A alma não tem cor, mas a pele tem

“Enquanto a questão negra não for assumida pela sociedade brasileira como um todo: negros, brancos e nós todos juntos refletirmos, avaliarmos, desenvolvermos uma práxis de conscientização da questão da discriminação racial neste país, vai ser muito difícil no Brasil, chegar ao ponto de efetivamente ser uma democracia racial.”

Lélia Gonzalez

Incrível como certas coisas são capazes de provocar uma inquietação dentro de nós. Que, por vezes, não é nada agradável. Como se fosse um inseto a zumbir, freneticamente, em seu ouvido.

E a minha inquietação da vez é a seguinte frase: alma não tem cor. Que inclusive tem uma prima bem próxima, “somos todos um”.

Ao primeiro contato elas são frases benquistas e até motivadoras, que despertam o sentimento de igualdade, pelo menos em teoria.    

No entanto, quando vamos as pesquisas, chegamos aos dados: 60,8% da população prisional é negra. A população em moradias com deficiência no saneamento 69,404 milhões são pretos ou “pardos”, outros 25,015 milhões são brancos.

Ou seja, a maior proporção da população preta reside em domicílios sem coleta de lixo (12,5%, contra 6% da população branca), sem abastecimento de água por rede geral (17,9%, contra 11,5% da população branca), e sem esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial (42,8%, contra 26,5% da população branca).

Entre os jovens brancos de 15 a 29 anos, a taxa eram de 34 mortes para cada 100 mil habitantes em 2017, último ano com dados de mortes disponíveis no DataSus.

Entre os pretos e “pardos”, eram 98,5 assassinatos a cada 100 mil habitantes. Fazendo o recorte apenas dos homens negros nessa faixa etária, a taxa de homicídio sobe para 185. Para as mulheres jovens, a taxa é de 5,2 entre as brancas e 10,1 para as pretas e pardas.

lustração: Ella Byworth

Alma não tem cor: leviandade ou fuga da realidade?

Diante disso, fico a imaginar que, a pessoa que profere a frase, “alma não tem cor”, no intuito de convencimento de igualdade sócio racial, é de duas uma, ou vive a parte da realidade, ou é de uma leviandade sem tamanho.

Não tem como proferirmos em sã consciência discursos que “passa pano” pra uma estrutura racista e classista. É importante a combativa da minimização das lutas.

Leia artigo “Sonhar sob a pele preta”, de Idyane França

Vivemos em uma sociedade que o alvo tem pele; e esta é preta. Lutar pela igualdade, pela justiça social e racial é para além de nossas convicções pessoais.

Apenas acreditar que somos iguais, não nos torna iguais. Até porque não somos. Temos especificidades – etnia, cultura, fé, ideais, organização social, etc.

Por tanto, seguindo a orientação de Lélia Gonzalez, fiquemos atentos aos nossos discursos, façamos autocrítica para não construirmos sofismas ideológicos que favorecem as estruturas. Pois a alma pode até não ter cor, mas a pele tem.

Artista, poeta, jornalista, militante do movimento negro [ Ver todos os artigos ]

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