Animal depravado

Enviado por Edjane Linhares, via e-mail:

Por Moura Neto
NO NOVO JORNAL

De um amigo ausente recebo mensagem em que menciona a proeza de um certo Jean-Jacques Rousseau que, em 1749, aos 37 anos, na França, começava a produzir, sem saber, os ingredientes com os quais seria feito o estopim da revolta que, aceso, levaria os franceses a se transformarem, eles mesmos, em pólvora a incendiar o manual dos velhos costumes monárquicos e absolutistas, fazendo surgir uma nova ordem política e social baseada na autonomia do povo.

Destaca que, para ele, a produção mais revolucionária de Rousseau foi o ensaio com o qual concorreu (e ganhou) a um prêmio da Universidade de Dijon, abordando a seguinte questão: “Contribuiu o progresso da Ciência e das Artes para corromper ou para purificar a conduta moral?” A resposta do ainda desconhecido filósofo, paradoxalmente, segundo o meu interlocutor, subverteu o conceito que se tinha no mundo “iluminista” de que o conhecimento e a razão exerciam efeito aperfeiçoador no homem.

Dentre as conclusões a que chegou o filósofo, as mais impressionantemente contundentes são estas: – a cultura (no sentido de conhecimento) é muito mais um mal do que um bem; – onde quer que apareça a filosofia (referindo-se a conhecimento, erudição), a saúde moral da nação entra em decadência; – a educação não torna bom um homem, faz apenas com que fique mais esperto; – e fulminava com esta aparente violência: “… um homem pensante (um intelectual no conceito atual) é um animal depravado”.

Se alguém atrevidamente substituir das conclusões rousseaunianas “a cultura” e “a filosofia” por “a política”; e “filósofos”, “homens cultos” e “homem pensante” por “políticos”, pode aplicar isto ao momento presente da vida nacional e, por extensão, do Rio Grande do Norte – defende o citado amigo na sua mensagem.

Mas é necessário, alerta o missivista, que se considere como verdadeiro que nem todo político é assim corrupto, e que nem toda política dirige-se à depravação dos povos e à degenerescência das nações. Porém, há de se compreender que se 30% dos componentes de uma casa legislativa ou de um governo estão contaminados pela corrupção, não pode esta ou este merecer respeito nem consideração.

Devemos ainda considerar, malgrado o otimismo, que toda e qualquer esperança que nela ou nele se venha a depositar, não pode ser chamada esperança, senão ilusão.

Na verdade, é bom frisar, o que Rousseau quis mostrar com esse ensaio, e depois com outros trabalhos, é que para a harmonia da sociedade humana os sentimentos e as afeições do coração são mais importantes do que a ação do intelecto. E isso representou quase uma heresia para o tempo conhecido como “Século das Luzes” e “Império da Razão”.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Edjane Linhares 26 de setembro de 2011 14:13

    Não estamos discutindo aqui o puritanismo da moral do intelecto, que se manifesta (ou não), em qualquer sofrida alma humana. Muito menos negar a importância do conhecimento. Pra mim o texto é instigante porque me fez pensar sobre o que a humanidade ganhou com o ‘triunfo da razão’ e o que a cultura tem de subserviência nesse processo.

  2. Marcos Silva 26 de setembro de 2011 13:16

    Rousseau sempre me dá a impressão de que era um escritor no sentido literário. É difícil ler seus textos como se fossem o reino do conceito. Penso que ele elaborou mitos filosóficos – o homem em estado de natureza e por aí.
    Sempre vale a pena lembrar que ele escrevia para um meio de eruditos, mandava trabalhos para concursos em academias… Será que devemos entender literalmente suas falas?
    Quanto à vida privada de Rousseau… Parece com a vida privada de qualquer um, não é mesmo? Ok, nós não abandonamos nossos filhos etc. Mas se formos julgar os autores pelas canalhices privadas, adeus música de Wagner e tantos outros produtos intelectuais e artísticos mais. Sempre é necessário condenar essas canalhices sem as confundir com o trabalho de seus autores.

  3. João da Mata 26 de setembro de 2011 9:41

    Edjane, amiga. Saudades.
    Esse texto é depravadamente obscuro e raso. Uma agressão contra a inteligência e o intelecto.
    Rousseau foi um grande canalha ao lidar com os seus entes queridos e, talvez, estivesse falando de si quando escreveu essas sandices, reproduzidas no jornal sem uma contextualização. .

  4. Jota Eme 26 de setembro de 2011 9:21

    De um amigo distante ( fisicamente) , para quem o caminho é penso: Linhares

    Caminante, son tus huellas
    el camino, y nada más;
    caminante, no hay camino,
    se hace camino al andar.
    Antonio Machado

    O que é caminho? Não ha caminho.
    Niels Bohr, citando Goethe

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