O Amor a Loucura e o Riso no Dom Quixote de Cervantes

Por João da Mata

Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?
O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?
Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo.

(Disquisição na Insônia / Drummond )

O Amor

Pelo amor tudo pode e adverte. Pelo amor luto contra gigantes e moinhos de vento. Tudo por ela: a minha amada. Fico louco e dou cambalhotas na razão. Cavalgo o Rocinante e luto conta as injustiças. Morro com Basílio pelo amor Quitéria. Canto com Grisóstomo o amor de Marcela. Foi pelo amor que Dante e Cervantes escreveram os dois maiores livros do ocidente.

Por amor a Dulcinéia de Toboso o Dom Quixote trava todas as batalhas. Por amor Orlando “venne in furore e matto”. Em Ariosto a poesia é vista como espaço privilegiado do dialogo entre razão e loucura. O “ Sorriso Ariosteco” renascentista surge deste assistir, em si mesmo e nos outros, ao diálogo entre razão e loucura. Este olhar é antes de mais nada introspectivo e auto irônico ( Francisco de Sanctis).

Miguel de Cervantes escreve sobre a universalidade e imponderabilidade do amor. O amor não olha respeito nem guarda razões em suas palavras, e tem a mesma prerrogativa da morte, que tanto acomete os altos palácios dos reis, como das humildes choças dos pastores, e quando se apossa de uma alma, a primeira coisa que faz é tirar-lhe o medo e a vergonha (Dom Quixote II, 48 ).

A Loucura

“que fique o bobo / e que o sábio se vá. / o vilão que corre vira bobo, / o bobo vilão não será. Shakespeare – Rei Lear

O renascimento coloca o homem como personagem central do universo filosófico. A cultura deixa a sua hierarquia essencialmente vertical – e passa ser horizontal. Uma cultura de grande beleza plástica e simétrica. Um predomínio da razão em detrimento das superstições e crendices, ainda presentes no dia – a dia das pessoas. A convivência entre razão e loucura está muito presente nas obras renascentistas. Erasmo escreve o Elogio da Loucura onde a loucura é tratada poeticamente e Maquiavel escreve o “Príncipe”. O Príncipe – ao mesmo tempo que precisa ser prudente e justo -, necessita também reconhecer a força do imponderável, do imprevisível daquilo que não se reduz ao factual. Diz Erasmo, que teve grande influencia na cultura renascentista: “muitas vezes, também o homem louco fala judiciosamente”. A influencia de Erasmo pode ser percebida no Quixote, na medida em que sua loucura é uma loucura que pode ser percebida em cada um de nós. Eu, você, o Cura, o Barbeiro e Sansão Carrasco somos todos loucos. A loucura como tolice, benção é crucial para toda empresa de louvor irônico. Uma força unitária e contagiosa assim como as crenças folclóricas. Por toda a idade média, a loucura serviu de disfarce para antigas formas de paganismo mágico ( Zijderveld). Como obra renascentista, o Dom Quixote faz da loucura um dos seus temas principais.

Na metade do século XLI no ocidente, desaparece o caráter sagrado da catástrofe. Desaparece o lado benéfico numa dessacralização da loucura.

A loucura emergente é um evento coletivo vivido na solidão ( Grivois, chefe de psiquiatria do Hospital Municipal de Paris) . A demência é a experiência individual de uma crise coletiva.

O que obrigou Cervantes a romper com a multidão, salvar o louco de seu destino imemorial?

Não foi só compaixão, conquanto sem dúvida o tenha sido -, mas uma mudança de perspectiva, de enfoque da visão pública, coletiva para a individualizada.

Cervantes diz que o Quixote perdeu completamente o juízo. Mas, se Alonso Quijano tivesse perdido completamente o juízo não haveria o Dom Quixote. O romance moderno e a psiquiatria exercem o mesmo processo histórico de dessacralizar a loucura. A alienação mental nunca é completa: o alienado conserva sempre um distanciamento de sua alienação.

O Orlando Furioso é um outro livro emblemático do renascimento e de cavalaria quando a loucura esteve no centro das atenções e ações dos bravos cavaleiros em busca de justiça. Os cavaleiros cristãos lutavam contra os mouros na novela de Carlos Magno e do Orlando – sobrinho de Carlos – que chega a surtos de loucura por amor da bela princesa oriental Angélica. As raízes cristãs do Orlando Furioso foi percebida pelo seu mais célebre leitor, Cervantes, que ao se referir ao seu autor disse: “ el cristano poeta Luduvico Ariosto” .

