Anarquista por falta de opção – Luís Damasceno

Luís Damasceno dedicou sua vida ao convívio com os livros; hoje sofre de uma paralesia progressiva

Por Francisco Francerle/ O Poti
Foto: Carlos Santos/DN/D.A Press

Luís Damasceno, natural de Macaíba, 65 anos, é praticamente o último dos
livreiros do Rio Grande do Norte. Advogado por formação, nunca quis
prestar o exame da OAB, preferiu a companhia dos livros do que dos
magistrados nos tribunais. Sempre foi um homem de esquerda, um comunista
por militância, um petista por convicção e, ultimamente, um anarquista por
falta de opção. Suas posições políticas claras, bem definidas e objetivas,
o fizeram construir a vida inteira muitas amizades, mas também desafetos.
É o que se podia dizer de um homem ‘sem papas na língua’, porque sempre
foi bem informado sobre a política partidária e até a universitária, desde
as eleições de DCE, diretores de centro até as eleições de reitor.

Admirado por muitos pela vasta cultura literária, Luís faz parte da
galeria de intelectuais que contribuíram para a formação acadêmica dos
muitos bacharéis, mestres e doutores formados pela UFRN e que hoje ocupam
cargos estratégicos na sociedade. Sentado em uma cadeira de balanço para
atender gentilmente a reportagem, ao lado da esposa Ivonilde dos Santos de
Lima e Souza, com voz branda e distante de um mundo que lhe envolveu
durante 44 anos, Luís apenas diz algumas palavras: “eu gosto de ler, o
livro sempre foi minha vida. Durante todo esse tempo vivi no meio dos
livros”.

Hoje, acometido de uma paralisia progessiva, uma doença degenerativa, tem
seus movimentos comprometidos, o que o deixa dependente da dedicação
exclusiva da esposa com quem compartilha desde a época dos ‘anos de
chumbo’. Funcionário da Cooperativa Cultural da UFRN durante 35 anos, Luís
tinha fascinação por vender livros e, nessa atribuição, ia além da função
de um simples vendedor. Quem teve o privilégio de receber um livro das
mãos de Luís, teve a melhor a escolha, o melhor título, e a orientação
bibliográfica do melhor consultor de livros da cidade.

A visão diferenciada de livreiro funcionava como um divisor de águas entre
o vendedor de livros em busca de repassar um produto paraobter um lucro e
a sua paixão pelo texto da obra que fala de problemas e dilemas da vida
das pessoas. “Ele lia tudo para poder vender, antes mesmo do título chegar
na livraria ele já sabia dar informações sobre o conteúdo, o autor, a
editora e tudo que se relacionava à obra. Era realmente um leitor
diferenciado e um consultor por excelência”, resume o atual gerente da
livraria da Cooperativa Cultura da UFRN, Acácio Medeiros Nogueira.

Quem teve o privilégio de poder desfrutar da orientação especializada de
Luís sabe o quanto é importante a figura de consultor nas livrarias e
bibliotecas. Segundo Ivonete, o professor da USP e historiador Marcos
Silva, autor da série de fascículos sobre a “História do RN”, publicados
pelo Diário de Natal, chegou a confessar que seu amor à leitura devia-se
em muito à figura de Luís Damasceno. O professor Marcos Silva está
organizando um livro em homenagem a ele.

Ditadura

Sua militância de esquerda e a influência literária sobre os estudantes e
militantes do estado, foram o suficiente para os militares saírem na
perseguição de Luís. Estudava no Atheneu, participava das atividades
políticas e culturais do Grêmio Estudantil Celestino Pimentel, como membro
do PCB, costumva escrever artigos sobre livros e mandar os amigos
publicarem nas colunas de jornais locais com pseudônimo. Mas sua maior
contribuição para o movimento contra a ditadura foi sempre indicar uma
literatura militante, voltada para a problemática política social e
econômica que permeava o contexto do Brasil e do Mundo.

A perseguição atingiu a família de Luis e Ivonilde. Ela teve os irmãos
aprisionados por participação em um sequestro de um embaixador suíço para
libertação de 70 presos políticos e um irmão dele, João Damasceno, que
servia ao Exército, foi preso e torturado em Recife, suicidando-se alguns
anos depois em Salvador.

Em 1972, Luís foi preso pelo DOI-COD na porta da Livraria Universitária,
na avenida RioBranco. “Eu vinha da escola, marcamos de nos encontrar na
livraria e quando cheguei os amigos dele estavam em polvorosa dizendo que
Luís havia sido preso. Não fosse Benjamim Capistrano, Luís seria mais um a
constar nas estatísticas dos desaparecidos da ditadura. Ele viu quando
alguém alto e forte se aproximou de Luís, botou o braço por cima do ombro
dele e o levou até uma veraneio. Então avisou a Antônio Capistrano, irmão
de Luís, e fomos à sua procura, juntamente com Gonzaga Chimbinho, Antônio
Vicente e Antônio Capistrano, além dos advogados Roberto Furtado e Varela
Barca nos levaram a lugares e pessoas chaves que poderíamos encontrá-lo.
Descobrimos que havia sido preso por forças paramilitares e Luis foi solto
oito dias depois nas ruas de Petrópolis”, conta ela.

Ultimamente, quando ainda tinha boas condições de saúde, Luis se dizia
decepcionado com a militância petista. Disse que Lula era oportunista, que
desenvolvia o jogo da direita e que o então presidente era mais importante
do que o PT . Saiu do partido, disse que Dilma não emplacaria e,
revoltado, dizia que votaria em Serra. Resultado: o homem de esquerda
desde os anos 60, um exímio militante comunista que levantou a bandeira
das Diretas e da ascenção do PT, ultimamente se dizia anarquista por uma
falta de um partido sério no Brasil.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 21 de maio de 2012 11:45

    Meus Caros,

    Fico muito feliz que os artigos e postagens do sp estejam repercutindo, reverberando e sendo noticia em outras mídias do estado. Isso mostra a pertinencia da nossa partipação nos debates envolvendo o fazer publico e cultural, com enfase no pessoal. Seria bom que as pessoas não omitissem a fonte.

  2. Marcos Silva 21 de maio de 2012 9:50

    Fico feliz com o reconhecimento público da importância de Luís Damasceno para todos nós e por todos nós. Nesse sentido, a matéria é contribuição significativa.
    Sempre que vou a Natal, visito Luís (não comecei a fazer isso a partir de sua doença, tenho grande amor pelo casal desde sempre). Quando lancei meu livro Rimbaud etc (setembro de 2011), fui à casa deles e cantei algumas das músicas apresentadas naquele lançamento, Luís prestou atenção e se comoveu, senti a mesma emoção (“Serei pra sempre o teu cantor”, CAetano Veloso, “Eu te amo”). Doença é fragilidade da matéria. O espírito é mais.
    Corrijo uma informação: sou autor do projeto e co-autor do Atlas Histórico do RN, publicado pelo Diário de Natal.
    Ivonilde me falou que existem algumas informações incorretas sobre o próprio Luís na matéria jornalística. Espero que ela escreva para cá, corrigindo essas informações.

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