Antes que a vaca pegue uma pneumonia

Por Tácito Costa

Os eleitores de Aécio deveriam estar dando pulinhos de alegria e com seus paus de selfies socializando as fotos nas redes sociais. Com a embriagadora sensação de que perderam, mas levaram. Afinal, Dilma está colocando em prática parte da política econômica defendida pelo tucano. Embora não na dosagem extravagante que ele faria. Quem leu recentemente as entrevistas de Armínio Fraga ao Estado e de Serra à Folha, viram como eles consideraram “suaves” as medidas.

Portanto, o discurso de “estelionato eleitoral” faz sentido na boca dos eleitores de Dilma. Que, estupefatos, silenciaram e são zoados nas redes sociais. Acho mais honesto esse silêncio do que tentar justificar o injustificável. Os políticos do PT e seus filiados que busquem defender esse ministério “esdrúxulo”, como escreveu Luís Fernando Veríssimo, e essa política econômica recessiva.

Porque uma coisa é o militante petista e outra é o militante de esquerda ou o eleitor independente. No entanto, de forma capciosa os anti-petistas doentes acabam colocando todos no mesmo saco. Quando a distância entre uma coisa e outra é bem razoável. Quem tem compromisso e deveres para com partidos são os filiados.

Não se espere que o eleitor de esquerda ou independente (penso aqui em Lívio, Pablo, Marcos Silva), que não estão satisfeitos ou mesmo decepcionados com essa guinada à direita de Dilma vá agora aplaudir e disseminar nas redes os textos de Veja, Rede Globo, Merval Pereira, Reinaldo Azevedo, Lobão, Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho, Demetrio Magnoli at caterva e uma tal de Folha Política, entre outros mais ou menos cotados. Ou mesmo abandone quaisquer de suas convicções acerca de direitos humanos e justiça social e dê às mãos a Feliciano ou Bolsonaro.

Esse foi o caminho preferido por muitos dos antigos militantes do PT, que abraçaram as teses e ideólogos à direita, ambos nutrindo-se de uma irracionalidade política que dialoga com o ódio. Passando a criticar até políticas públicas acertadas somente pelo rancor que cultivam contra o PT e Lula e Dilma.

Cabe nesse momento aquele que apostou em Dilma, sobretudo no segundo turno, fazer a crítica da mudança de rumos que o seu governo tomou. Mesmo que isso o coloque, momentaneamente, no mesmo barco dos anti-petistas e da direita. A diferença é que o matraquear dos tucanos não se sustenta, não tem consistência porque essa política econômica em curso é a que o PSDB sempre defendeu. Por coerência deveriam elogiar Dilma.

O fato é que a vaca tossiu e o quadro pode evoluir para uma pneumonia. E o silêncio nesse momento dos que acreditam no aprofundamento das políticas públicas de justiça social e direitos humanos poderá passar a falsa impressão de que existe concordância com as medidas do governo. Não existe. O ministério e a política econômica tem tudo a ver com os ideários do PSDB/DEM e é por isso que devem ser criticados.

Sim, alguns vão dizer, “a crítica ao governo fortalece a direita”. Esquecem, de propósito ou por ignorância, que a conjuntura é outra e esse discurso que faria sentido na campanha desvaneceu-se. Parece-me mais sensato exercer a crítica nesse momento do que emudecer ou respaldar uma guinada política que não estava nos planos de ninguém. Cabe ao governo corrigir seus rumos e não contar com a benevolência de quem esperava uma coisa e está sendo brindado com outra bem diferente.

A crítica, contudo, deve evitar ingenuidades e despolitização, tipo “partidos e políticos são todos iguais”, buscando com isso deslegitimar e solapar a política e os políticos. Infelizmente, não existe solução fora da política e da Democracia. A não ser que você ache que Ditadura seja saída pra alguma coisa. Mas como adverte-nos a oração de São Bento, “Sunt Mala Quae Libas Ipse Venena Bibas” ou “É mau o que me ofereces, bebe tu mesmo os teus venenos”.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Demétrio Diniz Diniz 1 de fevereiro de 2015 21:17

    Tácito não nega a origem do nome ( famoso historiador romano do séc. II d.C), e conclui seu artigo ressuscitando um bom latim pela oração de São Bento, com a qual é demasiado contra senso discordar. Mas quanto ao corpo do artigo, tenho a comentar o seguinte: em nada me causaram surpresa as medidas econômicas do segundo mandato de Dilma. Sabedora dos efeitos da economia sobre a aprovação popular , cuidou de saída em resguardar e fortalecer a economia do país, mesmo que para isso tenha se utilizado de medidas que seriam mais ou menos tomadas pelo PSDB. Não vejo mal nisso, porque não foram retirados direitos dos trabalhadores e dos mais vulneráveis. Enxergo as novas medidas como um meio para poder mais adiante garantir os benefícios sociais, o que seria ao Estado bastante difícil sem uma economia bem ajustada.Por outro lado, não esqueçamos que PT e PSDB são primos, paulistas de nascença, e têm lá alguns dnas em comum. A diferença é só quanto à distribuição de renda e benefícios, para o que o PT é mão aberta, e o PSDB, mão-de-vaca. E também com relação às privatizações, cabendo ao PT uma política nacionalista. No mais se parecem, às vezes se confundem, até mesmo na roubalheira, como demonstram os noticiários dos últimos dias (vide a fortuna esdrúxula de José Dirceu).

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