Amor de Perdição

Driblava por driblar impunemente
Como quem dança, brinca, bebe e caça
//////// Jarbas Martins /////

“Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em frutos…” C. Castelo Branco.

Final da década de setenta uma noite. Terceiro Festival Internacional de cinema de São Paulo. Assistia deslumbrado aos amores impossíveis do Simão no filme do maior cineasta Português Manoel de Oliveira. Um filme em 16mm com mais de quatro horas de duração e longos planos fixos. Aquele imenso mar – oceano de cores fortes e profundas anunciava tragédias. Só na morte um desfecho anunciado. Um filme que tem na palavra o seu ponto forte não engana com movimentos e efeitos especiais. Mariana ama Simão e Simão ama Teresa que ao final vai para o céu, do alto do convento onde estava confinada. Simão morre degredado e Mariana beija-lhe a boca no único beijo possível em mais um drama que se transforma em tragédia.

Camilo Castelo Branco foi o maior escritor português do novecentos e teve vida atribulada. Um grande bibliófilo foi preso por amar uma mulher casada. Cego e arruinado suicidou-se em 1890. Um grande cronista de sua época fixou tipos e costumes de Portugal de sua época com traços realistas e dramáticos.

Oliveira não gosta muito de alterar o roteiro do livro e foi assim também que filmou o grande livro “O Sapato de Cetim” do Claudel. Amor de perdição faz parte de uma tetralogia manuelina e mostra de forma pungente como o cinema pode se relacionar com a literatura privilegiando a palavra e o silêncio. Um cinema de grandes tomadas e poesia saturada de imagens num diálogo que representa a impossibilidade do amor nesse imenso mar “salgado que são lágrimas de Portugal”. Valeu mestre nos seus mais de cem anos de vida em prol do cinema como uma forma de contar uma história sem artifícios.

“Dezoito anos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As louçanias do coração que ainda não sonha em frutos…” C. Castelo Branco.

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