Algo em mim

Por Francisco Daudt
FOLHA DE SÃO PAULO

“Nós somos como um cavaleiro montado: pensamos ter as rédeas nas mãos, mas às vezes o cavalo tem ideias próprias e nos leva a lugares surpreendentes”, disse Freud para mostrar a influência do Id (das es; le ça; o isso) sobre nós. É mais uma tradução latina do alemão corrente, e mesmo estudantes de psicologia não fazem ideia do que significa.

Traduzi-lo para o inglês é fácil, pois corresponde ao pronome neutro da terceira pessoa do singular “it”, como usado em “it made me do it”. Em português, ficaria aproximadamente assim: “Não sei o que deu em mim, mas algo em mim fez com que eu fizesse essa besteira”.

Realmente, se trata de algo misterioso em nós “que sinto que é mais forte do que eu”, como habitualmente, em nossa linguagem do dia a dia, reconhecemos esse motor poderoso e desconhecido dentro de nossas mentes, que nos faz querer muitas coisas, mas não nos deixa escolher o que querer. Um típico exemplo é nosso desejo sexual: não somos nós que decidimos a quem vamos desejar, é “algo em nós”.

Freud, quando fez um desenho representando nossa mente, deu ao “algo” um espaço gigantesco, várias vezes mais amplo do que o “eu” (uma pequena interface entre o “algo” e o mundo externo), e disse que lá morava o nosso inconsciente, aquilo que sabíamos existir, mas não fazíamos ideia do que continha.

Hoje temos uma ideia do que contém nosso inconsciente. A psicologia cognitiva e a evolucionista deduzem que moram lá programas (softwares) que vêm na genética, como medos ancestrais, a janela gramatical (entre os 2 e os 11 anos permite que absorvamos a construção de frases “de ouvido”), os que nos direcionam ao prazer (carboidratos, gordura, beleza, sexo etc.), tendência para vícios, entre outros.

Moram também as fundações dos nossos aprendizados, para o bem (nossa língua de origem, que nunca mais saberemos como foi aprendida, p. ex.) e para o mal (as crenças infantis que atrapalham nossas vidas, desejos antigos que foram apagados –reprimidos– da memória por serem vistos como horríveis).

Para o bem, esse inconsciente se faz notar em cada coisa que fazemos com gosto, ou sem que nos perturbe.

Para o mal, o inconsciente reprimido se manifesta (sem que a gente o compreenda) em sonhos, atos falhos, lembranças remotas que parecem triviais, “bobagens” que nos encrencam “à toa” com pessoas ou lugares, e, finalmente, os sintomas de doenças psíquicas.

Mora também a modelagem sofisticada que nossos instintos animais e primitivos sofreram, porque somos capazes de aprender (somos animais culturais), resultando no chamado Desejo (com “D” maiúsculo), o grande motor singular das nossas vontades e ações.

Talvez você tenha passado pela intriga por não saber responder à pergunta feita com a canção “À flor da pele”, de Chico Buarque (O que será que me dá, Que me bole por dentro, Que brota à flor da pele, E que me sobe às faces e me faz corar, E que me salta aos olhos a me atraiçoar, Que dá dentro da gente e que não devia…).

Pois agora já sabe: é o Desejo, esse “algo dentro de você”.

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