Amor‏

Por Maria Esther Maciel
ESTADO DE MINAS – VIA CONTEÚDO LIVRE

Lívia está à procura de um namorado para o jantar de hoje. Mas não, não é o que vocês estão pensando. O que ela procura é o peixe, aquele peixe de água salgada, chamado “namorado”, que vive em águas profundas e tem hábitos solitários. O peixe de corpo robusto e alongado, lábios grossos, cabeça ovalada e olhos grandes. Pelo que vi numa foto, ele é de coloração marrom, com leves tons de violeta no dorso e manchas claras nas extremidades. É uma espécie encontrável em todo o litoral brasileiro, sobretudo em regiões de areia. Aparece também em áreas de rochas e cascalho. Sua carne é magra e saborosa, sem espinhos e de textura firme. Um peixe bom para quem sofre de ciúmes ou tristeza. Ajuda também a estimular os sentidos quando acompanhado de uma taça de vinho branco.

Ir a um bom restaurante no dia 12 de junho tornou-se um hábito para Lívia e o marido. Eles fazem isso há 21 anos. Mas, desta vez, ela resolveu preparar um jantar à luz de velas, em casa mesmo. Depois de muito pensar no cardápio, achou que um filé de namorado ao molho de coco e gengibre seria perfeito para o momento. Como entrada, uma salada de figos grelhados, rúcula e lascas de parmesão, com creme balsâmico. De sobremesa, sorvete de manga com especiarias – no caso, cardamomo, pimenta rosa, cravo e canela.

Lívia não se considera bem uma cozinheira. Só de vez em quando ela se arrisca na cozinha, com ajuda de livros e dicas de amigas. Como gosta de ler sobre ervas e temperos, sabe, por exemplo, que o licor da flor do absinto é um estímulo ao desejo. Para a imaginação, nada melhor que champanhe acompanhado de cerejas frescas, de preferência nas noites de sexta-feira. E para ter sonhos interessantes, um chá com aroma de baunilha e frutas cítricas. Isso, para não falar de uma torta de frutas vermelhas com sorvete de creme.

Foi numa noite de maio que ela conheceu Bruno. Foi amor à primeira vista, como achava que nunca lhe aconteceria na vida. Até hoje ela costuma repetir para ele estes versos de Pessoa: “Quando te vi amei-te já muito antes./ Tornei a achar-te quando te encontrei./ Nasci para ti antes de haver o mundo”. E, nos instantes mais efusivos, não se contém e diz um “eu te amo”. E aí ele lhe pergunta: “Desde quando?” E ela responde: “Desde que nasci”. E ele: “Quando foi que você nasceu?” E ela: “Quando te conheci”. Sim, é muito sentimental tudo isso. E pode até soar piegas. Mas é assim mesmo que se passa com os dois desde que se encontraram pela primeira vez.

Sabemos que há o amor que surge com o tempo e o amor que surge de repente. Existe até o amor à última vista, quando alguém se dá conta de que ama uma pessoa no momento de perdê-la. Mas o de Lívia e Bruno foi um amor súbito, desses que só se acha quando nunca se procura.

Fico imaginando como será o jantar que terão esta noite. Depois do sorvete de manga à moda indiana, que se seguirá ao peixe com coco e gengibre, eles provavelmente ouvirão mais duas músicas do CD de John Coltrane. Vão se recolher depois da meia-noite, levando o que sobrou da garrafa de espumante. As velas já estarão derretidas na mesa. E a louça ficará para amanhã cedo.

Lívia, como se vê, pensou em tudo. Para ela, o amor está sempre nos detalhes.

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