Anchella Monte entre tempos

Ó Capitão! Meu capitão!

Walt Whitman

Recentemente, assistindo ao clássico filme “Sociedade dos Poetas Mortos”, revi o professor John Keating, interpretado pelo falecido ator Robin Williams, em seu primeiro dia de aula na nova escola, começar a leitura com a frase, “Ó Captain! My Captain!”, titulo do poema de Walt Whitman, escritor considerado por muitos como o pai do verso livre, e um dos maiores poetas dos Estados Unidos, ao lado de Emily Dickinson. Nos versos de “Ó Capitão, Meu Capitão”, compreendemos que Whitman invoca seu principal inspirador, Abraham Lincoln, que foi o responsável por levar os EUA ao fim da guerra civil, com a abolição da escravatura e a união do seu povo. O professor John Keating falando sobre a importância da poesia e recitando o famoso poema, diz aos seus alunos que eles podem chamar-lhe de “Ó Capitão, Meu Capitão”, sugerindo, dentre outras coisas, que a poesia liberta, abre caminhos, muda nossa mente. O poema de Walt Whitman é sem dúvidas um dos grandes momentos da literatura universal.
É trivial comentar um filme que todos conhecem, mas é fundamental lembrar da cena final, numa espécie de ápice, quando os alunos mostram seu apoio ao professor John Keating recém demitido da escola, pelos seus métodos considerados avançados para a época. Num momento de provocação ao diretor da escola, todos os alunos sobem e ficam em pé nas cadeiras, recitando ao mesmo tempo: “Ó Captain! My Captain!”, demonstrado apoio e solidariedade ao professor que tinha mostrado pra eles os caminhos da poesia.

Concluí a leitura do recém-lançado livro de poemas de Anchella Monte “Entre Tempos” (Sarau das Letras, 2015), e a obra da escritora me remete ao filme, não só pelo amor que ela tem pela poesia, pela literatura, pelos nossos autores e livros, mas, também, pelo amor que tem pela educação; ela inclusive é professora e foi uma das pioneiras na capital, quando a iniciativa era levar escritor potiguar para falar de sua obra em sala de aula.

Ler Anchella Monte me faz lembrar Whitman no sentido de que os dois são poetas que nos elevam a uma liberdade plena. A poesia de Anchella, tal como a de Whitman é um verdadeiro estímulo ao intelecto, à sensibilidade, ao bom gosto. Num poema, Whitman disse certa vez: “Sou contraditório, sou imenso, existem multidões dentro de mim.” A poeta, assim como Whitman, traz em seu eu lírico várias dessas subjetividades e eterniza em sua poesia a pessoa sensível e humana que ela é.

Vale lembrar que Anchella Monte, ao lado de Rizolete Fernandes e Carmen Vasconcelos, trazem consigo os méritos de serem herdeiras de uma tradição poética feminina muito forte em solo potiguar, tradição esta herdada por Diva Cunha, Marize Castro e Iracema Macedo, como principais nomes contemporâneos, e que vem se renovando recentemente com nomes como Jeanne Araújo, Maria Maria Gomes e Kaliane Amorim.

Em “Entre Tempos” é muito marcante a presença da memória, das lembranças: “Quando eu era pequena/tomava banho de rio”… Esta é uma das características mais fortes da poesia de Anchella Monte, inclusive nas obras anteriores. A natureza: “Era uma vez um pé de fícus/ guardadas as pás/ as folhas que não ventam mais/ um tronco dilacerado”… A causa social: …”Os passos do menino seguiram/marcados pelo peso do carro/ pesado em sua infância operária”… Além de outras temáticas de natureza humana, como o próprio ato de amar (Fraternal): “Depois que eu fui mãe/sou mãe/ Em tudo há um cheiro de leite/de toalhas com lavanda”…

Aspecto igualmente importante que vale ser destacado na poesia de Anchella é a proximidade com a prosa, e o seu vinculo com a própria musicalidade, aliás, não à maneira de Verlaine, porém perto do que Valéry fez, como pode se ver em “Varieté III”. Mas, nos versos de Anchella Monte a palavra não é empregada como puro som, um adereço fônico, mas, sim atendendo exigências como um instrumento transmissor de pensamento e ideias universais.
O título da obra, “Entre Tempos” sugere também, no meu entender, uma espécie de intervalo que o poeta deve dar em suas produções. Não existe poeta que consiga todo ano publicar um excelente trabalho artístico; isso é praticamente impossível. A história da literatura está repleta de grandes poetas que publicaram em vida apenas um ou dois livros de poemas, vide, por exemplo, Baudelaire, Arthur Rimbaud, Augusto dos Anjos, Jorge Fernandes.

O acentuado lirismo de Anchella Monte traz marcas, traços, registros de fatos e coisas que, às vezes, estão ao nosso redor, e não paramos para observar. Talvez seja a modernidade, as novas tecnologias, nos afastando do lado simples da vida. A propósito, o estudioso Alfredo Bosi disse certa vez que a poesia “parece condenada a dizer apenas aqueles resíduos de paisagem, de memória e de sonho que a indústria cultural ainda não conseguiu manipular para vender.”
Ficamos alegres em ler um livro de alguém que tem compromisso com a arte poética. Que não faz versos para “aparecer”, (como muito se tem visto aqui no Estado, em dezenas de publicações) e sim com competência e responsabilidade. Que todos nós subamos em nossas cadeiras em homenagem ao capitão, ou melhor, a capitã Anchella Monte.
Thiago Gonzaga é mestrando em literatura comparada pela UFRN.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 15 de Dezembro de 2015 11:25

    Massa demais, Thiago! Sou amigo, fã e admirador de Anchella e do seu trabalho. Parabéns, pelo texto.

  2. Rejane Monte Torres 15 de Dezembro de 2015 20:11

    Que texto excelente. Para compreender, dissecar e traduzir a sensibilidade da poesia de Anchella é preciso ser muito sensível também. Também sou fã da poesia de Anchella.

  3. Nina Bezerra 1 de Novembro de 2017 10:48

    Quanta honra, especialíssima Anchella Monte
    Muita LUZ em seu caminho

    com admiração,
    nina

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