Amor e loucura dos Cavaleiros Andantes

Óleo sobre tela, Honore Daumier, século XIX

Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo.

(Disquisição na Insônia / Drummond )

Pelo amor tudo pode e adverte. Pelo amor luto contra gigantes e moinhos de vento. Tudo por ela: a minha amada. Fico louco e dou cambalhotas na razão. Cavalgo o Rocinante e luto conta as injustiças. Morro com Basílio pelo amor Quitéria. Canto com Grisóstomo o amor de Marcela. Foi pelo amor que Dante e Cervantes escreveram os dois maiores livros do ocidente.

O Orlando Furioso é um outro livro emblemático do renascimento e de cavalaria quando a loucura esteve no centro das atenções e ações dos bravos cavaleiros em busca de justiça. Os cavaleiros cristãos lutavam contra os mouros na novela de Carlos Magno e do Orlando – sobrinho de Carlos – que chega a surtos de loucura por amor da bela princesa oriental Angélica. As raízes cristãs do Orlando Furioso foi percebida pelo seu mais célebre leitor, Cervantes, que ao se referir ao seu autor disse: “ el cristano poeta Luduvico Ariosto” .

No filme D. Quixote de Orson Welles um desesperado Sancho Pança procura o seu amo e confidente na Lua. A lua foi durante muito tempo responsável pelos seres lunáticos e desajuizados. O Orlando Furioso de Ludovico Ariosto dominado por uma loucura furiosa também procura – na Lua – a cura para o seu mal.

Por amor a Dulcinéia de Toboso o Dom Quixote trava todas as batalhas. Por amor Orlando “venne in furore e matto”. Em Ariosto a poesia é vista como espaço privilegiado do dialogo entre razão e loucura. O “ Sorriso Ariosteco” renascentista surge deste assistir, em si mesmo e nos outros, ao diálogo entre razão e loucura. Este olhar é antes de mais nada introspectivo e auto irônico ( Francisco de Sanctis).

Miguel de Cervantes escreve sobre a universalidade e imponderabilidade do amor. O amor não olha respeito nem guarda razões em suas palavras, e tem a mesma prerrogativa da morte, que tanto acomete os altos palácios dos reis, como das humildes choças dos pastores, e quando se apossa de uma alma, a primeira coisa que faz é tirar-lhe o medo e a vergonha (Dom Quixote II, 48 ).

O renascimento coloca o homem como personagem central do universo filosófico. A cultura deixa a sua hierarquia essencialmente vertical – e passa ser horizontal. Uma cultura de grande beleza plástica e simétrica. Um predomínio da razão em detrimento das superstições e crendices, ainda presentes no dia – a dia das pessoas. A convivência entre razão e loucura está muito presente nas obras renascentistas. Erasmo escreve o Elogio da Loucura onde a loucura é tratada poeticamente e Maquiavel escreve o “Príncipe”. O Príncipe – ao mesmo tempo que precisa ser prudente e justo -, necessita também reconhecer a força do imponderável, do imprevisível daquilo que não se reduz ao factual. Diz Erasmo, que teve grande influencia na cultura renascentista: “muitas vezes, também o homem louco fala judiciosamente”. A influencia de Erasmo pode ser percebida no Quixote, na medida em que sua loucura é uma loucura que pode ser percebida em cada um de nós. Eu, você, o Cura , o Barbeiro e Sansão Carrasco somos todos loucos.

Escreve Pedro Garcez Ghirardi na introdução ao Orlando Furioso (Ateliê Editorial): Assim no centro do renascimento, com Maquiavel e Ariosto, está o diálogo entre razão e loucura, diálogo oposto ao furor bestial ou do racionalismo abstrato. O Recuo da loucura, nesse diálogo, levará ao desequilíbrio do classicismo maneirista; seu contra-ataque levará ao Barroco; sua derrota no século das luzes, levará ao monólogo da razão triunfante.

A insanidade do cavaleiro da triste figura é o leit motiv de toda a trama romanesca do maior romance de cavalaria. Se o Quixote não tivesse enlouquecido não teria saído por três vezes de casa. Quando ele recobra a razão logo morre. Sua razão era o pelejar. Nas personagens tornadas mitológicas do D. Quixote e Sancho um pouco de cada um de nós e das nossas loucuras e humor. Cervantes é uma dos maiores humoristas da literatura universal. A loucura de Dom Quixote é simples veículo para certa idéia do viver humano, diz o seu grande estudioso Américo Castro. Para Huizinga em Homo Ludens ( 1944), Quixote não é louco nem idiota, mas alguém que joga de cavaleiro andante, e jogar é uma atividade voluntária -, ao contrário da idiotice e da loucura.

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