ALIMENTOS ORGÂNICOS: Alexandra trouxe aos montes

Alexandra Cristina Soares tinha oito anos, quando estourou a Guerra Civil Angolana.

Corria o ano de 1975, e a filha de comerciantes portugueses, também criadores de gado no país sustentáculo da economia brasileira colonial, pouco entendia o apocalipse em volta.

Assim que a então colônia conseguiu sua independência de Portugal, teve inicio uma luta fratricida entre militantes do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Libertação Total de Angola (UNITA), ambos de inspiração marxista-leninista. Fala-se em mais de meio milhão de mortos, em quase três décadas de confronto.

“Ou saía ou morria todo mundo, como na Síria agora. Saímos só com a roupa do corpo. Ficamos sob guerrilha oito meses. Foi muito de repente. Começaram sem avisar ninguém. Fomos pegos de surpresa. Faltava comida, tinha toque de recolher”.

Carregada por pai e mãe, ao lado de duas irmãs adolescentes, a criança saiu de Huambo, outrora nomeada de Nova Lisboa, e cruzou o Oceano Atlântico, como milhões de negros caçados nos sertões angolanos, para desembarcar em São Paulo. Foi na capital paulista que se formou enfermeira pela USP e viveu por 34 anos.

“O Brasil acolheu a gente. É um país maravilhoso. Do Brasil eu só tenho coisa boa a dizer. Tem os políticos, né? Paga-se muito imposto, mas quando você quer, se tiver uma ideia e colocar em prática, você consegue aqui”.

A fuga da morte para a nova vida a isolou de amigos e familiares. Ao relembrar da madrinha e de um amigo chamado Fernando, sua voz embarga e os olhos intensificam o brilho, lacrimejantes.

“Minha madrinha faz 40 anos que não vejo. A gente se reencontrou pelo Facebook, há dois anos. Foi uma choradeira”.

Até que uma pequena horta foi plantada em casa. Logo Alexandra iniciou uma perambulação por cidades do interior paulista em busca de mudas e sementes. Era o inicio de uma paixão que transbordaria aqui em Natal, no instante em que decidiu morar em um lugar mais tranquilo – com a violência atual das gentes potiguares, quem sabe o plano fosse adiado.

“Eu cansei de São Paulo. Já estava muito saturada, com três empregos. Resolvi fazer o litoral todinho durante as férias, por oito anos seguidos. Comecei de Fortaleza e fui até o Rio Grande do Sul, viajando para ver onde ia montar meu porto seguro. A gente não queria cidade grande, mas também não podia ser pequena. Tanto que pensei em morar na Serra de São Bento. Mas pensei que tenho que ter urbanização perto de mim, porque numa situação de urgência você tem que ter hospital. Aqui em meia hora eu chego em qualquer canto. Escolhi Natal também por ser muito mais próximo de Portugal.”.

Horta orgânica_4

Hoje Alexandra é dona da Horta Orgânica Capim Macio (na rua Américo Soares Wanderley 1937). Um lugar feito para ser visitado com calma. Repleto de pés de alface, rúcula, alecrim e até café, forma uma paisagem destoante do entorno, um dos palcos do capitalismo desenfreado que estourou a bolha imobiliária natalense dos últimos anos.

Ela morou em um apartamento em Nova Parnamirim, antes de comprar a casa vizinha a horta. Foram quatro anos de paquera. Mais outros tantos para adquirir o terreno (abandonado pelo antigo proprietário) que virou um dos redutos da capital potiguar para quem aposta na eliminação total de agrotóxicos nos alimentos.

“A cultura aqui do Nordeste é de não comer verdura. É a cultura de comida pesada, já no café da manhã. Então eu tinha uns amigos que se reuniam para fazer churrasco. Eu comecei a levar formas cheias de alface americana, rúcula, tomate cereja, e o pessoal falava: ‘Imagina, vou comer picanha com esse negócio? Aí eu fazia molho de mostarda com mel e limão e eles começaram a sentir uma coisa melhor no trato digestivo. Hoje esses meus amigos não conseguem mais comer carne sem acompanhamento de uma saladinha. Tem que ter alguma coisa verdinha. Começamos aí”.

Aberta como negócio em 2010, a Horta Orgânica Capim Macio e a casa de Alexandra e Alceu Garcia, com quem está casada há 14 anos, dispensa coleta de lixo. Na fachada da moradia consta um aviso que deve animar e inquietar garis.

Assim está escrito numa placa:

“Os moradores desta residência Nº1935 dispensa [sic] a coleta de lixo; porque? Do lixo transformamos em composto orgânico para as plantas”.

