Amargor da prisão marca novo Polanski

Por Inácio Araujo
FSP

O essencial vemos logo: o belo plano de uma balsa cuja parte móvel se abre como uma boca devoradora. Os carros nela se movem, exceto um. Sabemos desde ali que “O Escritor Fantasma” não é um filme vulgar.

Em seguida, se lança a intriga: escritor (Ewan McGregor) é contratado a peso de ouro para ser o “ghost writer” -o fantasma- do controvertido ex-primeiro-ministro britânico Adam Lang (Pierce Brosnan), ora acusado de crime de guerra por entregar prisioneiros aos EUA.

A partir daí, os problemas do fantasma se multiplicam. Para começar, o predecessor morreu em circunstâncias misteriosas. E tudo o que cerca Lang é suspeito. Quanto mais ficar perto dele, mais se perguntará quem o político é na verdade.

O público tende a repousar na poltrona: sabe que tem pela frente um thriller político agitado, levado por um Roman Polanski que quer voltar aos tempos de “Chinatown” e “O Inquilino”. Polanski parte das aparências da vida de um político (com a pompa e a circunstância) para revelar o lado oculto do personagem célebre, antes que o mundo das aparências imponha a sua força.

Se ao final sentimos que “O Escritor Fantasma” não é “Chinatown” ou “O Inquilino”, isso se deve em boa parte ao preço excessivo que a trama pagara à política e, sobretudo, à semelhança entre os políticos da ficção e os de verdade, contemporâneos bem vivos (impossível não pensar em Tony Blair).

Uma última notação: difícil não reter o amargor cínico do desfecho, em que a verdade talvez seja a maior vítima da -algo que parece decorrer menos da história do que da trama paralela envolvendo Polanski, Suíça, EUA e uma velha história de sexo: parece coisa da CIA.

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