Amy Schumer: bela, desvairada e formidável

Dirigido por Judd Apatow em 2015, o filme Descompensada estabeleceu sucesso internacional para a comediante Amy Schumer.

Sua persona é desbocada, imoral, mesmo assim cheia de ternura, inteligência e coragem, especialmente para lidar com humor autodepreciativo.

A celebridade sugere uma postura anárquica para além das discussões que infestam redes sociais, neste momento.

Descompensada_Judd Apatow
Judd Apatow é diretor, roteirista e produtor, responsável pelos sucessos O virgem de 40 anos e Ligeiramente grávidos. Apresentou ao público celebridades como: Steve Carrell, Jonah Hill e Seth Rogen

Já na abertura, Descompensada traz comentários estúpidos.

Mas nem por isso deixa a perspicácia de lado.

Possivelmente, na discussão sobre papéis sociais do homem e mulher, chega a apresentar observações politicamente incorretas das mais absurdas.

Prestes a deixar o lar, o pai tenta persuadir suas filhas das incoerências nos princípios monogâmicos matrimoniais e o disparate destes fundamentos.

Ao tratar do assunto, e explicar às crianças o motivo do abandono, argumenta coerentemente fazendo analogia a partir de questões lúdicas relacionadas ao consumismo infantil.

Escolher brincar com determinado objeto não exclui a possibilidade de querer brincar com outros. Apesar do raciocínio insensível e grosseiro é convincente.

Destarte, estabelecerá a influência paternal que ninguém espera para as meninas.

É neste tom do politicamente indesejado que Judd Apatow, ao lado de sua recém-apadrinhada comediante e roteirista, definem o humor.

Quanto mais ácido e incômodo, melhor.

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Amy Schumer roteirizouDescompensada seguindo a linha autobiográfica. A personagem leva seu nome e cristaliza para os espectadores sua persona já célebre no programa Inside Amy Schumer do canal Comedy Central – emissora também responsável por South Park.

Se por um lado perturba àqueles reféns da comédia de risos fáceis, com lugares comuns estabelecidos pela moral, por outro traz possibilidades catárticas para uma atitude libertária.

Talvez Descompensada, ao lado de Amy Schumer e Judd Apatow – seus criadores – tenha, sobretudo, postura apaziguadora depois de tanta incorreção e destruição de valores.

Afinal, essas figuras do entretenimento precisam estabelecer com o público uma prestação de serviço: entregar aquilo quase sempre esperado, o final feliz.

Entretanto, é na jornada dessa Descompensada que vislumbramos as questões que realmente importam.

Estará à sociedade, atualmente, preparada para lidar com a emancipação feminina em sua totalidade?

Professor de comunicação social. Tenho maior interesse em cinema, cinefilia, crítica cultural, literatura e séries de tevê. Meus estudos são relacionados às convergências midiáticas, publicidade, artes e design. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 4 comments for this article
  1. Kalina Simplício 26 de Abril de 2016 6:47

    Adorei!!! Não assisti ao filme, mas agora certamente o farei. Será que, mesmo nos dias de hj, a sociedade está preparada para “toda” essa emancipação? Ainda tenho minhas dúvidas. E digo mais, acho que as próprias mulheres, em alguns sutis aspectos, tb ainda têm suas dúvidas…

  2. Inaldo 26 de Abril de 2016 14:32

    Olá Gustavo!
    Que boa surpresa ler um texto sobre cinema escrito por você. Sempre assisto no Canal Comedy Central os shows da AMY SCHUMER. Ela faz piadas com o próprio corpo, bem como de relações sexuais com uma total desinibição. Gostaria de sugerir que você escrevesse sobre as principais cenas de capítulos da sexta temporada de GAMES OF THRONES. No primeiro capítulo, achei a cena final digna de reflexão sobre a transformação do corpo feminino na velhice, principalmente pela febre atual de culto aos corpos perfeitos.

  3. Gustavo Bittencourt 27 de Abril de 2016 9:12

    Oi Kalina! Vc tem razão: todos nós precisamos, constantemente, repensar nossos ideais de comportamento. A emancipação será sempre conflituosa, entre o indivíduo consigo próprio e os que estão em nosso entorno. Devemos por isso, lutar, por mais que seja pelo consenso.

  4. Gustavo Bittencourt 27 de Abril de 2016 9:30

    Olá Inaldo, a surpresa foi minha ao ver seus comentários. Fico feliz pelo que disse, principalmente por saber que está afinado com o melhor da tevê. Quanto à série GOT, devo escrever em breve, mas vc acertou nas sugestões reflexivas. Apesar de pensar em fazer comentários sobre personagens femininas num universo brutalmente masculino, a discussão sobre padrão de beleza não sairá dessa vez. Entretanto, a última cena do primeiro capítulo da 6ª temporada abriu as portas da percepção para muita coisa de mitologia, desde preconceito relacionado à bruxaria quanto aos novos ideais perpetuados na atualidade. Abraço!

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