Algumas considerações sobre a poesia de Adriano de Sousa

Por Thiago Gonzaga *

Interpretar um texto não é dar-lhe um sentido
(mais ou menos fundamentado, mais ou menos livre),
é, pelo contrário, apreciar o plural de que ele é feito.
Roland Barthes

A literatura potiguar nos anos oitenta formou toda uma geração poética de muito talento. Não há dúvidas que essa foi uma das melhores safras de poetas que surgiu ao longo da nossa história literária. Como exemplo, podemos citar o Laboratório de Criatividade da UFRN, que revelou escritores que, anos mais tarde, colaboraram muito com as nossas letras; basta citar os nomes de J. Medeiros (que, inclusive, publicou nos anos 90 o livro “Geração Alternativa” com muita gente boa da poesia potiguar dos anos 70/80), Rizolete Fernandes, Laurence Bittencourt Leite, Anchella Monte, Humberto Hermenegildo de Araújo e Adriano de Sousa. E é da poesia deste último que vamos tratar:

BIOGRAFIA

aos 20 anos
era um jovem poeta
promissor
aos 30 anos
era um jovem poeta
aos 40 já era

Adriano de Sousa possui um texto lírico que alcança seu desígnio como edificação estética, sua linguagem é um instrumento de comunicação praticamente intransferível, ou seja, uma linguagem muito subjetiva, objeto exclusivo do texto em que foi produzida, subordinada às condições de enunciação de cada palavra, tanto na localização quanto nos diversos significados semânticos que sugere.

Talvez, a melhor forma de avaliar o significado da palavra na lírica de Adriano de Sousa seja, como disse o crítico literário Yury Tynyanov, “a palavra não tem significado preciso”.  Para o estudioso, “a palavra é uma mutante na qual se manifestam não somente nuances diferentes, mas às vezes também desiguais”. A definição analisa as múltiplas possibilidades do sentido das palavras, de acordo com o contexto em que estejam inseridas.

A obra poética de Adriano de Sousa, é composta de quatro livros, “Flô”, 1998,“O Alvissareiro”, 2001, “Saartão”, 2004, e “Poesia” ,2008. O escritor representa uma das mais importantes produções literárias do Rio Grande do Norte nos últimos anos. Na obra lírica, o poeta de Alexandria distingue uma prática metapoética, através da qual são expostas diferentes perspectivas de poesia, da arte de ser poeta e das particularidades que tem o próprio verso.
A poesia potiguar, na sua segunda grande fase, anos 80, em que se insere Adriano, viveu um dos seus melhores momentos; basta citar, por exemplo, as estreias, em livro, de Diva Cunha e Marize Castro. Percebe-se, do ponto de vista literário, uma maturidade nessa geração, pois não há mais a necessidade de afirmação, mas, de levar adiante o projeto de liberdade de expressão e de continuidade da nossa tradição poética. Na poesia de Adriano nota-se a presença de versos livres e de temas voltados para as questões universais do homem, problemas filosóficos, existenciais. Verificam-se ainda reflexões sobre o fazer poético, além de um certo misticismo e,  por que não  dizer, uma intertextualidade com vários assuntos.

Encontramos poemas sociais e reflexões sobre o papel do homem no mundo; poemas metafóricos e metafísicos; com teor surrealista, em suma, uma poesia  que caminha cada vez mais para a percepção material da vida, e a lírica que envereda pela reflexão filosófica e existencial.  Exemplo:

AS FOGUEIRAS

Índios queimam índios
Índios queimam brancos
Brancos queimam índios
Brancos queimam brancos

A obra de Adriano privilegia a riqueza do léxico, numa linguagem que explora símbolos e imagens sugestivas, sobretudo as de forte apelo sensorial, enveredando inclusive pela musicalidade.

A rigor, Adriano de Sousa não está filiado a nenhum movimento literário. Sua poesia, de modo geral, evidencia certa inclinação para o neo-modernismo (expressão literária que tem como principal característica a multiplicidade: intertextualidade, ironia etc.). Essa tendência é confirmada pelo seu sentido participativo. Ele é desses artesãos que tiram o ouro de onde encontram, escolhendo por si as melhores pepitas, com rara independência e criatividade. E seria este o maior traço de sua personalidade poética.

Do ponto de vista formal, o poeta apresenta uma cuidadosa escolha vocabular. Cultivando uma poesia reflexiva, de fundo filosófico, abordou, dentre outros temas, a transitoriedade da vida, a efemeridade das coisas, do tempo, a criação artística. Além disso, a frequência com que os determinados elementos comparecem em sua poesia, confirma o caráter – como já colocado – neo-modernista. A atitude de questionamento e a tentativa de compreender o mundo revelam uma postura intuitiva, realizada, ao que parece, a partir das próprias experiências do poeta.

Seu texto perpassa vários momentos da poesia potiguar, fazendo eco a importantes movimentos estéticos, refletido com toda a sua força, o poder de síntese da palavra, em versos como estes:

NUDEZ

naquele tempo
eu não conhecia a palavra
epifania

Adriano de Sousa apresenta certas características que, de forma mais ou menos acentuada, vão permear todo o conjunto de sua obra: a poesia como totalidade, na capacidade dialógica com outros textos, outras artes; a utilização de técnicas variadas; temas diversos; algumas vezes agregando um caráter eminentemente metafísico ao seu verso. Valendo-se desse aparato Adriano de Sousa consegue expressar em profundidade sua preocupação com o fazer poético, a natureza da poesia e a função do poeta, tudo projetando simultaneamente o lirismo, a simplicidade e o alto espírito que perpassam toda a sua obra.  E transformam a vida cotidiana em poesia.

*Thiago Gonzaga é pesquisador.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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