Alemanha ano zero

ESDCRIFoto: Sophie Bassouls

MARCOS STRECKER
FOLHA DE SÃO PAULO

“O sucesso internacional não mudou os hábitos do professor Bernhard Schlink, 65. Ele continua orientando seus alunos, incluindo dois brasileiros, e procura manter com tranquilidade a vida dupla de escritor e jurista -de preferência, longe dos holofotes e das entrevistas.

Schlink mantém a fleuma mesmo depois de o best-seller “O Leitor” tê-lo transformado em uma espécie de símbolo da literatura da Alemanha reunificada. Quebrando sua própria regra de manter o isolamento, ele agora diz em entrevista à Folha que “o sucesso foi um presente, não um problema”. Para ele, “escrever sempre foi um prazer”.

Traduzido em mais de 40 países, o livro já tinha atraído a crítica internacional nos anos 90, mas a versão cinematográfica de Stephen Daldry, que concorreu ao Oscar neste ano e rendeu a Kate Winslet a estatueta de melhor atriz, trouxe o reconhecimento justo e tardio para o autor.
Agora, Schlink lança no Brasil “A Volta para Casa”, que reelabora temas de sua obra mais famosa e narra o misto de fascínio e repulsa de um jovem ao descobrir o passado do pai, que não havia conhecido, ligado ao nazismo. O escritor lida com a história e os personagens de maneira contraintuitiva. Ele se filia à tradição da “literatura da culpa”, mas a subverte. Para a literatura do país, marcada pelo peso do passado, mais uma vez, trata-se de simbolicamente reconstruir tudo do zero.

Em suas tramas a ambivalência dos personagens leva a dilemas morais que fogem das fórmulas fáceis. Nascido em 1944, Schlink mostra a complexidade da relação entre as gerações e evita o perdão ou a condenação. Ele argumenta: “A ambiguidade dos personagens não é apenas a verdade? Não é um erro inventar personagens que sejam bons ou maus, certos ou errados?”.
Para o sucesso de sua obra, certamente contribuiu a habilidade em retratar uma Alemanha que ajusta contas com seu passado: “Os leitores da “segunda geração”, aquela nascida logo depois da guerra, que é a minha, entendem os meus romances, que falam deles mesmos. Para os leitores das gerações seguintes, minha obra tornou-se uma maneira de compreender um capítulo da história do país que desperta interesse, mas não é a experiência deles”.

Segundo o autor, há “verdades e mentiras” sobre o passado. “Mesmo que não possamos saber exatamente a verdade sobre a história, certamente existem imagens mais verdadeiras ou falsas sobre o passado.”

Em relação às comemorações dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, que será lembrada no próximo dia 9, Schlink diz que “a terceira geração se sente mais livre em relação à culpa com o nazismo do que a segunda geração”. “A quarta geração mais ainda. Isso é mais importante do que a queda do Muro.”

Reunificação

Mas a Alemanha realmente está reunificada? Para o escritor, a verdadeira reunificação “ainda vai levar algum tempo”. “Mas não tanto tempo quanto a reunificação dos EUA após a Guerra da Secessão. A Alemanha está no caminho certo.”

Quando escreveu “O Leitor”, Schlink pensava na imagem de Hanna Schygulla para a personagem feminina. Antes que Kate Winslet fosse escolhida, sonhou com Jennifer Jason Leigh para o papel da cobradora de 35 anos que mantém um romance com um jovem de 15.
A abertura para um “perdão simbólico” da personagem (a condição de analfabeta, que não assume por vergonha e que poderia libertá-la) despertou críticas de autores como a americana Cynthia Ozick. Outros torceram o nariz para a origem na literatura policial.

Admirador de Raymond Chandler, Dashiell Hammett e Patricia Highsmith, o autor não se preocupa com isso. Diz que policiais podem ser “tão bons e profundos como qualquer obra literária”. “Há apenas boa literatura e má literatura.”

Presente e passado

Sobre a tendência de a literatura utilizar cada vez mais a história, diz que “o presente é muito complicado”. “Romances históricos estão na moda um pouco por escapismo.”

A respeito do trabalho de jurista, afirma que o fato de ser jurista e historiador de direito “não influencia” o que escreve. “Em qualquer texto, eu apenas expresso meu próprio pensamento. Minhas opiniões são refletidas na minha ficção”.

Ainda que a narrativa de Schlink não tenha a ousadia formal do conterrâneo W.G. Sebald, o que tornou esse outro autor, morto prematuramente, em uma espécie de coqueluche da literatura alemã, Schlink lida com temas modernos como a busca de identidade e dialoga com a tradição alemã, como o romance de formação e a narrativa da busca do “lar” (o “Heimatroman”).
No Brasil, já foi lançado também um livro de juventude de Schlink, “O Outro” -adaptado em filme por Richard Eyre, com Liam Neeson e Antonio Banderas. A editora Record vai lançar em maio sua obra mais recente: “O Fim de Semana”.

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