Amores antigos

Para o amigo Tácito Costa

Estou sentado a uma pequena escrivaninha. Acho que escrevo meu segundo conto. Não me recordo mais do tema, já se passaram cinquenta anos. O primeiro conto mandei para o Diário da Noite e foi publicado com destaque, no alto da última página. Recebi elogios e tapinhas nas costas, hoje daria tudo para resgatar esse conto. Mas o jornal deixou de existir com a ditadura de 64, foi um dos primeiros fechados. E se de lá para cá não sobraram nem mesmo as sigilosas anotações dos órgãos de repressão, que dizer do arquivo de um jornal empastelado há cinco décadas? Do pouco que me lembro, O enterro, a rede e o homem descreve um enterro dentro de uma paisagem e cultura nordestinas. Aliás, os enterros de rede eram uma constante na minha infância, sempre passando na frente da minha casa os defuntos trazidos de longe, duas, três, quatro léguas, transportados por homens cujos passos apressados pareciam seguir um ritual. Assim também as paradas no caminho para que as pessoas tivessem a última vista do corpo. Uma vez vi na fronte de um morto uma veia grossa e saliente, como a testemunhar o sofrimento da morte.

Estou sentado à pequena escrivaninha rascunhando o meu segundo conto, repito. Brutus apaga a lâmpada do quarto. A lâmpada é dessas amarelas, de quarenta velas, e a chave é no próprio bocal. Brutus tem inveja, ele quer, mas não consegue escrever uma linha. Ele pertence a uma família violenta, os irmãos andaram se matando uns aos outros, e o pai os fazia sentarem-se nus sobre uma brasa. Levanto-me e torno a acender a lâmpada. Brutus é mais forte, com mais idade, e está armado. Me agride, não tenho chance de revidar. Tem medo de mim, e por isso se antecipa com uma reação desigual. Os assassinos em regra agem precipitados pelo medo.

Por dias e meses elaboro uma vingança. Teria que matar Brutus. Teria que passar também o resto da minha vida na cadeia. Vivi a angústia do impossível. Nessa luta inútil, perdi o ânimo para escrever, e o segundo conto morreu pelo caminho.Um colega muito grosseiro pegou as páginas abandonadas dizendo servir para o banheiro, ainda me causa estupor a frase de Marivaldo.
Outros contos não apareceram. Devagar, sem perceber, troquei a literatura, que me deixava feliz, sem me importar com a pobreza em que vivia, por livros de autoajuda e psicologia. Enveredei pelos livros de Dale Carnegie, Como Influenciar Pessoas e Fazer Amigos, o best seller da autoajuda, livros de Vicent Peale, e fui bater em Paramahansa Yogananda e outros gurus da Índia. Quando procurei me ver, não me vi, não houve espelho que me coubesse. A vida seguiu então como uma montanha russa, e mais desceu que subiu, até se inclinar de vez para baixo. É fácil comparar a vida a um parque de diversão quando se está distante, olhando confortavelmente o passado. Mas lá no front do que se passou só quem sabe direito é quem estava lá. Precisei de muito tempo para voltar a escrever, mas digo por experiência própria que enquanto o olho bate, nada morre dentro da gente, as coisas ficam apenas soterradas. E mesmo sendo grande a quantidade de areia e cascalho, o entulho pode ser removido, e ganhar vida o que aparentemente estava morto. Como se o lixo, a terra, a poeira, desaparecessem graças a alguns passos que necessitam de novo ensaio.

Uma vez, a separação me deixou tão exaurido, tão desconforme, que atirei na lata do lixo um livro que me custou mais de um ano de intensa pesquisa. Tal livro hoje não tem mais valor, não me interesso mais pelo seu conteúdo. Assim mesmo, me sinto órfão dele, como órfão me sinto do meu primeiro conto. Há muitas orfandades na vida, e às duas que lamentei acrescento a das namoradas que me quiseram, e eu, como um tolo, um idiota, um imbecil, um despreparado, um medroso fóbico (expresso-me assim imitando o meu primo Deon, que usava na frase no mínimo cinco adjetivos de sentido igual) me esquivei do amor. Repeti os adjetivos também por outra razão, para fazer entender que é muito difícil se perdoar. Acho que é mais fácil perdoar aos outros que a si.
Comecei me sentindo órfão de um conto, e vou adentrando outras orfandades, aceitando essa tirania da memória de trazer sofrimento de longe. Lembro-me de uma frase de Simon Bolívar, reproduzida por Gabriel Garcia Márquez, em O General e seu Labirinto: O homem seria feliz se não tivesse memória. É verdade, a memória em muitos casos funciona como um chicote com pontas de aço sobre nossas costas. E não é nada fácil se submeter a essa impiedade, mesmo sabendo ser este o único jeito de nos livrarmos do que, por motivos diversos, precisou ficar encerrado debaixo de sete capas.

O conto e as namoradas se foram no ralo dos anos. Lamentavelmente não se constituem mais num pretérito possível. Por sinal nenhum pretérito é possível. A luz, que conduz o som e a imagem — já provaram os astrônomos do observatório de Atacama — se renova em fração de milionésimos de segundo. A se olhar por este prima, tudo é passado. A declaração de amor leva algum tempo para ser ouvida, e até mesmo o beijo na boca somente será sentido depois de os neurônios terem feito um engenhoso trabalho para acusá-lo aos sentidos. Se a gente quiser enlouquecer começa a pensar nessas coisas, que no Atacama chamam de a nostalgia da luz. Mas no fundo dá pra se desconfiar que somos uma espécie destinada a viver no passado. Com as distorções do passado, com a dor das perdas do passado, com a culpa e o remorso do passado, até mesmo as boas recordações vêm com o travo da nostalgia ou com a ambiguidade do déjà vu.

Refiz-me e voltei a escrever. Tive a sorte de conseguir o que poucos conseguem, buscar a pá e o machado que à distância ficaram perdidos. Este amor antigo eu guardo com o possível desvelo. Quanto às namoradas, bem, não pretendo terminar este conto com mais lamentações. Em algum momento gosto de ouvir Dolores Duran: Não fale bem nem mal / não fale nada que puder/ eu sou coisa que já foi / e não deseja voltar/ tudo que passou, passou/ toda estória tem um fim.

Contista e poeta. Autor, entre outros, dos livros de poesia “Haveres”, “Ferrovia”, “Beleza Distante”, e de contos “Sob o Céu de Natal”, “Idas e Vindas de São Serapião”, “O Amor Fora de Época de Felipe Flores”. [ Ver todos os artigos ]

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