As ameaças do fascismo

No dia 17 de abril, na votação na Câmara dos deputados, para a admissibilidade da aceitação do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, um dos votos pelo sim chamou a atenção, com destaque inclusive na imprensa internacional: a do deputado Jair Bolsonaro (PSC/RJ)que aproveitou a ocasião para fazer uma homenagem a um torturador “pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff” e também “Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas”. Como a imensa maioria dos votos do sim, sem qualquer referência ao fato que deveria ser o foco da discussão,ou seja, o crime de responsabilidade atribuída a presidente.Os insultos do deputado antecedeu seu voto.Foram inúmeras, como, em outro momento afirmar que “O grande erro da ditadura foi não matar vagabundos e canalhas como Fernando Henrique”;” “O erro da ditadura foi torturar e não matar!”e ainda sobraram elogios a ditador Augusto Pinochet que, segundo o parlamentar “devia ter matado mais gente.” (Estas frases e outras estão aqui).

Para mim, a questão não são apenas os discursos e em particular o proferido no dia 17/4 e sua repercussão. Foi ter sido algo pensado, que tinha um alvo e um público determinado. É possível que alguns dos 464.572 eleitores que votaram nele em 2014 (maior votação para deputado Federal no Rio de Janeiro, mais de 100 mil à frente do segundo colocado), não concordem inteiramente com algumas de suas frases e de seu comportamento na Câmara dos Deputados, mas certamente a maioria o apoia. E não apenas seus eleitores do Rio de Janeiro. Não deve ser por acaso que na pesquisa realizada pelo Instituto Datafolhanos dias 7 e 8 de abril, numa simulação com Lula, Marina e Aécio, na qual foi incluído o nome dele, teve 8% das intenções de voto, que corresponde a mais de 10 milhões de eleitores (para um eleitorado de pouco mais de 142 milhões). O percentual é o dobro do que o deputado registrava em dezembro de 2014, portanto, o clima criado em 2016 ajudou para o crescimento das intenções de voto nele. São necessariamente fascistas? É provável que não. Nem todos que votaram nele devem ser fascistas, mas é muito provável que os fascistas tenham votado nele.

Mas, o que é mesmo o fascismo? Há uma extensa bibliografia sobre o tema,estudos aprofundados para sua compreensão como “Anatomia do fascismo” de Robert Owen Paxton (Paz e Terra), “As Origens do fascismo” de Robert Paris (Perspectiva), “Do fascismo à democracia” (conjunto de 12 ensaios de) Norberto Bobbio (Campus Elsevier), “Fascistas”, de Michael Mann (Record)que talvez ajudem a entender um pouco a gênese do fascismo, seu real significado e principalmente perceber que os sinais de fascismos ainda são evidentes em várias partes do mundo, como o fascismo islâmico , o crescimento da extrema direita em alguns países da Europa, com partidos xenófobos, nacionalistas e neofascistas . O fascismo na Itália, com se sabe, se nutriu do ódio e da intolerância e de uma “massa de manobra” que incluiu expressivos setores das classes médias. No Brasil, muitos têm alertado para a gestação de um embrião fascista. É o caso do ex-presidente do PSB e cientista político Roberto Amaral que no livro “A serpente sem casca. Da crise à Frente Popular” (Altadena Editorial) se refere “a possibilidade de enxergamos a gestação de um embrião fascista no Brasil”. Para ele “O fascismo não começa pela sua exasperação, ele começa lento, com ofensas verbais, e depois evolui para agressões físicas e coletivas. Esse conservadorismo é tão mais perigoso na medida em que ele está presente em todos os meios de comunicação e é destilado dia e noite junto à população”.

Creio que o ambiente de polarização vivido hoje na sociedade brasileira explique,em parte,a ascensão da direita e de setores claramente fascistas nas ruas e redes sociais, e talvez aí resida o perigo: a forma como os discursos de intolerância, ódios e ressentimentos são aceitos por parcelas consideráveis da sociedade. É uma porta abertapara o fascismo. No livro “Como conversar com um fascista” (Record) a filósofa Márcia Tiburi afirma que fascista é um tipo psicopolítico bastante comum. Sua característica é ser politicamente pobre,“ O empobrecimento do qual ele é portador se deu pela perda da dimensão do diálogo e” o diálogo se torna impossível quando se perde a dimensão do outro”. Para ela, “O fascista não consegue relacionar-se com outras dimensões que ultrapassem as verdades absolutas nas quais ele firmou seu modo de ser. Sua falta de abertura, fácil de reconhecer no dia a dia, corresponde a um ponto de vista fixo que lhe serve de certeza contra pessoas que não correspondem à sua visão de mundo pré-estabelecida,alguém que não se dispõe a escutar, que não fala para dialogar , mas apenas para mandar e dominar”.Ela se remete ao que chama de“personalidade autoritária do micro fascismo do dia a dia”. Numa sociedade de larga tradição autoritária, com parcas experiências de governos democráticos, lutar pela democracia e contra as tentações autoritárias,deve ser mais do que uma obrigação:é a única possibilidade de ampliarmos nossa capacidade de convivência e fazermos jus àquilo que chamamos de razão. Talvez uma das consequências dessa onda conservadora e autoritária seja a unificação da esquerda e dos setores progressistas da sociedade. Há uma necessidade imperiosa de fortalecer a formação de uma frente ampla, popular que reúna os setores progressistas e democráticos do País para enfrentar a ameaça fascista e os golpistas, que ajudam a criar um ambiente favorável à sua expansão.

 

Professor-doutor de Ciência Política da UFRN, é autor, entre outros, de “ A Reforma Política no Brasil e Outros Ensaios”, “Crise dos partidos: democracia e reforma política no Brasil ” e “A “Insurreição Comunista de 1935: Natal, o primeiro ato da tragédia”. [ Ver todos os artigos ]

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