Amor Secreto

Por Romana Alves Xavier

Ele era calado, quase não falava, mas sabia ouvir como ninguém. Muitos o achavam anti-social, mas ela o amava sem restrições. Não havia um só dia em que não confessasse a ele todos os seus sonhos de menina. Era uma relação de cumplicidade sem precedentes.

E como faziam planos juntos. Aonde um ia, o outro sempre acompanhava. Ela mais falante e ele dono de um silêncio maduro. Maduro de uma maturidade sem vícios. As amigas a invejavam e queriam muito tê-lo nos braços. Saber o que se passava naquela alma tão enigmática e sedutora era um convite tentador.

Mas, ele era fiel. Jamais a trairia. Seu amor e sua dedicação estavam bem além das linhas de um conto trágico. Ela, ingênua, não imaginava o que se passava na mente das amigas.

A rotina quase diária não diminuía a força do que sentiam. E quando não se encontravam, quanta intensidade. Tantas coisas a contar, tantos beijos e declarações de amor. E quanta poesia por metro quadrado cabia nesses encontros de amor.

Um amor secreto. A saudade tomava conta da cama e, a portas trancadas, ela se revelava. Parecia que havia se passado um ano em horas de separação. Não poderia haver ninguém por perto. E todos os desejos proibidos se tornavam permitidos. Nesses momentos, ela era uma mulher com rosto de menina e vestido de fita.

O tempo se passava e, dia após dia, outro alguém tentava descobrir mais a respeito deles. Em vão. Eles eram um casal singular, discretos e protegidos da curiosidade alheia. Mas, de repente, como se perde as melhores coisas da vida, ela faltou a um encontro de amor. Algo que quase nunca acontecera.

Ele, que a conhecia melhor do que a si próprio, sabia que ela mudara. Não fora exatamente a primeira vez que o deixara esperando sem explicações. Fazia alguns dias que os encontros não eram mais os mesmos. No máximo, um agrado sem carinho e ela o deixava de lado, sozinho, com um jeito doce de quem não volta mais.

Aos quinze, ela estava realmente diferente. Indiferente. Ao menos com ele.Certamente, ela se apaixonara por outro e estava sem coragem para dizer. Ultimamente ele não sabia mais o que se passava no seu coração. Não era ciumento, mas estava triste, se sentia trocado. Logo ele que sempre fora amante, confidente e fiel. Folhas de um papel que estava se acabando.

E como tudo que começa tem um fim, foi assim também com eles. Nesse dia, ela chegou ao quarto, séria e misteriosa, com um semblante de uma mulher em busca de novos desafios. Ao vê-la, ele soube que tudo terminara.

Não houve choro nem despedida. Ela não o olhou no rosto, tampouco o beijou. Sequer disse alguma palavra de consolo, típica dos casais cujo amor chega ao fim. Simplesmente o pegou nos braços, e sem qualquer abraço, abriu uma gaveta antiga onde o guardou, colando nele uma etiqueta que dizia: “Diário 1997”.

Comments

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  1. Tânia Costa 5 de Julho de 2010 10:52

    Leitura gostosa. O final me “pegou” desprevenida.

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