O amor em dose dupla no Boca Espaço de Teatro

Por sorte eu não escrevi, como me planejei, no sábado ou domingo sobre “Bicha Oca”, que assisti na sexta-feira (08) na Boca Espaço de Teatro, na Ribeira. Porque no domingo, voltei ao local para ver o segundo espetáculo do Festival, “DESamaDOR”. Monólogos inspirados em livros e experiências amorosas e de vida do ator Rodolfo Lima.

“Bicha Oca” nos contos homoeróticos “A Volta da Carmen Miranda”, “Os Atores”, “Meus Amigos Coloridos”, “Coração” e “Seu Alceu”, do escritor pernambucano Marcelino Freire. “DESamaDOR” no livro “O amor esquece de começar”, do escritor gaúcho Fabrício Carpinejar.

Não ter escrito imediatamente sobre “Bicha Oca” foi bom porque achei os trabalhos muito próximos (com um texto único posso tratar de ambos). Tanto que poderia ser uma peça, em duas partes, sobre o amor, seus descaminhos e suas consequências. Embora próximos os dois trabalhos possuem algumas peculiaridades. “Bicha Oca” volta-se para questões antigas e atuais acerca da homossexualidade, da sexualidade e para o relacionamento amoroso, a partir das memórias sentimentais de Alceu, um gay de meia idade bastante conservador. Pela sequência de fracassos amorosos passa certa amargura e pessimismo. O que poderia ser e não foi.

Para compensar, “DESamaDOR” fala sobre o amor e suas possibilidades, abarcando os seres humanos, sem distinção de gênero. É também mais leve e otimista. O livro de Carpinejar lembra um manual sobre o amor. Mas, estamos carecas de saber, o amor não cabe em manual. O que não invalida a iniciativa do escritor.

Ontem, domingo (11), depois da apresentação conversei rapidamente com Rodolfo Lima. Ele concordou que as duas peças são muito próximas, mas ressalvou que não foi proposital, só percebeu isso depois.

Ambas são intimistas. Sendo que “Bicha Oca” possui uma carga dramática e de tensão maiores e exige bem mais do ator. E conta também nos minutos finais com a participação de um segundo ator, no caso Samy Dias. O título da peça não é meramente ilustrativo, num trecho de um dos contos a personagem diz: “Bicha devia nascer sem coração. É, devia. Oca. (…) Bicha devia nascer vazia”. “DESamaDOR”, pela simplicidade cênica, leveza e informalidade, nem parece uma peça teatral tradicional, aproxima-se, digamos assim, de um “recital em prosa”.

Na apresentação de “Bicha Oca” tive dificuldades em ouvir, entender alguns trechos, não sei se foi devido o barulho do ventilador ou a acústica do espaço. Isso me incomodou um pouco. Ainda sobre essa peça, minha opinião é que não precisa de um segundo ator em cena. Acho até que o monólogo perde força com isso. Mas já que ele está em cena, sua participação poderia ser mais sutil, menos crua e sem necessidade do boquete explícito.

Fiquei refletindo sobre a parte do boquete, se estou analisando a partir de um ranço conservador. Pode ser que a cena tenha um teor político, catártico, libertário etc que me escapou. Nesses casos justifica-se. Do contrário é desnecessária. Confesso que não consegui estabelecer um vínculo lógico com o que vinha sendo mostrado. Mas essa é uma visão pessoal, pode ser que outros espectadores tenham opinião oposta.

O Festival prossegue até o dia 23 de janeiro com peças e oficinas. Vocês podem consultar o Facebook do espaço Boca, que vem fazendo um trabalho elogiável na área teatral da cidade. https://www.facebook.com/abocaespacodeteatros/?fref=ts

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