A fundamental compostagem. Segundo a conterrânea de Pepetela (este um ex-combatente da MPLA) e José Eduardo Agualusa, autores angolanos que gosto muito, duas pessoas geram nove toneladas de lixo orgânico por ano.

“Duas pessoas! Agora imagine Natal inteira. Quanto não ganharíamos para a natureza com a decomposição natural de alimentos para servir de adubo?

Doações para escolas, visitas de grupos de alunos, professores universitários, o boca a boca cresceu.

“O objetivo não era esse. Era mostrar que o orgânico é possível, que queríamos levar saúde para as pessoas. Aqui nós fazemos tudo por prazer. Na hora em que eu tiver estressada demais e começar a perder meu bem querer aos clientes, paro tudo. Queremos que as pessoas venham aqui, sintam a paz, nada de correr, aquela coisa toda. Alimentação precisa ser feita com amor. Tem que ter luz, uma troca”.

Horta orgânica_5

Seus primeiros clientes foram Anna Maria Cascudo e Camilo Barreto. A emoção ao lembrar como conheceu a filha de Luís da Câmara Cascudo veio fácil – o folclorista potiguar contava a saborosa historieta de um primo que dizia não ser “largata pra comê foia”.

Alexandra, cozinheira de mão cheia que faz um bolinho de bacalhau bastante disputado, estava na seção de peixes do Nordestão, certo dia, ao ouvir de surpresa:

“A senhora gosta de fazer bacalhau?”

Era Camilo, que ouviu a resposta afirmativa, mas desconfiou do sotaque.

“Mas como uma portuguesa não fala purrtuguês”.

Trocaram telefones, para tempos depois Alexandra fazer uma visita de cortesia ao escritório de Camilo em Cidade Jardim. Bastou um primeiro pedaço para Anna Maria ser acionada:

“Mulher, eu tenho uma coisa dos deuses aqui, estamos voltando à Portugal”.

Isso tudo sem que a descendência da escritora potiguar, morta no ano passado, fosse revelada. Daí começou uma grande amizade, que incluía visitas do casal à casa de Alceu e Alexandra. Até que Anna Maria, numa tarde regada a vinho, mencionou o plano de escrever sobre as memorias do avô – os bolinhos são chamados da ‘Vovó Garcia’. Alexandra perguntou se ela era escritora e tomou um susto ao saber de quem se tratava.

No momento, 30 famílias de Macaíba, Extremoz, da Serra do Doutor (na Borborema Potiguar), da ribeira do Rio Curimataú e de Mamanguape (PB) vendem seus alimentos na Horta Capim Macio. O que lá não é plantado, Alexandra paga para trazerem. Não sem antes conferir pessoalmente nas granjas, sempre às segundas-feiras – dia em que fecha o espaço para o público.

“Nosso sonho mesmo era ajudar a reflorestar a Mata Atlântica daqui. Trouxemos 33 ipês brancos, que é muito raro, e plantamos nessas regiões que temos relação”.

Quem compra frutas, verduras e hortaliças com Alexandra percebe o engano sobre um suposto alto custo dos alimentos orgânicos.  Extraídos de sua própria terra, ou das pequenas propriedades supracitadas, têm mesmo preço ou mais baixo do que os anabolizados dos supermercados convencionais.

“Não preciso ganhar mundos e fundos, já ganho o suficiente. Não vou e nem quero ficar rica”.

Nosso papo transcorreu sob um caramanchão coberto por guaco, planta muito usada para infecções respiratórias. Boa parte do tempo ao som do miado da gata Maria Valentina, um dos tantos animais soltos na Horta Orgânica. “Quando chegamos aqui, não existiam bichos no terreno. Hoje temos vários. Não usamos gaiolas. Todos os pássaros ficam soltos por aí”.

Horta orgânica_2

Fotografias: John Nascimento

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Virgo Aurora 27 de Fevereiro de 2016 8:36

    Que história!!!
    Fiquei maravilhado quando conheci o local pelo inusitado: um jardim de frutas & verduras no meio de um bairro populoso. Num mundo sem quintais, nosso peito enche de alegria ao entrar nessa horta.

  2. Conrado Carlos 27 de Fevereiro de 2016 19:52

    Grande Virgo!..rs
    O lugar e a Alexandra são realmente raridades nessa vida urbana que levamos. Abraço, amigo!

  3. Aristotelino 10 de Março de 2016 14:15

    Querida Alexandra. Quanta felicidade ao ler a reportagem. Vocês são uma inspiração. Do amigo de sempre, Toti.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP