Allegro Rubato

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ALLEGRO RUBATO
Gêneros textuais e campos de saber em Câmara Cascudo.

Por Marcos Silva
(Depto. de História da FFLCH/USP)

A produção intelectual de Câmara Cascudo se deu em múltiplos gêneros de escrita (crônica, ensaio, monografia, romance, poesia, memória e livros de viagem) e diferentes campos de conhecimento (História, Estudos Literários e Etnografia, para ficar restrito aos mais marcantes). Essa diversidade costuma ser identificada apenas como trabalho de polígrafo, característica da produção cultural menos especializada, ensaística e anterior às classificações universitárias correntes a partir dos anos 30, no Brasil. Agindo assim, corre-se o risco de pensar que seus vários textos existiram apenas paralelamente uns aos outros, configurando uma História sem Cultura Popular (os livros de História) e uma Cultura Popular sem História (os livros de Etnografia), mais as reflexões impressionistas sobre Literatura, como se não se esclarecessem e constituíssem de forma recíproca e simultânea.

No entanto, como numa audição musical, esses gêneros e campos foram alegremente executados, pelo escritor, ad libitum, acelerando e atrasando andamentos, “roubando” resquícios de acordes anteriores e tendo fragmentos de outros acordes “roubados” pelos que viriam depois. A terminologia própria à música, aqui evocada, é adequada para um prosador que também tocava piano “de ouvido” (sabia ler e escrever música, teve aulas regulares de piano) e escreveu livros que citaram e assumiram melodias, harmonias e ritmos[1]. Esse Allegro rubato é uma prática de auto-pirataria, que não deixa os escritos de Câmara Cascudo em estado de pureza, no plano de gêneros ou especializações: antes, opera permanente mistura de conquistas, rendendo alguns de seus melhores momentos.

Discutirei crítica e iluminação recíproca em dois exemplos desses gêneros e campos cultivados pelo autor em diferentes momentos, numa peculiar auto-intertextualidade em sua obra. Explorarei dimensões autorais no percurso de Câmara Cascudo, sujeitas a transformações, na historicidade de sua produção. Concentrarei a análise nos livros Alma patrícia (1921) e Vaqueiros e cantadores (1937)[2]. A seleção desses títulos se concentrou na etapa inicial de produção do autor, até à primeira obra maior (junto com Vaqueiros e cantadores, o Autor lançou, em 1938, O Marquês de Olinda e seu tempo[3]), sem desmerecer outras de suas grandes criações posteriores a esta.

Câmara Cascudo publicou seu primeiro livro, Alma patrícia, quando contava 23 anos. Ele já escrevia em jornais ao menos desde 1914[4].

Alma patrícia recebeu o subtítulo Crítica literária, misto de identidade de gênero e programa de trabalho. É dedicado exclusivamente a autores norte-rio-grandenses, com predomínio de poetas e destaque secundário para jornalistas, registrando uns poucos dramaturgos, sem maior entusiasmo.

O título dessa obra, diante de seu conteúdo, permite pensar sobre o projeto de definir um “nós” – os potiguares, os patrícios -, dotados de uma alma, através de sua Literatura. Ao mesmo tempo, o adjetivo “patrícia” também evoca condição aristocrática, algo que se destaca do comum: nós, potiguares, já temos uma alma, e essa alma não se nivela por baixo; a Literatura erudita do Rio Grande do Norte, mesmo que falha, nobilita o estado.

Temos uma alma, também temos um passado (os escritores potiguares, desde o século XIX) e poderemos ter um futuro ainda melhor a partir de agora, pois existem novas bases eruditas para a produção artística e intelectual no Rio Grande do Norte, incluindo a crítica, auto-legitimada no ato inaugural que esse livro representou (AP, p 61), mesmo com a declaração de sua impossibilidade em Natal (AP, p 160), desmentida pelo próprio volume.

Temos uma alma, o que significa uma identidade: num dos maiores elogios ao poeta Ferreira Itajubá, Câmara Cascudo declara “Só Itajubá é nosso.” (AP, p 123). A questão não foi registrada pelo crítico apenas em relação a seu estado natal: ele mencionou uma carência de alma em escala brasileira, expressa no escasso entusiasmo do povo pelo passado do país (AP, p 26). O projeto, portanto, ia além daquela província.

O livro Alma patrícia foi caracterizado pelo escritor, sob o signo da retórica da humildade, como “crítica impressionista e admirativa”, imagem destacada por Moacy Cirne, em seu verbete sobre aquela obra[5]. Junto com a retórica da humildade, tal juízo também envolveu uma política de boa vizinhança em relação aos escritores comentados, tendo em vista as duras restrições a alguns deles.

Afinal, nem só Segundo Wanderley – tardio poeta condoreiro, então muito prestigiado no estado, e visto com extremas reservas no livro de Câmara Cascudo, numa linha de crítica iniciada antes por Antonio Marinho[6] – mereceu reparos do jovem autor. Palmira Wanderley teve muitos versos cotejados com similares de antecessores, numa elegante acusação de plágio. O excesso regional de Virgílio Trindade apareceu como obstáculo para sua compreensão noutras terras (não bastava, portanto, o regionalismo, era preciso ser entendido mais além, demonstrando uma vontade de que a Literatura potiguar atingisse diferentes estados e superasse o “miopismo convencional do Sul”- AP, pp 49 e 160). Uldarico Cavalcanti foi avaliado como repetitivo. Francisco Palma só não foi considerado ”imensamente monótono e sobejamente tolo”, como o espanhol Eschich, porque “Escrevia pouco e quando o fazia era inspirado” (AP, p 57), e teve evocados os limites próprios à Cidade do Natal:

“É lógico que numa cidade como Natal de 1899, sem livrarias, sem correntes de idéias, sem críticas, sem um vínculo ligando-a aos centros pensadores do País, as produções literárias sejam feitas num ritmo igual de parco vocabulário, deslizes de gramática e de vigor.”.

Francisco Ivo Cavalcanti (que foi professor de Câmara Cascudo) mereceu elogios pessoais, junto com indicação de limitações – “encantadora pieguice dos começantes. (…) erros, lacunas, pontos falsos de lógica e de observação.”, além de exemplificar o risco de a popularidade ser vulgarização, tema retomado em relação a Segundo Wanderley (AP, pp 64 e 66). Ezequiel Wanderley foi caracterizado pela ausência de método e esforço, como autor de versos – “Muitos deles horribilíssimos” – marcados por um Condorismo ultrapassado.

E sobre o impressionismo, vale a pena estar atento a dimensões de método naquela crítica, englobando desde traços naturalistas (alusões a Hippolyte Taine e Sylvio Romero – referências aos vínculos entre Literatura e o meio social e natural; relações entre Ponciano Barbosa e o sertão ou o mundo operário; entre Ferreira Itajubá, as três raças formadoras do Brasil e a natureza potiguar; e entre a triste rua onde morava Gothardo Neto e seu estilo poético. AP, pp 105, 103, 111, 113 e 135), até às menções canônicas a parnasianos (Lecomte de Lisle, José Maria de Heredia, Olavo Bilac, Raimundo Correia e Emílio de Menezes), evocações menos modelares de simbolistas (Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, Paul Verlaine, Stéphane Mallarmé, Cruz e Souza, Gonzaga Duque) e grande vontade do Novo, tudo isso envolto em cenas de erudição explícita, citando nomes e idéias em profusão…

Ecletismo, com certeza; Impressionismo, talvez sim, mas apenas em alguns tópicos específicos, como na crônica sobre Auta de Souza, marcada por uma forte dose de Psicologismo sentimental.

As relações de Câmara Cascudo com o moderno, nesse livro, surgiram sob o signo de alguma ambigüidade, o que não era tão diferente de outros brasileiros seus contemporâneos. Por um lado, a modernidade era convocada contra os condoreiros (AP, p 78), além de aparecer transfigurada como elogio a ser original (em relação a Ponciano Barbosa, AP, p 107, e cobrada de Edinor Avelino, p 159). Por outro, um cânon literário foi celebrado e o moderno chegou a ser oposto à pureza (AP, p 59 – a Poesia de Francisco Palma como uma “braçada de lírios”, em contraposição às “flores estranhas e venenosas” de Verlaine, Mallarmé e outros).

Essa hesitação conviveu, todavia, com um olhar atento à nacionalização da Literatura potiguar e à identidade do norte, aludindo a Ferreira Itajubá (AP, p 60), autor que mereceu, de Câmara Cascudo, paralelos monumentais – com os portugueses Camões e Bocage, mais os gregos Demóstenes e Diógenes… (AP, pp 112/113).

A preocupação do crítico potiguar com o estabelecimento de vínculos entre Literatura e meio social ou natural não o impediu de indicar diferenças entre a voz física ou social e a voz lírica. Ele submeteu aquelas relações a necessárias mediações que a análise deveria esclarecer (AP, p 146).

Câmara Cascudo encerrou esse livro com dois tópicos: um intitulado “Alma patrícia”, balanço geral do livro e programa para a ação cultural no Rio Grande do Norte; e uma “Parte histórica e bibliográfica do Alma patrícia”, apresentando os autores comentados, em termos biobibliográficos.

O primeiro desses itens arrolou novos talentos (“Os Novos compreendem bem o seu lugar na literatura” AP, p 157), propondo maior contenção a um deles (Jayme dos Guimarães Wanderley – AP, p 160), identificando nas trovas “única expansão poética do Povo” – quer dizer, já admitindo uma Poesia popular, questão esboçada quando comentou e valorizou Ferreira Itajubá, mas ainda não abordada mais detidamente nesse livro.

Na outra parte, Câmara Cascudo evidenciou a faceta de História e referenciação que seu livro explorou, estabelecendo seqüência de autores e obras, definindo parâmetros para sua compreensão e avaliação. A Literatura potiguar surgiu como dimensão da História do estado e de sua capital, em termos de limites, mas também de potencialidades.

Essa História teve ainda dimensões de Memória pessoal e coletiva, manifestas nas passagens em que o escritor lamentou a morte de alguns daqueles escritores quando jovens, muitos deles seus amigos, bem como aspectos de sua fortuna poética.

O livro de crítica se desdobrou, portanto, em um trabalho com ressonâncias programáticas (o que a Literatura potiguar poderia ser dali por diante), historiográficas (apresentação e comentário de percursos da produção literária pretérita no estado), memorialísticas (depoimentos sobre pessoas, instituições e cenários) e até proto-etnográficas (a identificação de vozes populares na Poesia de Ferreira Itajubá e nas trovas).

Embora se expressando, naquela juventude, com argumentos políticos monarquistas (que não se fazem presentes, de forma direta, nesse livro)[7], Câmara Cascudo, ao debater o passado literário potiguar e lançar projetos para seu futuro, findava participando de um universo cultural e político próprio à república: remetia para as identidades de cada estado da federação e, naquele início de anos 20, realizava balanços sobre seus alcances e limites[8]. Além disso, ele começava a demonstrar atenção pelo popular, argumento central na auto-justificativa republicana – regime que se definia exatamente como “coisa do povo”. Essa atenção se ampliaria significativamente na futura produção do autor.

Em 1937, aos 39 anos, Câmara Cascudo publicou sua primeira grande obra-prima, Vaqueiros e cantadores[9]. Entre Alma patrícia e esse último livro, ele lançou 10 títulos, em diferentes campos de especialização e gêneros de escrita, incluindo estudos de ótimo nível, como a biografia Em memória de Stradelli, seguida, dois anos depois, por O Marquês de Olinda e o seu tempo[10].

Vaqueiros e cantadores, todavia, atingiu um patamar ainda mais especial de escrita e reflexão, que o olhar de Mário de Andrade – amigo e correspondente de Câmara Cascudo, duro crítico de seu livro anterior Conde d’ Eu – soube identificar[11].

Embora o livro assuma o caráter de reflexão ensaística sobre um gênero literário, o autor salienta, em diferentes passagens, bases memorialísticas do escrito, que remetem para sua experiência pessoal de infância  no sertão nordestino, tematizada também, muitos anos depois, no livro de memórias O tempo e eu.[12]

Esse sertão, caracterizado por Luís da Câmara Cascudo como “clássico” ou “típico”, estaria em franca desaparição. Os cantadores representariam o registro de um mundo que se perdia. A memória pessoal do autor se desdobrava no esforço de apreender a memória coletiva dos sertanejos nordestinos, que os cantadores teriam registrado no plano poético com especial felicidade.

O título do livro remete para uma espécie de articulação entre campo temático, personagem e agente do fazer poético. Se os vaqueiros são um tema tão freqüente dos cantadores, eles também são um público fiel desses materiais. Tema e ouvintes, os vaqueiros se vêem no dizer dos cantadores: vaqueiros e cantadores, vaqueiros em cantadores, vaqueiros encantadores. Não é excessivo identificar, nesse universo, Tradição e Cultura como sinônimos de Memória[13].

Na apresentação do volume, o estudioso anuncia um projeto de documentar o sertão típico numa série de trabalhos, sendo Vaqueiros e cantadores o volume dedicado à “parte poética”, a ser sucedida por outra dedicada à “religiosa, sobrenatural”, concluindo com mais uma dedicada aos “autos populares”. Essa fala indica um projeto de pesquisa para a vida toda, que volumes como Superstição no Brasil e Folclore do Brasil (para não falar no monumental Dicionário do Folclore brasileiro), respectivamente, cumpriram com grande riqueza.

Câmara Cascudo tinha importantes referências no pensamento brasileiro que se dedicou ao universo dos cantadores, com especial ênfase para o pioneiro trabalho de Sylvio Romero, Leonardo Motta e Juvenal Galeno.

Longe de uma visão romântica da cultura popular como fruto de um povo anônimo – nesse aspecto, irmanado com Mário de Andrade -, Câmara Cascudo apresenta autores significativos do gênero que escolheu, falando de suas vidas e também de traços distintivos de estilo. Valorizar a oralidade não significou isolá-la de fontes literárias tradicionais e inspiradoras.

Ele menciona ciclos heróicos nessa Literatura, fábulas clássicas, menor presença de sátiras e entrechos amorosos, “ausência do verso obsceno”. Apresenta diferentes modelos de versos e alguns gêneros textuais mais comuns: romances, pé quebrado (mais satírico), ABCs (narrativos), “Pelo-sinais e orações”. E dedica especial atenção ao ciclo do gado nessa Literatura, comentando Vaquejadas e apartações e Gestas de animais.

Outro ciclo destacado é o social, que abrange personagens como Padre Cícero, damas (louvor e deslouvor), negros (também cantadores de grande importância), cangaceiros. No caso específico do desafio, o livro salienta multiplicidade de métrica, convenções de cordialidade entre parceiro e arrola exemplos mais importantes e memoráveis do gênero.

O escritor caracteriza o cantador como herdeiro de modelos europeus e asiáticos – aedos, metris, velálica, bardos, menestrés, trovadores. Nesse aspecto, a importante presença negra entre cantadores não foi associada a eventuais laços africanos com esse gênero poético.

Mesmo pobre (embora a condição social seja bastante diversificada), segundo Câmara Cascudo, o cantador se valoriza e é valorizado como portador de uma inteligência superior. O livro contém mesmo, no final, um “Resumo biográfico dos cantadores”, evidenciando sua importância como autores memoráveis.

No que diz respeito à parte musical da cantoria, destacam-se a limitação melódica, o predomínio dos ritmos, o uso de voz em registro muito agudo. Dentre os instrumentos de acompanhamento, evocam-se a viola, a rabeca, a gaita e o pandeiro, que tendia a ser menos usado.

Ao identificar a poesia dos cantadores como apólogos, Câmara Cascudo lhes atribui um papel que é também de formador daquela sociedade, preservando e fortalecendo determinados valores para homens e mulheres comuns. Nesse mundo, figuras sociais humildes e até socialmente oprimidas – mulheres, negros, romeiros, cangaceiros – assumem uma dimensão especial como “lugares” de padrões superiores de ser humanidade.

Revalorizando esses sujeitos sociais “diminuídos” pela dinâmica social do mercado, Câmara Cascudo afirmou horizontes necessários de justiça presentes naquela poesia e noutras manifestações de cultura popular. Ele comenta versos que desqualificavam a condição negra como manifestações quase pessoais, sem significarem racismo, destacando que grandes cantadores eram negros (alguns até escravos, autorizados por seus senhores a produzirem e divulgarem seus versos) e que não se registravam recusas de cantadores brancos em relação a seus pares de epiderme escura.

Câmara Cascudo teceu esses comentários na mesma década em que Gilberto Freyre escreveu o clássico Casa grande & Senzala e políticas culturais de governo enfatizavam a harmonia racial brasileira, dando continuidade a discussões esboçadas ao menos desde o Modernismo dos anos 20[14]. Mais que conservadorismo, o autor potiguar evidencia que estava conectado intelectualmente (para não falar nas dimensões políticas e sociais da questão) com um patamar de debate sobre raças que priorizava articulações sociais e culturais, sem apelo a argumentos hierárquicos e biológicos. Tendencialmente, essa pluralidade passava a ser apresentada como grande trunfo da sociabilidade brasileira.

