Ambições presidenciais

Por Janio de Freitas
FSP

A insistência pela inclusão do Brasil no Conselho de Segurança da ONU teria dado lugar à inclusão do próprio Lula

JÁ MAIS DO que constatado que Lula nada faz sem ter como prioridade uma conveniência sua -pessoal, ainda que política -, conclui-se que sua turnê pacificadora no Oriente Médio teve como resultado um não resultado, sob a forma de uma pergunta. O que levou Lula às conversações em Israel, Palestina e Jordânia nem foi uma ideia criativa, que o ministro Celso Amorim cedo tratou de negar, nem foi a pretensão deslumbrada de projetar, com sua lábia, efeitos racionais e humanitários no conflito. A tanta distância da realidade os seus coadjuvantes de formulação da política externa não o deixariam ir.

O que Lula foi levar ou buscar no Oriente Médio, afinal de contas? A hipótese de resposta em curso antevê mais uma semelhança entre Lula e Fernando Henrique, mas as restrições são muitas.

A diplomacia brasileira trabalhou como nunca no governo Fernando Henrique. Foi um tal de desencavar homenagens, títulos e condecorações para o presidente, oito anos nesse jeitoso gênero de toma lá, dá cá, que não sobrou muito tempo para o batente de fato. A rigor, reconheçamos, não precisava sobrar mesmo, porque o Brasil não teve política externa própria.

Como disse John Kenneth Galbraith nas memórias, ao tratar de suas atividades diplomáticas, embaixador brasileiro só se ocupava de festas. Quando, para dar uma ilustração a respeito, o embaixador de Fernando Henrique em Portugal foi chamado de volta, madame Luiz Felipe Lampreia voltou a Portugal para fazer a mudança mas, durante dois meses, não houve Itamaraty nem Planalto que conseguisse encerrar sua série ininterrupta de festas esplendorosas. Enquanto o novo embaixador esperava aqui.

Não de todo, mas em medida suficiente, confirmou-se o boato sussurrado de que Fernando Henrique ambicionava a secretaria-geral da ONU, ao deixar o governo. E para isso havia todo um trabalho internacional e pressões sobre a própria ONU. A confirmação veio quando o então secretário Kofi Annan, assim que Fernando Henrique deixou o governo, nomeou-o para uma comissão. Obscura, porém. Atendia em parte ao desejo, mas mostrava que os apoios foram apenas gentis, sem empenho real. Nem se sabe o que foi feito dessa nomeação.

Agora para Lula, o boato sussurrado é o mesmo. A esquecida insistência pela inclusão do Brasil como membro efetivo do Conselho de Segurança da ONU teria cedido lugar à inclusão do próprio Lula. A dele, na secretaria-geral.

Se possíveis, alguns resultados positivos no Oriente Médio comporiam um cacife poderoso. Mas nem assim estaria superada uma restrição cada vez mais forte: em busca da afirmação de sua política externa, e de si mesmo, Lula se põe como um jogador à parte do esquema de jogo dos Estados Unidos. Até muito mais hoje em dia do que o fez em relação a Bush e seu governo.

Se antes os americanos não apoiaram a entrada do Brasil no Conselho de Segurança, com mais motivos não admitiriam daqui a pouco a entrega da secretaria-geral a Lula. O Lula de quem nem se conhece a sua concepção de ordem internacional para o planeta guerreiro.

Ainda que não fosse necessário, tão logo Lula saiu de Israel para a Palestina, a ultradireita que compõe o governo israelense não perdeu tempo nem sequer com um agradecimento: “Não queremos mediação nenhuma. O conflito tem que ser resolvido entre israelenses e palestinos”. Aí, sim, de modo surpreendente, na Palestina a intenção de Lula provocou reação equivalente do governo Abbas: “Não há necessidade de mais intermediários, já há bastante”.

Seja o que for que Lula pretendesse colher no Oriente Médio, nada colheu lá, nem aqui. E ainda deixou mais uma interrogação.

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