A alta filosofia de Alex Nascimento

Por Lívio Oliveira

Entornando o caldo da cultura ocidental/acidental, leio as páginas do negativo-burguês libérrimo, de macacões folgados e comemorando desdatas em meio a folguedos jazzísticos eruditos-absurdos-surreais. Não sei se é poesia, sociologia, antropologia, física ou química. Parece mais uma elevada (de elevador?) filosofia em prosa esculhambativa e debochada. Toda a forma de qualquer coisa. E eu gosto. Gosto muito. Adoro e me empolgo. E sorvo, juntamente com um whisky “on the rocks” (make it a double, my friend!), porque é demasiadamente humano (“Eis-me aqui no açougue dos humanos”, pág.19): estou com o mais novo livro sagrado de Alex Nascimento, o que tenho em mãos e diante destes já cansados olhos de tudo ver.

Só sei que alguma coisa acontece neste calçadão. Nesta cidade alta, com muros baixos. E é Alex que nos conta, em meio aos seus textos informativos-psíquicos-deformativos. O seu último livro (o título prenuncia algo mais ou menos assim, acabante, acabativo, terminativo, terminal), “Um beijo e tchau” (Oito Editora, 2015), nas versões Oscar Peterson e Django Reinhardt – ou, para quem preferir, Miles & Chet – é obra também psicanalítica (“Os psiquenses vão zombar da sua tese retrô/e retornarão à análise do ar que nos rodeia”, pág. 40), que sacode a poeira dos homens e principalmente das mulheres dos homens, ou simples e deliciosamente mulheres, para não desafiarmos as mais recentes palavras de La Beauvoir-Sartre.

Acho que o livro tem zonas (não se perturbem com a palavra) de forte compreensão e compaixão humanas. Conta com uma macunaímica e debochada historinha que nos leva a uma fabulosa Madagáscar (assim mesmo, em paroxítona), cheia de não-mistérios, porque todos foram desvendados antes de chegarmos na pista de pouso, enquanto Alex ouvia o Réquiem de Fauré e Adiós Nonino, de Piazzolla, derrubando uma garrafa inteira de Old Parr (assim mesmo, pra quase rimarr).

E remar. E rumar. Rema sempre Alex contra as marés e nos rumos da feira contemporânea? Nem sei se sim ou que não. Alex parece mais é constatar o quanto somos todos uns fuleiras, desde o Nascimento. Faz uns trocadilhos, às vezes bobos, como os meus. Às vezes babo com a inteligência aguda de Alex. É que ele não deixa ninguém mentir…antes dele. E traduz nossa miséria de forma muito bem humorada e com o seu bom instrumental de livre-pensador.

Seu pensamento vem engarrafado – vasilhames bojudos e com selo azul ou tarja preta – e se expressa em (des)aforismos, como os de Nietzsche. Isso mesmo: Alex Nascimento é o nosso Zaratustra potiguar, caminhando descalço sobre os arrecifes da Praia do Forte (“…conviver simultaneamente com o miserê e a burguesada de Natal”, pág. 23). Um artístico frasista, fantástico nisso, juntando tudo em meio à geleia-geral liquidificada do Halloween permanente de Natal. Alex é mesmo assustador. No melhor sentido.

Aliás, Alex é Voltaire e Schopenhauer também. Acompanhado de um deles, ensina-nos a regar nosso jardim (somente à noite); acompanhado de outro, mostra-nos que é preciso ter estilo, porque o macacão de Elvis era muito composto e não serviu pra ele. Ficou, então, com a versão woodstockiana, que era mais negócio, mais econômico do que as fórmulas físico-químico-financeiras de que se utiliza ao longo do livro. E que ainda lembra como música.

Realiás, como diz o próprio Alex, o melhor do livro é percorrer as palavras e, simultaneamente, o roteiro musical orientado/ocidentalizado (Mariana já avisou em suas belas orelhas, que merecem brincos de diamantes: “Sua única devoção é à Música.”): Cole Porter, Charlie Parker, Ella Fitzgerald, Duke Ellington, Bach, Beatles, Erroll Garner, Canhoto da Paraíba, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Trio Los Panchos, Fauré, Glenn Miller, Frank Sinatra, Louis Armstrong, Count Basie, Pavarotti, Piazzolla, Pink Floyd, Vanzolini, Sílvio Caldas, Orlando e Patápio Silva (não, estes dois não eram irmãos), além de muita “Música de Chuveiro” (essa última, acho que foi uma banda que andou fundando. Fundando foi o que eu disse).

São muitas as máximas do livro. Tantas, que queria citar aqui e não deu. Mas, confesso que a que mais me intrigou e me fez e faz ainda refletir, visto que é pura filosofia, é essa aqui: “Porque todo mundo, por mais opaco que seja, tem um pedaço de vidro. É por onde a hiena olha.”, pág. 92. Olhe bem, prestatenção! Por essa e muitas outras, valeu a pena ler o mais recente livro pós-filosófico de Alex Nascimento: “Um beijo e tchau”. Até porque “o resto do dia foi a chatice de sempre”, pág. 32.

///P.S. Pelo que eu soube, Alex desistiu de abandonar a carreira filosófico-literária e já planeja publicar um novo livro. Teria até um original título provisório: “Ecce Homo”.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ View all posts ]

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