Amelia e Telluride

Por Caetano Veloso
O GLOBO

“Pina”, de Wenders, é a primeira coisa em 3D que enfrenta a densidade e a seriedade

Gosto especialmente de Amelia Rabello. Senti muito ter perdido, na véspera de minha vinda para a Bahia agora, a apresentação dela no Teatro Rival. Só tinha aquele dia para ficar no Rio e precisava encontrar Inês Pedrosa, a escritora portuguesa que também adoro — e que ia viajar para Lisboa na mesma quarta-feira em que embarquei para Salvador. Um dia falo mais sobre Inês. Agora quero escrever algumas palavras sobre Amelia.

Eu a ouvi pela primeira vez num show de Paulinho da Viola. Ela fazia coro e, em meio ao espetáculo, Paulinho a convidava para cantar sozinha uma canção. Fiquei impressionado com a aparição da alma do samba assim exposta numa precisão musical de cantor jazzístico. Era como se o espírito de Dona Ivone Lara estivesse no domínio do aparelho de cantar de uma Elis Regina. Toda a exuberância do pianista Cristovão Bastos ( com quem partilhei o palco na primeira temporada da Banda Black Rio, nos anos 1970), que mais parece um desperdício de alterações harmônicas — como é frequente em instrumentistas de jazz pósbebop e em todo o samba-jazz brasileiro — ganha sentido de necessidade. Se nos trabalhos com Paulinho Cristóvão mostra sempre sensibilidade profunda para o vocabulário do samba, com Amelia ele chega à economia perfeita e à adequação total. Mas é o canto dela que parece fazer — de modo exigente — a liga. Seu timbre já explica cada escolha harmônica de um ponto de vista culto. Da cultura do samba carioca em suas manifestações mais puras. Claro que é Paulinho quem paira sobre tudo isso: sem ele essa história não estaria no estágio em que está .Mas Amelia parece material bruto.

Mesmo que Paulinho seja o mestre que veio de mais perto do núcleo do samba, Amelia, que ouviu o chamado e chegou perto , soa como se ela própria fosseuma das referências a que ele tem de se reportar. Seu novo disco — com Cristóvão no piano e nos arranjos e quase todo composto de letras de Paulo César Pinheiro (mas com um Radamés sobre Ataulfo e um Ataulfo pouco conhecido, além de um Roque Ferreira, um Moacyr Luz e um Pedro Amorim) — chama-se “A delicadeza que vem desses sons” e deve ser ouvido por quem quer que queira entender de samba e de cantoras.

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Telluride é uma cidade bem americana. Quando você chega a uma cidade americana, você não sente que entrou nela: mais parece que você saiu para o descampado. Em Telluride essa única rua que se vê nos filmes de caubói abre-se para a visão das Montanhas Rochosas. No tempo das diligências, era uma zona de mineração. Há 38 anos mantém um festival de cinema que é um paraíso para cineastas e cinéfilos. Não há competição nem prêmios. E — o mais impressionante — não há repórteres nem paparazzi. Este ano, embora lá estivessem George Clooney e Tilda Swinton (além de Werner Herzog, Wim Wenders e Alejandro Iñárritu) não se via nem uma cena sequer de fotógrafos assediando-os ou de microfones surgindo sob seus queixos. A moça que foi me buscar no aeroporto me disse que temia que a imprensa se acercasse do festival este ano, já que uma descendente de Bush ia se casar com um descendente de Ralph Loren numa fazenda logo ali ao lado. Mas que nada. O que havia era gente vendo filmes e conversando sobre cinema. Apresentei seis filmes, como diretor convidado. Tradicionalmente eles convidam uma pessoa que não (necessariamente) seja do métier para exibir e comentar filmes de sua escolha. Suponho que foi Peter Sellars (o diretor de teatro e ópera de vanguarda, o idealizador de “Nixon in China”, não o igualmente genial ator do “Doutor Fantástico” e da “Pantera Cor de Rosa”, aliás já falecido) quem sugeriu meu nome a Tom Luddy. Enquanto ainda duvidava se poderia aceitar o convite, tinha uma única certeza: que levaria “As grandes manobras”, de René Clair. É que, apesar de minha paixão pelo cinema italiano (que, de resto, já foi externada num disco dedicado a Federico Fellini e Giulietta Masina e numa canção chamada “Michelangelo Antonioni”), ter visto o filme de Clair em Santo Amaro aos 16 anos teve um impacto sobre mim ao qual eu sei que tenho de ser leal. E há a certeza de que dificilimamente alguém elegeria esse filme para uma mostra agora: Clair foi esnobado pela geração da Nouvelle Vague e, se seus filmes mudos e os primeiros falados gozam de alta reputação, uma comédia sentimental (colorida) dos anos 1950 fica abaixo da varredura dos radares. O resto foi consequência da decisão inabalável de mantê-lo na lista. Eu quis levar “Matou a família e foi ao cinema”, de Bressane, mas o esquecimento em que se encontra “Deus e o Diabo” entre os críticos e cinéfilos americanos me fez sentirme obrigado a insistir nele.

A combinação de “Grande manobras” com “Deus e o Diabo” — aquele reafirmado por “Se meu apartamento falasse”, de Billy Wilder; este, pelo desequilíbrio inocente e brilhante de “Aniceto”, de Leonardo Favio — e com o insuperável Godard de “Viver a vida” como fiel da balança — todos ligados pela revelação (para mim) de “Nordeste: cordel, repente, canção”, de Tânia Quaresma — fizeram de minha minimostra um monstrinho intrigante. Valeu.

Mais valeu ver “Pina”, de Wenders. É a primeira coisa em 3D que enfrenta a densidade e a seriedade. Esperemos que seja logo lançado no Brasil.

Mas a cena que melhor ilustra o festival se deu quando, tendo ido até o alto da montanha para apresentar “Vivre sa vie”, encontrei Wenders, que me dizia: “Há 25 anos não vejo esse filme”.

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