Alice no país do Alzheimer

Por José Geraldo Couto
BLOG DO IMS

Confesso que, além do dever de ofício, duas coisas me levaram a ver Para sempre Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland: o fascínio pelo tema do mal de Alzheimer e a curiosidade pelo desempenho de Julianne Moore, a esplêndida atriz de Short cuts, Tio Vânia em Nova York e Magnólia. Ela, de fato, é extraordinária. O filme, nem tanto.

O que o Alzheimer tem de fascinante é justamente o que tem de mais terrível – a dissolução progressiva da personalidade do indivíduo, de suas memórias, de suas referências, de tudo aquilo a que damos o nome de “eu”. Para sempre Alice até que descreve esse processo de modo convincente, mas sem aprofundar e desenvolver suas várias possibilidades, mantendo-se nos limites rasos do melodrama familiar. De certo modo, as regras e clichês do gênero é que impedem uma abordagem mais inventiva ou rigorosa da situação.

Diálogos e música

Trata-se, como se sabe, da história de uma professora universitária de linguística (Juliane Moore) que, aos 50 anos, é diagnosticada como portadora de uma forma rara do mal de Alzheimer. O problema do filme é que cada aspecto do drama pessoal de Alice é exposto, discutido e resolvido nos diálogos. É pouco mais que uma ilustração audiovisual do livro de Lisa Genova em que se baseou.

Contam-se nos dedos os momentos em que se buscou uma expressão especificamente cinematográfica para o mal de Alice. Um deles é a cena em que, ao fazer seu jogging habitual, ela se perde em pleno campus da Universidade Columbia, que conhece – ou deveria conhecer – como a palma de sua mão. Enquanto a câmera gira em torno da personagem estática, as pessoas, árvores e objetos em volta vão perdendo o foco até quase diluírem-se num borrão multicor.

Também a primeira manifestação da falência mental de Alice tem sua contundência: no meio de uma palestra, em que falava de modo desenvolto sobre uma assunto que dominava, ela esquece uma palavra básica – e faz-se o silêncio. O silêncio, que sempre produziu desconforto no cinema falado (Godard diz, com razão, que a televisão não comporta o silêncio), tem-se tornado cada vez mais raro, sobretudo nas produções americanas – e esta não é exceção – encharcadas de palavrório, efeitos sonoros, música bombástica ou sentimental. Pena que os diretores de Para sempre Alice não tenham seguido sua própria dica, optando em vez disso por explicar as ideias pela palavra e enfatizar as emoções pela música.

Outros dramas

Seria injusto comparar este filme com Amor (2012), de Michael Haneke, que aborda um tema semelhante e também conta com uma atriz magnífica, Emmanuelle Riva. Não só porque os personagens de Haneke são um casal de idosos, mas porque seu tema, como autor, sempre foi a ambiguidade dos sentimentos, a proximidade entre o amor e a crueldade. Mas o cotejo é inevitável, até porque a última palavra de Para sempre Alice é justamente, “amor”.

Se no filme de Michael Haneke a palavra é problematizada – de tal modo que no clímax da narrativa o amor se traduz no gesto mais brutal que pode haver –, em Para sempre Alice tudo conflui para a mensagem edificante do amor como bálsamo, quase como “cura”. Há uma acomodação narrativa para encaixar, previsivelmente, a velha parábola do filho pródigo – da filha pródiga, no caso.

Como não se pode esperar peras do olmo, isto é, que da linha de montagem hollywoodiana saia uma obra de Haneke, talvez um paralelo mais adequado pudesse ser feito com outro melodrama familiar americano que lida com doença degenerativa, O óleo de Lorenzo (1992), de George Miller. Neste, sem abandonar os códigos e limites do gênero, o diretor mergulhou mais fundo nas implicações lógicas da doença e, sobretudo, nos conflitos dramáticos entre os personagens, sem aparar arestas para acomodar sua “mensagem”. E foi pródigo em soluções narrativas e visuais, em contraste com a mise-en-scène burocrática e o campo/contracampo aborrecido que predominam em Alice.

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