Traçando paralelos com tradições medievais européias, Câmara Cascudo desenhou um campo de erudição popular apoiada na oralidade, capaz de preservar complexas conquistas textuais. Tratava-se de um mundo marcado por extrema continuidade de hábitos, que sofria impactos de transformação e perda de si ao menos desde a segunda metade do século XIX, com a expansão da agricultura algodoeira. O escritor falava, portanto, de um mundo em desaparição, um mundo cuja sobrevivência na memória dependia da escrita dos cantadores e de sua recuperação pelos estudiosos da cultura popular, como ele mesmo.

A oralidade é muito valorizada pelo autor e não apenas no plano da Memória, uma vez que ele tomou o cuidado de registrar em partitura as dimensões melódica, harmônica e rítmica das apresentações de cantadores. Nesse sentido, Câmara Cascudo tanto remonta à face clássica de oralidade em Poesia quanto aponta o grande peso da apresentação dos cantadores (presença física, gesto, timbre vocal) no conhecimento de seus materiais. A erudição popular se fazia, portanto, campo de interlocução entre diferentes linguagens. E mesmo que o argumento da virtual desaparição das culturas tradicionais sugira um trabalho com “vestígios”, as indicações desse pensador sobre o registro que desenvolveu dos materiais pesquisados nesse livro indicam, pelo contrário, a extrema vitalidade dessas práticas sociais e culturais, atestando seu convívio com uma Modernidade que não era tudo.

Os momentos diferentes do pensamento de Câmara Cascudo que Alma patrícia e Vaqueiros e cantadores representam evidenciam alguns pontos em comum, temperados pelo adensamento de problemáticas que um percurso de produção intelectual e suas interlocuções sociais e políticas propiciaram:

1)      Importância social da Poética.

Alma patrícia considera a produção literária potiguar base para a definição de uma identidade estadual, mesclando referências tardo-naturalistas (especialmente, no que se refere à natureza, sem negligenciar dimensões mais propriamente sociais – pobreza de alguns escritores, experiências rurais ou urbanas) ao realce sobre o trabalho com o possível (no sentido aristotélico[15]), que marca narrativa e poesia. Falar sobre aquela alma é mais que apenas historiar o acontecido, é apostar num devir que se anuncia crescentemente superior. Vaqueiros e cantadores também traz o fazer poético, agora mais diretamente situado no universo de uma cultura popular que se caracteriza como categoria de todos, de pessoas ligadas a diferentes condições sociais – do dono da fazenda ao trabalhador mais humilde. O vôo da Poética se revela, portanto, ainda mais abrangente em termos sociais, falando de e falando para pessoas humildes e poderosas, enlaçando-as num todo social harmônico. A apresentação de cantadores em terraços de fazendas ou em salões do Palácio do Governo, em Natal, atesta essa permeabilidade social do gênero poético abordado e sua capacidade de atingir e representar públicos tão diferenciados.

2)      Importância cognitiva da Memória.

Alma patrícia aponta o convívio direto de Câmara Cascudo com muitos dos escritores comentados em suas páginas, evidenciando uma faceta memorialística nas considerações ali desenvolvidas sobre as respectivas obras. Num sentido paralelo a esse, Vaqueiros e cantadores remete reiteradamente para memória pessoal, laços de família (tios fazendeiros, vaqueiros e apreciadores de cantadores, que patrocinavam suas apresentações), experiência de pesquisa que é um rememorar da própria vida de quem escreve. O trabalho do etnógrafo se mistura com o ofício do memorialista (escritor) e com a tarefa do crítico literário (analista da escrita alheia). Sem Memória, não há saber – nem racional nem sensível. Tanto o possível quanto o que existiu ou existe apenas descritos são dependentes da Memória, mesmo que num sentido projetivo. O estudioso da sociedade é escritor e memorialista; a Poesia, com rimas e ritmos, ajuda na preservação da Memória, apoiada na transmissão oral. Escrever sobre Poesia e Cultura Popular é valorizar Arquivos desses mundos.

3)      Importância crítica da Escrita (inclusive oral).

