“Amar o teatro é uma maneira de transformar a civilização”

Por  Welington Andrade
REVISTA CULT

Nascido na Romênia em 1956, Matéi Visniec vive e trabalha, desde 1987, na França, para onde se mudou a fim de fugir do regime comunista de Nicolau Ceausescu. Sua extensa obra teatral, hoje traduzida em várias línguas e montada em mais de vinte países, já reúne vinte e seis textos adultos e cinco textos infantis publicados. Prestes a chegar ao Brasil – especialmente para participar da 4ª edição da Flica (Festa Literária Internacional de Cachoeira), que acontece de 29 de outubro a 02 de novembro na Bahia–, o dramaturgo concedeu entrevista exclusiva ao site da CULT, na qual fala da relação da literatura com sua própria dramaturgia e do interesse das novas gerações pelo teatro.

CULT – Sua dramaturgia costuma ser comparada à de Eugène Ionesco. Quais são os pontos comuns e quais são as diferenças que há entre sua obra e a dele?
Matéi Visniec – Ionesco conta muito para mim, ele me marcou muito e eu o considero um mestre. Aprendi, com o teatro do absurdo, a entender melhor o absurdo da história. Escrevi minhas primeiras peças influenciado por Ionesco, mas também por Beckett ou Dürrenmatt. Mas eu acredito que tenha conseguido me separar pouco a pouco dessa “família” cultural. Sou ligado a ela, mas também procurei outros caminhos. Como Ionesco, durante muito tempo eu detestei o teatro realista e a psicologia, mas acabei escrevendo peças realistas e psicológicas. Em relação a Ionesco, acho que me interessei um pouco mais pela história e por alguns “personagens” reais. Escrevi uma peça sobre Joana d’Arc, outra sobre Stalin, outra sobre Meyerhold, outra sobre o grande filósofo de origem romena Emil Cioran. Também escrevi uma peça em que Ionesco é uma das personagens.

A principal linha de força de suas peças parece ser o uso de um humor corrosivo para tratar de questões culturais e históricas. Por que tratar a história pelo viés do humor?
Na minha juventude, vivi num país comunista. Podemos dizer que conheci a ditadura do pensamento único, da ideologia única, do partido único, do chefe único, da cultura da personalidade. Havia uma atmosfera sufocante nessa época em que o humor nos ajudava a segurar a barra, a resistir. Mais éramos humilhados pelo poder, mais inventávamos piadas políticas. Quando dois amigos se encontravam na rua, falávamos “bom dia” e a pergunta seguinte era “você já ficou sabendo da última?”. Claro, a “última” era a última piada política sobre o presidente, sobre o regime ou a polícia política. O humor funcionava como uma arma, uma maneira de resistir contra a lavagem cerebral, um espaço de liberdade, uma fonte de oxigênio, um exercício para se soltar, uma maneira de protestar e permanecer humano, uma forma de crítica social e de lucidez, um exercício de imaginação… Então, você entende o porquê ele está tão presente nas minhas peças sob diferentes formas: o humor negro, o humor que range, o escárnio, o auto-escárnio, a ironia, a alusão, a paródia, a caricatura. Rir não significa de nenhum modo fugir para longe da realidade. O riso que conta é aquele que constrói consciências.

No Brasil, há um bom tempo, o teatro deixou de girar em torno dos textos dramatúrgicos, mobilizando outros elementos como a criação coletiva e o processo colaborativo. O senhor percebe esse mesmo movimento na França? Se sim, a que o senhor credita esse enfraquecimento da figura do dramaturgo?
Sim, em todo lugar é uma tendência, fazer teatro com outros meios que não sejam a linguagem verbal. Muitas vezes grandes artistas conseguem criar a emoção e metáforas fortes com outros “ingredientes” além das palavras (o gesto, a música, a marionete, as projeções de video, etc.). O progresso da técnica e as invenções visuais fornecem muitos elementos para esse tipo de experiência. Ainda assim, a linguagem sempre voltará como um cometa, mesmo depois de longos períodos de ausência. Eu não me considero um “homem de teatro”, eu não fui um comediante ou diretor. Eu escrevi cerca de quarenta peças porque eu gosto do gênero literário chamado “teatro”, ou o gênero dramático. Escrevi também cinco romances e seis antologias de poemas. Muitas palavras, então… Porque a matéria do meu trabalho é a língua, são as palavras. Minha última antologia publicada na Romênia e na França se chama Le cabaret de mot [O cabaret de palavras, em tradução livre]. São monólogos para o teatro em que as palavras… falam. Como se elas fossem personagens e quisessem nos contar mil histórias secretas. Mas a linguagem não desaparecerá, mesmo que a sociedade de consumo tente, atualmente, fazer uma lavagem cerebral com uma espécie de ditadura da imagem.

