retomar o poder deixado por Jango.

Se Caetano não tinha nada no bolso, eles carregavam os seus cheios de bolas de gude para, no meio da Rio Branco, atirar nas patas dos cavalos da PM e fazer os guardas se estabacarem no chão. Em seguida cairiam os generais, que já estavam de quatro e só precisariam de um empurrãozinho. O sol para eles era uma bola vermelha desenhada atrás do cangaceiro no cartaz do filme “Deus e o diabo”, e a música mais bonita de todas era o estalo da aroeira no lombo de quem mandou dar.

Os engajados votariam em “Terra em transe”, de Glauber Rocha, como o melhor filme da temporada. Se isto aqui fosse um festival de cinema, eu também abriria o meu voto e ficaria contra. Colocaria em primeiro lugar o “Todas as mulheres do mundo”, de Domingos Oliveira. Aos que vaiassem a decisão, convocaria para assistir aos dois, quarenta anos depois de realizados, já sem o contexto da ditadura que se anunciava e a todos maltratava.

O filme de Glauber não deixa mais ninguém chegar ao segundo rolo, tamanha a confusão de despropósitos políticos com a câmera na cabeça e as ideias na mão. “Todas as mulheres” mantém a sofisticação pop dos 60, e seus diálogos poderiam ser escritos hoje.

Dito isso, tendo visto que aquela noite de 1967 levou para o palco a briga das ruas, tendo ouvido que música é outra coisa, eu declaro “Alegria, alegria” a grande vencedora do Festival da Record de 1967. É a canção que, passada a ditadura e enterradas as torcidas dos auditórios, permanece viva sem a necessidade de um desumidificador de ar ligado na voltagem máxima. Ela mudou a maneira de fazer letra, mostrou que era falsa a briga de nacionalistas contra entreguistas, desautorizou a viola e pandeiro como únicos instrumentos da MPB e, por que não?, botou fogo no smoking dos caretas.

A música de protesto era só um desabafo, e hoje ninguém consegue ouvi-las nem em passeata, que também já não existe. O tempo, este senhor carcomido pela razão, declara que o sol de quase dezembro venceu o sol do cangaceiro.

A revolução que ficou foi a alegria dos cabeludos em querer seguir vivendo.

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