Alex Nascimento à deriva

Por José Correia Torres Neto

O mês eu não lembro, mas sei que foi lá pelos anos de 1985. Levantei o canto da boca como se um riso irônico fosse o complemento da frase que lia – “…o negócio chamado povo somos nós. E se a gente quiser ficar de fora, dá no mesmo: aí o povo passa a ser conseqüência nossa. Se a gente acha que ele é uma merda, que é isso, que é aquilo, é porque a gente é suficientemente covarde e canalha prá não reconhecer que nós é que somos uma grandessíssima merda”.

E lá fui eu, dentro do ônibus, engolindo palavra por palavra daquele texto fermentado que espumava a cada parágrafo. Ao meu lado uma moça, aparentemente com minha idade, espichava o canto do olho para ver o mapa do Brasil invertido que estampava a capa do livro. Na minha segunda manifestação de riso ele me perguntou se o livro era bom. Respondi à queima roupa: “Ótimo. É Quarta-feira de um País de Cinzas”. Voltei a capa do livro para a possibilidade de sua visão e disse “é de um autor daqui: Alex Nascimento” Li o trecho acima pra ela e, quando terminei, a vi levantando em busca de outro acento mais à frente. Ainda olhou meio de banda para mim, trocando o espanto por uma sumária reprovação. Os nossos dezessete anos estavam sendo batidos em um liquidificador por uma figura que entrava de vez em minha vida e se distanciava definitivamente da vida daquela moça.

Tinha comprado o livro numa semana anterior na Livraria Clima. Eu juntava alguns trocados por vários meses e escapulia do colégio – como numa via sacra do Alecrim à Ribeira – para comprar algumas edições. Sempre cabiam dois ou três títulos no que eu amealhava. Não pensei duas vezes quando li, logo no primeiro texto, o seguinte aviso: “No segundo capítulo trataremos da masturbação dos almirantes”. Arregalei os olhos, não de horror como a moça descrita anteriormente, e tive a certeza que aquele seria um dos exemplares que escolheria naquele fim de manhã.

Inalei aquele livro em menos de quatro dias. Lia rápido para descobrir se aquele autor conseguiria escrever algo mais louco, absurdo e irônico do que aquilo que estava na página anterior. E não era que ele sempre conseguia?

Nesta mesma época comecei a freqüentar os sebos de Natal. Comecei pelo melhor: o de Verinha e Jácio. Logo me entrosei com os dois e quando percebi já fazia parte das fichas de fiado. Conversa vai, conversa vem, comentei sobre “Quarta-feira…” e um deles me perguntou se eu já tinha lido “Recomendações a Todos”. Jácio cavoucou em duas ou três estantes e me veio com ele: “Recomendações a Todos – Alex Nascimento, edição de 1982”. Abri-o e tive outra surpresa logo no primeiro parágrafo do primeiro texto: “Quem esteve internado numa enfermaria de manicômio jamais esquece”. Daquele tempo em diante fui buscar algo mais de Alex e o encontrei em folhas de jornais e em “Alma minha gentil”, “A última estação” e “Almas de rapina”. Todos cegaram-me…

Em algum desses meses passados, o ator Henrique Fontes, amigo que tenho muita estima e admiração, contou-me, com um sorriso largo, irônico e como se já previsse a minha reação, que estava montando o espetáculo “Recomendações a todos”. Apalermei-me. Um sorriso frouxo, espanto e curiosidade se misturaram. O tema Alex Nascimento já tinha sido tratado em algumas conversas por nós. Foram várias rasgadelas de seda sobre os escrito daquele admirável e – com o máximo de respeito – atrevido desequilibrado.

No último dia 3 de julho – numa das edições do Circuito Cultural da Ribeira – fui convidado por Henrique para assistir um ensaio aberto de “Recomendações a todos” e presenciei o encontro de criador e criatura. Era visível que o grupo estava municiado de toda a ironia ácida e a irreverência de Alex e ele, por sua vez, assistia aquele ‘texto-criatura’ ser alimentado com luzes, vozes e talento. Pelo outro lado da minha lente eu observava o processo de estruturação, ou de experimentação, que as possibilidades dos textos promoviam ao grupo. Henrique Fontes, Marcos Doc, Bruno Coringa e Paulo Lima estranhavam-se, harmonizavam-se, levavam e traziam as intenções das palavras para cada uma de suas intimidades.

Enquanto que os suores do experimento saltavam de todos os poros, o criador deslizava o olhar nos infinitos cantos da sala, engolia as palavras, rememorava ironias. Fingi-me espectador ou talvez um leitor desfigurado tentado encontrar o homem no livro, ou o livro nos atores, ou o autor no roteiro, ou a cena em meu cotidiano.

O que sei é que a cidade vai presenciar, em breve, um parto meio natural, meio fórceps, de um espetáculo constituído por atores maravilhosos que entregam seus prazeres, talentos e corpos a um texto tão afiado feito uma lâmina que entrecorta ironias e segredos de cada espectador.

E como o próprio Alex disse: “Quando escrevo a sério e a turma leva na sacanagem, tudo bem. Triste é quando escrevo na sacanagem e a turma leva a sério”.

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