Alívio! Nunca mais nunca antes

Por Roberto Pompeu de Toledo
VEJA

Houve um tempo, raciocina o professor Ricardo Morante, em que era obrigatório fazer tudo numa grande ordem. “As coisas, por exemplo, começavam todas pelo começo e acabavam pelo fim”. O professor Morante é um personagem de ficção. Figura no romance Doutor Pasavento, do catalão Enrique Vila-Matas (foto). O tempo em que as coisas tinham começo e fim é localizado por Morante na década de 70 – a de sua mocidade. Não lhe custou muito compreender que se tratava de uma ilusão. Não há histórias acabadas. Isso é uma invenção da literatura. “A literatura”, explica Morante. “consiste em dar à trama da vida uma lógica que não existe. Na minha opinião, a vida não tem trama, nós é que a acrescentamos, quando inventamos a literatura.”

As considerações de Morante ocorrem durante diálogo com o narrador do livro, o “Doutor Pasavento” do título. São ambos escritores, Morante conta que “o filme de sua vida” é Viagem à Itália, de Roberto Rossellini. E isso porque a história se abre com um diálogo que já vai avançado entre um casal (Ingrid Bergman e George Sanders). O espectador tem a impressão de ter entrado no cinema no meio da sessão. “Com essa primeira sequência”, diz Morante, “creio que Rossellini estava consciente de que, já que a vida é um tecido contínuo e qualquer princípio é arbitrário, uma narração pode começar num momento qualquer, na metade de um diálogo, por exemplo.”

O doutor Pasavento não só concorda como lembra que não é por outro motivo que a Literatura começa com relatos de viagem. Na Antiguidade, “não se sabia ainda o que era contar uma história, mas se sabia perfeitamente o que era uma viagem”. Ela fornecia a “trama ideal”, porque, “se havia uma coisa que tinha um começo e um fim, essa coisa era a viagem”. Daí a Odisseia, de Homero, que conta a atormentada viagem de Ulisses de volta para casa. “As viagens tinham um começo e um fim. Isso punha uma ordem nas coisas se a gente quisesse contar uma história e demarcá-la de forma que começasse e terminasse.”

O que vêm fazer o professor Morante e o doutor Pasavento numa coluna que costuma tratar de assuntos da atualidade? O leitor esperto já adivinhou. O diálogo entre eles vem a propósito das duas mais candentes ocorrências destes dias: o ano novo é o governo novo. O.k., é bonito e útil numerar o tempo e viver um dia como o do réveillon, com suas promessas de recomeço. Dá margem a esperanças e manifestações de generosidade. Mas a esta altura, já avançados para meados de janeiro, retomamos a consciência de que o ano novo é, e sempre foi, lima fraude. Nenhuma trama se fechou. Seus fios se estendem, inconclusos e em grande parte desconexos, ano novo adentro, sem atenção ao vão esforço, tão humano quanto andar de pé, de aprisioná-los no calendário e dar-lhes algum sentido.

Do governo novo quase se pode dizer a mesma coisa. Claro, a pessoa no comando é outra, sua formação e personalidade são outras, até seu sexo é outro. Mas, já não fosse um governo do mesmo partido, constituído em grande pane pelos mesmos integrantes do anterior, ainda resta que, no plano mais geral da história do país, nenhuma trama se findou, assim como nenhuma outra começou, mesmo porque, como diria o professor Morante, na vida real não há trama. Quem se iludia pensando o contrário era o presidente que encerrou seu mandato no último dia 31. Ele achava (e continua achando) que havia reinaugurado o Brasil. “Nunca antes neste país”, foi seu bordão. Nunca antes o país conhecera um presidente capaz de igual jactância.

Se se pode adiantar algo de altamente positivo com a posse de Dilma Rousseff é que nunca mais se ouvirá o “nunca antes”. Ela não poderia ousar dizê-lo sem ofender o antecessor. Ele é que reinventou o país; a ela só cabe continuar-lhe a obra. De todo modo, ela não diria mesmo. Não tem o mesmo tosco sentido da história, e deu mostra disso na passagem do discurso de posse em que afirmou que “um governo se alicerça no acúmulo de conquistas realizadas ao longo da história”, e emendou que, por isso, era “justo lembrar que muitos, a seu tempo e a seu modo, deram grandes contribuições às conquistas do Brasil de hoje”.

Foi uma rápida menção. Dilma conteve o recado, no qual incluiu também a noção de que governos são uma mistura entre mudança e continuidade, em 51 das 3612 palavras do discurso no Congresso. Menos que 1,5% do total. Foi breve a pomo de talvez ter driblado a atenção do antecessor e esperta a ponto de não citar nomes, para não ferir-lhe a onipotência. Não importa. A inteligência, o bom gosto e o bom-senso agradecem.

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