Alguns comentários sobre o jornalismo de ontem e o de hoje

Por Tácito Costa

No domingo eu postei dois textos no SPlural sobre questões relacionadas a crise no jornalismo impresso, assinados por Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa (aqui), e Paulo Nogueira, do site Diário do Centro do Mundo (aqui). Na minha opinião está ocorrendo uma revolução tão profunda e transformadora quanto foi a inaugurada pela prensa inventada por Gutenberg no século XV.

Ontem (09) a Apple anunciou a criação do News, um aplicativo que permite ao usuário ler notícias de sites e blogs em uma interface que imita a de uma revista digital. São parceiros da empresa alguns dos mais tradicionais veículos de comunicação do mundo, entre eles, “The New York Times”, “The Guardian”, “Financial Times”, “The Telegraph” e “Daily Mail”, as redes CNN e ESPN, as revistas “The Atlantic” e “Vogue”, e sites como BuzzFeed e The Verge. No mês passado o Facebook anunciou uma parceria que segue o mesmo caminho com alguns desses meios de comunicação citados acima.

São mudanças tão radicais que ainda é cedo para se ter uma idéia precisa sobre o que de fato ocorrerá com o jornalismo no futuro próximo. Algumas coisas já são possíveis adiantar. Uma: as empresas de mídia perderam o monopólio da distribuição do conteúdo. Outra: a reinvenção da imprensa está sendo ditada pela Internet. Os jornais impressos estão indo a reboque por inépcia e comodismo. E certamente pagarão um preço alto por isso.

Essa parceria com gigantes como Facebook e Apple deverá garantir sobrevida por algum tempo aos veículos impressos. Quanto tempo ninguém sabe exatamente. Mas seus destinos estão selados. O Jornal de Hoje é o caso mais recente, bem próximo de nós, que exemplifica o que está ocorrendo. Deixa eu reforçar para não provocar mal entendido: o jornalismo não vai acabar, apenas migrará para a Internet. Se isso é bom ou ruim, se nos agrada ou não, são outros quinhentos. Eu vejo com otimismo essa reinvenção do jornalismo.

DE VOLTA AO COMEÇO

Volto ao início, quando citei o professor Castilho porque o artigo dele trata de uma questão delicada para o exercício da nossa profissão, o direito autoral. Aqui e ali esse tema é abordado nas redes sociais. Colegas protestam porque sua reportagem, publicada no jornal em que trabalham, foi republicada num blog. Não consideram honesto e correto o control c – control v, apesar da publicação dar o crédito do jornalista e do veículo.

Esse é um dos ‘problemas’ legados pela internet, onde vigora a cultura do compartilhamento gratuito. Essa cultura, claro, bate de frente com a legislação de direitos autorais, escrita quando não existia Internet. Encontrar um meio termo entre esses extremos é um desafio instigante.

Infelizmente, quer gostemos ou não, quer seja legal e honesto ou não, essa prática é universal na rede e é muito, mas muito difícil mesmo revertê-la ou controlá-la.

Em alguns casos isso deu origem a site e blogs que produzem e são também agregadores de notícias. Exemplos, o Observatório da Imprensa e este Substantivo Plural, para citar apenas dois, um de fora e outro local, que tem projetos parecidos, um é voltado para comunicação e o outro à cultura.

Veículos com esse tipo de perfil são crias da Internet. Com o excesso de informação em circulação, abriu-se um espaço para esse modelo de canal de comunicação. E eu não vejo como isso pode parar ou regredir.

DO ANALÓGICO AO DIGITAL

Eu vivi integralmente o jornalismo gutemberguiano. Sou do tempo da máquina de escrever, do telex, da paginação e diagramação manuais, do gravador e das máquinas fotográficas analógicas. Integralmente porque trabalhei em redação e na oficina gráfica de um jornal impresso. Conheci o processo como um todo e asseguro a vocês: era bem mais difícil fazer jornal naquela época.

A maioria fez a transição sem trauma para a nova era da informação, uns poucos ficaram pelo caminho. Quem era bom na era analógica continuou bom e até melhorou com os novos recursos propiciados pelos avanços tecnológicos. Quem era medíocre continuou medíocre, a tecnologia ajuda, mas não faz milagre.

Peguei o auge do jornalismo impresso, a década de 1980 e assisto nos últimos anos a sua inexorável derrocada. Acompanho há tempos com interesse toda a literatura especializada sobre a crise nos impressos e sempre me coloquei entre os que viram que o seu futuro estava seriamente ameaçado.

Não sinto nostalgia pelo modelo de jornalismo que está sendo superado. Acho, inclusive, que estamos melhores hoje do que antigamente. Graças à internet, que mexeu com a hegemonia da imprensa e possibilitou o surgimento de blogs, sites e portais, pequenos e médios, que asseguram um contraponto importantíssimo aos veículos tradicionais (em nível nacional e local) de comunicação.

Tanto a revolução de Gutenberg quanto a da Internet, no fundo, tiveram como consequências a democratização da informação e do conhecimento. Claro, não se faz uma revolução sem ‘mortos’ pelo caminho. E essa de agora, certamente, legará os seus. Mas, além dessas mudanças serem inexoráveis, na minha conta geral elas tem mais aspectos positivos que negativos. Então, vamos em frente, ‘com gosto de gás’ – rs.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Jóis Alberto 10 de junho de 2015 17:29

    Concordo com a maior de sua análise, prezado Tácito! Só acrescentaria que, hoje, um dos maiores desafios do jornalismo digital é como viabilizar maior número de anúncios publicitários na internet – computador, tablet, celular, etc – afinal ninguém acessa a rede mundial de computadores só para ver anúncios publicitários. Diferente da TV digital aberta, na qual o público é obrigado a ficar diante da TV na hora dos anúncios (ninguém fica se levantando do sofá, da rede, etc, a toda hora, para ir à geladeira na cozinha, ao banheiro, etc, na hora dos intervalos comerciais…). Então, discutir novas formas de remuneração publicitária nos espaços jornalísticos do ciberespaço deveria ser um dos grandes temas da atualidade e prioridades para jornalistas e publicitários. Mas o que fazem jornalistas e publicitários natalenses? Anunciam em outdoor a contratação de colunista social, como se essa fosse a melhor forma para garantir sobrevivência de jornais e de jornalistas, nesses tempos de novas mídias, interatividade, mobilidade, ubiquidade… Deixo claro também que nada tenho contra a presença de colunistas sociais nos jornais, já que eles tem o público deles, etc. Mas a grande questão que deveria ser considerada prioridade número 1 dos empresários de comunicação, jornalistas, leitores, ouvintes, telespectadores, é de como garantir receita – assinatura, publicidade, etc – em quantidade suficiente para cobrir custos de comunicação e garantir lucros de capitalista e, desse modo, também garantir empregos de jornalistas, frilas, parcerias, etc.

    • Tácito Costa 10 de junho de 2015 18:12

      Verdade Jóis, essa questão da publicidade é crucial para os veículos de comunicação. Obrigado pelo complemento.

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