Alma patrícia e Vaqueiros e cantadores são estudos cautelosos (informação e interpretação), expressos em escrita meticulosa e mesmo ousada, que até sobrepuja o conceito através de imagens sedutoras, jamais destituídas de cunho interpretativo[16]. No primeiro livro, predomina o tom de crítica literária impressionista, com toques naturalistas (breve evocação de Sylvio Romero, menções ao peso de natureza e relações sociais nas obras dos autores comentados). O outro volume vai mais na direção do estudo etnográfico da Literatura popular, associando campos temáticos e procedimentos de escrita a práticas sociais. Nesse percurso, Câmara Cascudo rouba de si (Allegro rubato) através da Literatura que ele mesmo produz: esboços de memórias, metamorofoseados em suportes de interpretação, são entrevistos desde Histórias que o tempo leva…, reforçados na reportagem etnográfica de Viajando o sertão, transmutando opções políticas (Monarquismo e Integralismo) em passagens para a explicação, como se observa nos comentários sobre o cotidiano do Conde d’ Eu (elegância corporal, destreza na montaria e na dança), numa época em que esses vieses de compreensão de História ainda eram pouco usuais[17]. Agindo assim, Câmara Cascudo faz com que a ideologia seja ludibriada pela escrita e pelo pensamento[18], donde a insuficiência de ser tratado como mero ideólogo – monarquista, integralista, apoiador da ditadura de 1964/1984 etc.

4)      Auto-reflexão, auto-superação.

O Allegro rubato transforma Câmara Cascudo em comentarista e crítico de Câmara Cascudo, de talentoso polígrafo em inovador etnógrafo, pioneiro brasileiro na valorização da Literatura Oral e da Cultura Popular. O diálogo com Mário de Andrade, nesse campo, vai além de aprendizado com um grande mestre, evidencia a colaboração entre mestres que ensinam um ao outro os difíceis percursos através de Modernidade e Tradição. E as críticas de Mário a Vaqueiros e cantadores, que Luís não chegou a responder[19], entre elogios e divergências, deixam clara essa admiração recíproca.

O percurso intelectual de Câmara Cascudo, consolidado ao longo de quase duas décadas de publicações em livros desde Alma patrícia, atinge, a partir de Vaqueiros e cantadores, seu patamar maduro, crescentemente adensado nas décadas seguintes, que viram nascer novas obras-primas como Literatura oral no Brasil e Dicionário do folclore brasileiro. As instituições literárias urbanas, que tanto marcaram Alma patrícia, são francamente ampliadas em Vaqueiros e cantadores, abrigando fazeres de produção e recepção que não se restringem à escrita nem à cidade.

Nesse trajeto, fica evidente que se designava a Tradição – mesmo que em estado de invenção, caso da Literatura potiguar em Alma patrícia – como essência de ser Brasil[20]. À Modernidade, coube o intenso papel de olhar que valorizava a Tradição: ser moderno era garantir o embasamento no tradicional. E a escrita se manteve como suporte incontornável dessa valorização.


[1] A tese de doutoramento de Cláudio Augusto Pinto Galvão, defendida anos depois que este texto foi originalmente escrito, aborda minuciosamente as relações entre Câmara Cascudo e o universo musical:

GALVÃO, Cláudio Augusto Pinto. Alguns compassos – Câmara Cascudo e a música. Tese de Doutoramento em História Social, defendida na FFLCH/USP. São Paulo: digitado, 2010.

[2] CÂMARA CASCUDO, Luís da. Alma patrícia – Crítica literária. 2ª ed. Natal: Fundação José Augusto, 1998   (Biblioteca Potiguar). 1ª ed.: 1923.

IDEM. Vaqueiros e cantadores. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1937.

[3] IDEM. O Marquês de Olinda e seu tempo. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1938   (Brasiliana – 107)

[4] O artigo mais antigo de Câmara Cascudo, de acordo com Zila Mamede, data desse ano, quando seu pai, o rico comerciante Francisco Justino Cascudo, criou para ele o jornal A Imprensa.

MAMEDE, Zila. Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual – 1918/1968. Natal: Fundação José Augusto, 1970.

[5] CIRNE, Moacy. “Alma patrícia”, in: SILVA, Marcos (Org.) – Dicionário crítico Câmara Cascudo. São Paulo/Natal, Perspectiva/FAPESP/FFLCH-USP/EDUFRN/Fundação José Augusto, 2003, pp 1/3.

