Aluízio Alves, uma figura impressionante

Os jornais repercutiram os 50 anos da posse de Aluízio Alves como Governador do RN. Certamente, Aluízio foi uma das figuras mais impressionantes que já existiram por estas bandas do Nordeste ensolarado. E foi uma das figuras mais inteligentes que tivemos. Era extremamente bem informado e sabia valorizar as coisas da cultura (é tanto que produziu alguns momentos importantes da cultura oficial no Estado, fomentando lançamentos literários memoráveis e outras diversas iniciativas).

Eu, por duas vezes, tive a satisfação (e a ousadia) de conversar com o velho político. Uma foi numa solenidade na OAB/RN e a outra foi no Alto da Candelária, onde ficava (e acho que ainda fica) a sede do PMDB. Fui levado, nessa segunda oportunidade, por meu amigo dileto, o atual Secretário da Ação Social, Luiz Eduardo Carneiro Costa.

Essa última conversa (acredito que em 2005) durou umas duas horas, no mínimo. O que mais me impressionou, de fato, nessas duas conversas, foi a agilidade mental  e a memória do decano homem público e o respeito com que ele tratava os interlocutores, inclusive este que ora escreve, muito mais jovem e, imensamente menos experiente do que aquele ícone da vida pública potiguar.

Na conversa que aconteceu no Alto da Candelária, tive a oportunidade de ouvir coisas muitos interessantes sobre a história de Aluízio. Numa delas, contou-nos que eventualmente substituía, revezando com José Sarney, o jornalista e político udenista implacável Carlos Lacerda, na redação da sua coluna pessoal na Tribuna da Imprensa. Relatou-nos, a mim e a Luiz Eduardo, que muitas vezes tinha que dar, também, uma “penteada” (acho que é essa a expressão no jargão jornalístico) no texto de Lacerda, para conter o excesso de bílis e de agressividade.

Dentre outros assuntos, Aluízio também mencionou a ideia de que o voto do analfabeto não deveria permanecer liberado pela Constituição.

Falou, também, que ultrapassados muitos anos da crise de 1954 (que culminou com o suicídio de Vargas, de quem Lacerda era adversário feroz) passara a reconhecer – com muita força – o valor daquele homem público (Getúlio) para o Brasil. Inclusive, mencionou o fato de que, no evento do “empastelamento” da Tribuna da Imprensa, entrou – praticamente sozinho – no prédio, sem que fosse agredido por ninguém.

Aluízio mencionou, também, o episódio da doença súbita de Tancredo Neves e citou o fato de que, naquela altura, um certo ex-governador de Minas entrou bêbado e agressivo no Hospital de Base de Brasília, onde Tancredo estava internado, detonando e dizendo palavras de baixo calão contra até a última geração da família Sarney. E que fora Aluízio a pessoa que o conteve.

Falou, ainda, acerca de coisas do dia a dia e que detestava bebidas alcóolicas, chegando mesmo a deixar de saborear uma sobremesa que adorava (creme de cassis com papaya), quando descobriu que havia alguma quantidade de álcool ali (o licor).

Aluízio falou muito mais, muito mais, inclusive sobre a fé que nutria de que seu filho, Henrique, um dia seria Governador do RN.

O tempo tem muito a nos dizer sobre Aluízio Alves, figura polêmica e de reconhecidíssima capacidade intelectual e política. Inclusive, os jornalistas dessa terra devem muito a Aluízio, que teve participação decisiva para a fundação da primeira Faculdade de Jornalismo daqui.

Mas, como não sou jornalista, faço apenas o relato simples e ligeiro acerca do que vi e ouvi, perplexo diante da inteligência daquele homem com voz rouca e firme e que, há exatamente 50 anos, iniciava um governo revolucionário no RN.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 5 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 1 de fevereiro de 2011 11:55

    Somente faço apologia à inteligência. Só.

    No mais, prezado Tácito, o tom apolegético deve mesmo ser descartado.

    Afinal, tudo é descartável. Né não?

  2. Tácito Costa 1 de fevereiro de 2011 11:23

    O tom apologético da efeméride adotado pelos jornais deve ser descartado. O Aluizio que fez um governo inovador é o mesmo que copiou métodos políticos arcaicos (perseguições aos adversários etc) e apoiou o golpe de 64.

  3. Lívio Oliveira 1 de fevereiro de 2011 10:55

    Claro, claro…

    Prezados Laélio e Alex, eu não morro de amores por nenhuma oligarquia. Muito menos pela dos Alves. Nem pela dos Oliveira, dos Ferreira, dos Souza… Tenho horror a pessoas que usam do sobrenome para se promoverem. Aqui na nossa província ensolarada existem aos montes. Eu, graças ao “Bon Dieu”, nunca precisei disso. Graças!!! Volto a afirmar: o pouco que tenho é fruto de estudos (no que tange a isso meus pais foram rigorosos) e trabalho. E alguma loucura, é claro, para dar produzir amálgama.

    Agora, amigos, querer ignorar que Aluízio Alves foi um cara dotado de genialidade política e administrativa, que realizou um governo transformador e revolucionário no RN, que teve importância enorme para o jornalismo local, que tinha alguma sensibilidade intelectual, que é um nome do mundo prático do RN – mutatis mutandi – à altura de Cascudo no mundo teorético…

    Bem, esquecer tudo isso é, no mínimo, passar ao largo da realidade.

    E como sei que vocês são deveras inteligentes e preparados para ignorar a realidade….

  4. Alex de Souza 1 de fevereiro de 2011 10:14

    Excelente artigo, Laélio. A maior obra de Aluízio continua sendo a mais funesta: a criação da oligarquia que há 50 anos atravanca o RN.

  5. Laélio Ferreira 1 de fevereiro de 2011 2:11

    Menos, Lívio, menos…!

    Sugiro (vá ao Google!) ler um texto meu (“Gandavo e Perseguidor”) sobre o ex-Governador. Trata-se de uma (longa) Nota, divulgada, em vários blogs daqui e d’alhures (a priori do lançamento), do volume “OTHONIEL MENEZES – Obra Reunida”). Documentadamente – e até agora sem nenhuma resposta -, teço considerações sobre uma das facetas mais conhecidas do falecido político angicano.
    Cordialmente,
    Laélio Ferreira

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