Anotações sobre o romance regionalista na literatura brasileira (tentativa de esquematização até os anos 30)

Foto: Evandro Teixeira

Por Marcel Lúcio*

O regionalismo na literatura brasileira tem início durante o Romantismo, quando a tendência nacionalista influenciou os escritores do período. O mesmo impulso nacionalista que promoveu o culto ao índio (indianismo) gerou em momento posterior o elogio ao sertanejo. José de Alencar, expressão máxima do indianismo na prosa, publicou os seguintes romances tidos pela crítica como regionalistas: O gaúcho (1870), O tronco do Ipê (1871), Til (1872) e O sertanejo (1875).

Além de Alencar, outros romancistas seguiram o caminho regionalista: Bernardo Guimarães, descrevendo paisagens do interior de Minas Gerais e Goiás em obras como O Ermitão de Muquém (1864) e O garimpeiro (1872); Visconde de Taunay, autor da famosa narrativa Inocência (1872), que, segundo Alfredo Bosi, pode ser considerada a expressão máxima do regionalismo romântico e realista; Franklin Távora, com seu regionalismo programático e polêmico problematiza a necessidade de contato direto com as questões descritas e lança a ideia de uma literatura nordestina, sua principal obra O Cabeleira (1876).

Franklin Távora criticou por meio de cartas (1871/1872) a postura literária de José de Alencar, que inicialmente dispensava a observação direta da realidade para a construção de suas narrativas. Távora, por sua postura, pode ser considerado um escritor de transição entre estética romântica e a estética realista no que se refere à narrativa de ficção. O prefácio de sua obra O Cabeleira é considerado o primeiro manifesto regionalista da literatura brasileira, no qual destaca a necessidade de observar a realidade circundante e realiza a defesa dos costumes do Norte (incluindo o Nordeste) como representantes do verdadeiro Brasil. Cabe assinalar que, tendo sido centro econômico do país no século XVIII, no século XIX o Nordeste estava em declínio, pois o centro econômico se deslocava para o Sul/Sudeste principalmente por causa da cultura agrícola do café. Dentro de sua perspectiva programática para a “Literatura do Norte”, Távora escreveu três romances, mas não foi bem sucedido, sua tentativa é considerada frustrada.

No período realista/naturalista, algumas obras de caráter regionalista também foram produzidas com relativo destaque, deixando de lado o domínio do traço romântico imaginativo e acentuando a característica do apego à observação da realidade. Sobre a temática seca, destacam-se as narrativas Luzia-Homem (1903), de Domingos Olímpio; A fome (1890) e Os brilhantes (1895), de Rodolfo Teófilo. Apesar de escrito em 1891, o romance Dona Guidinha do Poço, de Oliveira Paiva, só veio a ser publicado em 1951, mas apresenta um registro importante da literatura regionalista do século XIX.

Há outros nomes que podem ser considerados expoentes da literatura regionalista do final do século XIX e início do século XX, transição do Realismo para o Modernismo: Afonso Arinos (sertão mineiro), Valdomiro Silveira (interior paulista, imagem do caipira), Simões Lopes Neto (interior do Rio Grande do Sul) e Hugo de Carvalho Ramos (tropeiros goianos), Monteiro Lobato (interior paulista, Vale do Paraíba, contista, Urupês, Cidades mortas e Negrinha). O gênero conto ganha muito espaço nesse período e se sobrepõe ao romance no que se refere às narrativas regionalistas.

Um destaque especial para a obra Os sertões (1902), de Euclides da Cunha, que relata a famosa Guerra de Canudos no interior da Bahia e observa características peculiares do sertanejo nordestino, como a religiosidade e a coragem para a luta.

De acordo com o tradicional esquema histórico da literatura brasileira, o romance regionalista de 30 está situado na segunda fase modernista, momento no qual os escritores, após o questionamento formal realizado na primeira etapa do movimento, começaram a se voltar para o debate acerca dos problemas sociais e econômicos do país. Então aconteceu o “milagre nordestino”: escritores dos diferentes estados da região constituíram uma estética literária voltada para a realidade do Nordeste. Ainda hoje muitos críticos consideram esse período como a mais importante realização da prosa de ficção brasileira.

As obras que iniciaram a tendência estética do regionalismo nordestino foram: A bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, e O quinze (1930), de Rachel de Queiroz. Segundo os críticos Antonio Candido e José Aderaldo Castello: “Ambos [A bagaceira e O quinze] possuíam um cunho regional e social, voltando-se para problemas como a condição e os costumes do trabalhador rural, a seca, a miséria”. Somando-se a essas obras, ocorreu durante os anos 30 um verdadeiro surto de romances discorrendo sobre a região. Autores com estilos diversos conseguiam manter uma unidade temática e um diálogo formal. Para citar os nomes mais conhecidos: Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado. No Rio Grande do Norte, destaca-se o escritor currais-novense José Bezerra, autor do romance Os brutos (1938).

O historiador Nelson Werneck Sodré considera que o romance nordestino de 30 foi o responsável pela formação de um público leitor para a literatura brasileira. Evidente que, além da qualidade da produção literária do período, outros fatores históricos contribuíram para essa situação, a ascensão da burguesia urbana, a formação de um mercado editorial com iniciativas como a fundação da Editora José Olympio em 1932, dentre outros.

Apesar dos fatores de ordem histórica, verifica-se que a força do romance de 30 permanece viva e ainda hoje é percebida pelos leitores e por autores que receberam a influência direta dos escritos do período. No quesito influência, a ficção nordestina alterou inclusive a lógica colonizada da influência “de fora para dentro” que prevaleceu por muito tempo na literatura brasileira, pois foi capaz de inspirar autores europeus, como José Saramago, e africanos, como Mia Couto e José Eduardo Agualusa. Assim, torna-se importante observar a produção regionalista na literatura brasileira e perceber sua permanência e recepção ao longo dos tempos.

 

* Professor do IFRN – Campus Natal Cidade Alta

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