Escreve Pedro Garcez Ghirardi na introdução ao Orlando Furioso (Ateliê Editorial): Assim no centro do renascimento, com Maquiavel e Ariosto, está o diálogo entre razão e loucura, diálogo oposto ao furor bestial ou do racionalismo abstrato. O Recuo da loucura, nesse diálogo, levará ao desequilíbrio do classicismo maneirista; seu contra-ataque levará ao Barroco; sua derrota no século das luzes, levará ao monólogo da razão triunfante.

No filme D. Quixote de Orson Welles um desesperado Sancho Pança procura o seu amo e confidente na Lua. A lua foi durante muito tempo responsável pelos seres lunáticos e desajuizados. O Orlando Furioso de Ludovico Ariosto dominado por uma loucura furiosa também procura – na Lua – a cura para o seu mal.
Para Erich Auerbach em Dulcinéia encantada, ele não tinha rival na representação da realidade comum como uma festa contínua. A loucura do Quixote não é total. Dom Quixote só está errado quando está louco. Um louco ao mesmo tempo sábio.

“ Pois é nas asas da loucura que a sabedoria alça vôo, atravessa o mundo e se enriquece nele, pois se D. Quixote não tivesse enlouquecido, não teria deixado sua casa e então Sancho teria ficado em casa”. O jogo dos sois mundos não se teria realizado. Para Auerbach, Dom Quixote é louco, todavia, sua loucura serve de receptáculo onde a sabedoria pode se desenvolver. Cervantes continua sendo até hoje o grande mágico do riso e das lágrimas e, o D. Q., não é louco nem idiota, mas alguém que joga de cavaleiro andante, e jogar é uma atividade voluntária, ao contrário da loucura e da idiotice, diz Huizinga em Homo Ludens (1944). Outro grande leitor de Cervantes é Miguel de Unamuno, um dos leitores mais referidos e comentados. O cavaleiro da triste figura de Unamuno é um homem que busca a sobrevivência, e cuja loucura é uma cruzada contra a morte. “Grandiosa era a loucura de D. Q. , e grandiosa porque grandiosa era a raiz de onde brotava o inextinguível anseio de sobreviver, fonte das mais extravagantes loucuras, e também dos mais heróicos atos”. “La libertad Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieram los cielos” (Dom Quixote II, 58). Não há em toda literatura personagem mais livre. Concordamos com Dostoievski em diário de um escritor, não existe nada mais profundo e poderoso que este livro.
A insanidade do cavaleiro da triste figura é o leit motiv de toda a trama romanesca do maior romance de cavalaria. Se o Quixote não tivesse enlouquecido não teria saído por três vezes de casa. Quando ele recobra a razão logo morre. Sua razão era o pelejar. Nas personagens tornadas mitológicas do D. Quixote e Sancho um pouco de cada um de nós e das nossas loucuras e humor. Cervantes é uma dos maiores humoristas da literatura universal. A loucura de Dom Quixote é simples veículo para certa idéia do viver humano, diz o seu grande estudioso Américo Castro. Para Huizinga em Homo Ludens (1944), Quixote não é louco nem idiota, mas alguém que joga de cavaleiro andante, e jogar é uma atividade voluntária -, ao contrário da idiotice e da loucura.

O Riso

O maior dos pares do espírito – natureza e o mais ortodoxo é Dom Quixote – Sancho Pança. Os dois têm uma relação harmoniosa (diferente de Prospero e Caliban). Uma relação dialética onde cada um se modifica na direção do outro. Tanto os personagens quanto o relacionamento entre os dois é cômico. Dom Quixote é comicamente louco, Sancho Pança é comicamente lúcido. Um acha o outro uma adorável e divertida figura, fonte infinita de prazer. É essa comicidade onipresente que faz o livro ortodoxo. Se o relacionamento fosse visto como trágico, a conclusão seria maniqueísta, Se um dos personagens for visto como sério, a conclusão seria pagã ou pelágica ( Auden) .

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