Amor e ceticismo perante a escrita

Por Marcos Natali
Estadão

Em texto sobre como a relação com os livros é atravessada pelo desejo, Roland Barthes defende o direito a não ler, contra as injunções que fazem da leitura um dever. Assim, tão importante quanto garantir o acesso à leitura seria resguardar a liberdade de não ler certos livros, de abandonar alguns pela metade, de reagir com repulsa a outros.

Em certos círculos, talvez o nome de Roberto Bolaño (foto) represente, hoje, algo próximo dessa obrigação que descrevia Barthes. Diante desse quadro surgem reações compreensíveis, referências à “supervalorização” do escritor e acusações de que ele seria apenas uma moda – pior, uma moda norte-americana. (A complicação é que o fato do interesse por Bolaño crescer no Brasil após sua trajetória bem-sucedida nos Estados Unidos nos diz mais sobre o Brasil do que sobre sua obra, o surto Bolaño tendo tomado a Espanha e países hispano-americanos antes de atingir aos Estados Unidos.)

Como costuma acontecer nesses casos, aparecem também explicações um tanto culpadas e declarações de pioneirismo: eu lia Bolaño antes dele se tornar febre mundial, etc. Mas se a inclusão de relatos pessoais sobre o momento do descobrimento de Bolaño é comum em resenhas de suas obras, talvez a explicação se deva também ao fato de que o deslumbramento diante de um livro novo é justamente um dos temas preferidos do autor, a descoberta de um autor funcionando até como o dispositivo que dispara algumas tramas, como se vê na primeira linha do romance 2666: “A primeira vez que Jean-Claude Pelletier leu Benno von Archimboldi foi no Natal de 1980, em Paris, onde fazia estudos universitários de literatura alemã, aos dezenove anos de idade.” A narração explicará em seguida que Pelletier “a partir desse dia (ou das altas horas noturnas em que deu por encerrada aquela leitura inaugural) se converteu num archimboldiano entusiasta e deu início à peregrinação em busca de mais obras desse autor.” Se em Os Detetives Selvagens, romance de 1998, buscava-se uma escritora vanguardista mexicana, em 2666 Archimboldi, misterioso escritor alemão, será o objeto de desejo, desta vez de um quarteto de críticos europeus.

Entre as leituras inaugurais relatadas pelo romance estarão as do próprio Archimboldi, e a relação tensa de Bolaño com o campo literário pode ser entrevista no fato de que, neste caso, o surgimento da paixão pela leitura coincide com o primeiro roubo de um livro. Livros roubados são frequentes na obra de Bolaño, os furtos invariavelmente narrados com orgulho, e chega agora de Portugal a notícia de que lá o próprio 2666 é o livro mais roubado do ano, sugerindo uma nova categoria para a classificação de livros. (No caso de 2666, a avaliação do feito deve levar em consideração a dificuldade especial de fazer desaparecer de uma livraria um volume de cerca de mil páginas. Já a decisão de roubar ou não o livro deverá avaliar ainda o fato de que Bolaño, pouco antes de sua morte – precoce, como todas as mortes -, preocupava-se com a melhor forma de garantir o bem-estar de sua família com a venda desse livro que, ele já sabia, seria póstumo.)

Na obra de Bolaño, o deslumbramento inicial diante de um texto será temperado por duas ponderações. Primeiro, o reconhecimento daquilo que pode resultar do arrebatamento, inexistindo garantia de que a história posterior estará à altura do evento original, ou que não será inclusive sua anulação. Além disso, há a insistente capacidade demonstrada pelo horror de sobreviver ao maravilhamento causado pela literatura. Assim, quando os estudiosos europeus viajam ao norte do México em busca de Archimboldi, o que encontram, na cidade de Santa Teresa, é uma série de assassinatos de mulheres, referência ficcional às centenas de mortes ocorridas em Ciudad Juárez desde 1993. A impotência das personagens diante do horror se depara com a impotência da própria literatura, distante dos tempos em que podia declarar sua exterioridade ao mal. Se no femicídio de Santa Teresa está “o segredo do mundo”, como assegura o romance, será necessário voltar, após os relatos das mortes, a episódios aparentemente banais do livro, como a extensa sequência de piadas misóginas contadas pelos policiais mexicanos responsáveis pela investigação dos crimes. Efetivamente, após a quarta parte do romance, a que registra os assassinatos, não haverá como retornar ao livro com os mesmos olhos.

Caso seja confirmada a profecia do escritor mexicano Jorge Volpi – o destino do monumental 2666 é transformar seus leitores em devotos de uma espécie de nova religião do livro -, em sua doutrina deve constar o reconhecimento dessa relativa fraqueza da literatura diante dos horrores que rasgam o romance (a 2.ª Guerra Mundial, os campos da União Soviética, os exílios provocados pelas ditaduras latino-americanas). O romance será, afinal, “sobre” tudo isso, mas também sobre o processo criativo que faz que essa matéria responda a exigências da própria literatura.

Assim sendo, ler Bolaño como continuação da tradição latino-americana não é impossível, embora, para o autor, a exigência de fidelidade à tradição nacional ou regional seja precisamente o que se deve evitar. É claro que o desprezo por Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes – os “machos anciões” da literatura latino-americana – é também um modo, do qual não está ausente o afeto, de dialogar com a tradição, transformando-a em outra coisa, ao mesmo tempo em que se constrói uma genealogia alternativa. Mas é justamente nessa geração conhecida como o boom da literatura latino-americana que se cristaliza a fórmula da literatura como compensação das misérias da região.

Sentimental. São, como se vê, apaixonadas e excessivas as cobranças que a obra de Bolaño faz à literatura, questionamentos de um crente que testa o divino com suas invectivas, mas desde uma fé inamovível. Certamente haverá nesses momentos algo de sentimental – como se anuncia no conto La Muerte de Ulises: “lo que sigue es caótico y sentimental…” Mas o segredo de Bolaño, se existir um, talvez seja este: uma representação da literatura ao mesmo tempo ferozmente cética e profundamente amorosa. Como se dirá em 2666, em alusão a outro escritor errante que surge na trama do romance: “Só o vagabundear de Ansky não é aparência, pensou, só os catorze anos de Ansky não são aparência. Ansky viveu toda a sua vida numa imaturidade raivosa porque a revolução, a verdadeira e única, também é imatura.”

MARCOS NATALI É PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA NA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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