Os diretores e grupos que montam suas peças procuram ter liberdade em relação ao que o senhor escreve ou eles costumam ser fiéis aos seus textos?
De qualquer jeito eu não imponho nada. Eu não posso ser o guardião dos meus textos. Deixo as pessoas fazerem o que quiserem com eles. Vi, algumas vezes, espetáculos magníficos baseados em meus textos (que foram cortados em alguns momentos), vi outros que eram ruins mesmo com cada vírgula sendo respeitada. Não existem regras. Alguns artistas tentam expressar-se e eu quero ajudá-los. Então digo para eles “vocês têm liberdade total, façam o que quiserem”. É minha maneira de lhes dizer que a liberdade significa também responsabilidade. Um verdadeiro artista não começa a pular de alegria quando falam para ele “assuma sua liberdade”. Essa liberdade tem que se transformar em arte, em mensagem, que a liberdade leve ao sucesso. Sim, temos também o direito de errar. Mas não o direito de se sentir responsável.

Seu teatro tem uma clara vocação metateatral. Com que intuito o senhor visita o passado do teatro em algumas de suas obras?
Gosto muito da literatura, é meu universo, minha realidade, meu espelho interior. Eu li muito, encontrei respostas essenciais na minha vida lendo Dostoïévski, Balzac, Maupassant, Beckett, Hemingway, Gabriel Garcia Marquez, Michel Tournier, Kafka, Harold Pinter, Thomas Mann…entre outros autores, é claro. Revisitar o passado do teatro, resgatar nas minhas peças personagens que já viveram nos outros é uma maneira de comunicar com esses homens de talento que me deram muitas coisas. Eu escrevi uma peça sobre Tchékov na qual eu reaproveito muitos de suas personagens. É uma maneira de visitar Tchékov, mas também de homenageá-lo. Eu escrevi uma peça Le dernier Godot [O último Godot, em tradução livre], em que Beckett e Godot são personagens. É minha maneira de dialogar com eles, de me divertir (inteligentemente) e de propor jogos literários, mas também uma reflexão sobre a literatura como forma de transmissão de valores. Na minha peça L’araignée dans la plaie [A aranha na ferida, em tradução livre], eu me comunico com… Jesus. Antes de mais nada, não é ele uma das personagens mais incríveis da história da humanidade? Todos esses nomes, com outros, carregam mensagens. Lendo, sempre me mantive atento às mensagens de grandes autores e personagens fortes. Gosto de convidá-los em meus próprios textos como se os convidasse para tomar um café na minha casa.

Os jovens costumam se interessar pelo seu teatro, sejam como atores, sejam como espectadores? Que tipo de contato o senhor estabelece com as novas gerações?
Eu encontro algumas vezes jovens comediantes que interpretam algumas das minhas peças escritas trinta ou vinte e cinco anos atrás – ou converso com jovens diretores que não eram nem nascidos quando eu escrevia algumas das peças que eles querem montar hoje. Penso que se essa transmissão foi feita, eu não vivi em vão. Quando os jovens se reconhecem em minhas peças (como comediantes, diretores, ou até como espectadores e leitores), tenho a confirmação de que minha vida tem um sentido. Quando o texto literário passa a atravessar as fronteiras linguísticas e geracionais, é um sinal que ele detém uma mensagem universal.

O que a arte do teatro tem a dizer hoje para o homem do século 21?
A arte do teatro tem a mesma força e o mesmo frescor, hoje, que na época de Sófocles e Eurípides. É uma arte viva e nada pode substituir a emoção que emana dessa cerimônia interrogativa que é o teatro. Fazer teatro, ir ao teatro, amar o teatro são maneiras de transformar a civilização.

Tradução por Gabriela Boccaccio

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Maria Aparecida Anunciata Bacci 22 de janeiro de 2015 23:28

    Não conheço a obra Matéi Visniec, mas acredito que pelo que li na entrevista, sobre suas formação e ideias deve ser um excelente autor. O humor corrosivo que é citado na entrevista ao meu ver e muito construtivo,é um viés para criação.

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