[6] Sobre Antonio Marinho, consultar:

CAVALCANTI, Floriano. Antônio Marinho Esboço Biográfico e Crítico. Natal: EDUFRN, 2008, 47 p. (Coleção Talento & Polêmica).

GURGEL, Tarcísio. Informação da Literatura Potiguar. Natal: Argus, 2001.

[7] Zila Mamede arrolou alguns artigos de jornal nessa orientação política:

MAMEDE, Zila – Obra citada, edição citada.

[8] Um exemplo clássico desses debates é o livro:

CARDOSO, Vicente Licínio (Org.) – Margem da História da República. Brasília: EdUnB, 1981 (1ª ed.:).

[9] CÂMARA CASCUDO, Luís da – Vaqueiros e cantadores. Edição citada.

[10] IDEM – Histórias que o Tempo Leva… (Da História do Rio Grande do Norte). São Paulo: Monteiro Lobato & Co., 1924.

IDEM – Joio – Páginas de Litteratura e Crítica. Natal: Officin+a Graphica d’ A Imprensa, 1924.

IDEM – López do Paraguay. Natal: Typographia de A República, 1927.

IDEM – Conde d’ Eu. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1933

IDEM – O Homem Americano e Seus Temas. Tentativa de síntese. Mossoró: Fundação Vingt-Un Rosado, 1992   (Mossoroense – 746). 1ª ed.: 1933.

IDEM – A intencionalidade do descobrimento do Brasil. Natal: Imprensa Oficial, 1933.

IDEM – O mais antigo marco colonial do Brasil. Natal: Centro de Imprensa, 1934.

IDEM – Viajando o sertão. Natal: Gráfica Manimbu, 1975. 1ª ed.: 1934.

IDEM – O brasão holandês do Rio Grande do Norte. Natal: Imprensa Oficial, 1936.

IDEM – Em memória de Stradelli – Biographia, jornadas geographicas, tradições, depoimentos, bibliographia. Manaos: Livraria Clássica, 1936.

IDEM – O Marquês de Olinda e o seu tempo, 1793/1870. Edição citada.

[11] ANDRADE, Mário de – Cartas de Mário de Andrade a Luís da Câmara Cascudo. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Villa Rica, 1991.

IDEM – O empalhador de passarinho. São Paulo: Martins, 1972.

CÂMARA CASCUDO, Luís da – Conde d’ Eu. Edição citada.

[12] IDEM. O tempo e eu. Confidências e proposições. Natal: Imprensa Universitária, 1968.

[13] BARBOSA, Ivone Cordeiro. “Vaqueiros e cantadores”, in: SILVA, Marcos (Org.). Dicionário crítico Câmara Cascudo. Edição citada.

[14] FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. 19ª ed.. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978   (1ª ed.: 1933).

SCHWARCZ, Lilia. “Nem preto nem branco, muito pelo contrário”, in: SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.) – Contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Cia. das Letras, 1998, pp 173/244   (História da vida privada no Brasil  – 4).

[15] ARISTÓTELES. Poética. Tradução de José Américo Motta Pessanha. São Paulo: Abril, 1984   (Pensadores).

[16] Sobre a dimensão literária na obra de Câmara Cascudo:

DUARTE, Constância Lima e CUNHA [Pereira Macedo], Diva (Orgs.) – “Esmeraldo Siqueira”, in: Literatura do Rio Grande do Norte – Antologia. Natal: UFRN, 2001.

[17] CÂMARA CASCUDO, Luís da. Histórias que o Tempo Leva… Edição citada.

IDEM – Conde d’ Eu. Edição citada.

IDEM – Viajando o sertão. Edição citada.

[18] BARTHES, Roland. Aula. Tradução de Leyla Perrone-Moysés. São Paulo: Cultrix, 1987.

[19] Cláudio Augusto Pinto Galvão, em sua tese de doutoramento, registra a vontade de resposta de Câmara Cascudo, que, embora anunciada, não se concretizou:

GALVÃO, Cláudio Augusto Pinto. Alguns compassos – Câmara Cascudo e a música. Edição citada.

[20] Não é ocasional que uma obra de maturidade avançada desse autor tenha por título

CÂMARA CASCUDO, Luís da. Tradição, ciência do povo: Pesquisas na cultura popular do Brasil. São Paulo: Perspectiva, 1971.

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