anti-jornalismo psicogeográfico

Nalva Café Salão

vagal, tendo cruzado um alecrim inteiro, desci de ônibus a ladeira que finda no cultura clube, onde vi pessoas pintando paredes e pensei no que daniel minchoni expôs, recentemente, numa discussão na página de pedro ivo no facebook, diferenciando a arte do grafite da técnica do grafite para rebater a acusação, feita por vicente vitoriano, num desses jornalecos desta miami provinciana e depravada, de que o grafite fora institucionalizado. minchoni defende, basicamente, que a técnica do grafite hoje usada em galerias e outros espaços institucionais (a saber, circuitos culturais, paredes autorizadas, …) não corresponde à arte do grafite, que se caracterizaria pelo drible da institucionalização, pela potência de crime poético e pela apropriação de espaços não destinados. concordo. e, então, ambos, eu e minchoni, devemos concordar que não se viu grafite nesse domingo no circuito cultural ribeira mas, sim, a apropriação da técnica (e dos técnicos) pela instituição.¹

nalva recebeu-me educadamente quando eu cheguei cedo demais e passei pelo café salão para vestir a máscara de homem-bomba² que eu tinha preparada para a ocasião. fiz isso no circuito passado e achei interessante poder, de forma obviamente imprecisa, lidar com uma economia do medo que a figura do pano cobrindo o rosto livrando só os olhos suscita. quando, já mascarado – tendo me despedido de nalva e seguido com pateta e igor -, vi o beco da quarentena limpo só me entristeceu o fato de os escombros de uma certa casa terem sido retirados. o fato é que, mês passado, com a máscara do homem-bomba, posicionei-me exatamente sobre os escombros dessa casa e criei o que a mim me pareceu, depois, numa masturbação alegórica, uma cena épica: o cortejo de lavagem do beco, com a beleza forte de uma ângela lançando água de cheiro seguida de gente vestida de branco, fazendo música xamânica, pessoas lindas (afoxé estrela da manhã e rosa de pedra, na ocasião, eu suponho) invadindo a imundice da viela, passando diante de mim com máscara de homem-bomba sobre os escombros de uma construção demolida. ei, buca dantas, consiga-me aquelas imagens que eu vi você fazer!

a respeito do cortejo, passei por ele em frente à casa da ribeira, depois de ver três solos de dança contemporânea que não vale a pena comentar no espaço gira dança, e logo segui. mas encontrei sara no meio do caminho e quis voltar para acompanhá-la, sendo que fui repelido pelo jingle da lavagem do beco da quarentena³, que – talvez pelo fato de estar ali no front da casa da ribeira – me fez pensar em cargo cult4 (e eu certamente teria preferido ouvir a música do gainsbourg no lugar da sagração do latifúndio simbólico que aquele jingle evoca). isso me fez lembrar o quão desagradável é sentar e tomar uma cerveja no bar da suástica (que fica ali, próximo ao agora seleto buraco da catita). francamente, fazer um bar conjugado a um museu com referências à segunda grande guerra (suásticas no chão, quadros com famílias felizes na guerra na parede, segurança grandão barrando mendigos na porta) é uma idéia tão deprimente quanto a de transformar o buraco da catita, que começou mambembe e lotado de gente cabeça e livre, num pagode burguês para famílias eruditas. vou propor ao augusto lula d’a gente fazer um vídeo, em tom de galhofa publiciotária, seguindo o seguinte roteiro: uma banda de rock tocando e uma câmera filmando jovens felizes dançando o twist num chão repleto de suásticas, depois cortando para tios e tias acompanhados de sobrinhos gorduchos ouvindo chorinho. se augusto lula não topar, é possível que o joseph goebbels5 adore e queira produzir. é nóis!

tive sorte de chegar ao café salão no instante exato de dar um abraço apertado em civone, que estava nervosa6 para a sua entrada. acompanhei sua trajetória diante de um público mais ou menos displicente, chorei minha tristeza e a dela e ouvi atento cada palavra de sua caçada. quando, na hora dos aplausos, um grupo de pessoas que sequer estavam olhando a apresentação aplaudiu acompanhando bobamente a maré, eu cantarolei a letra do mombojó (“as luzes e as palmas já são o bastante pra quem quer se enganar”)7 e lamentei essa nossa caatinga existencial. agora lembrei de quando @toligadoboe, que também tava pintando as paredes do circuito, desencorajou a crítica-ativista da cultura desta cidade com base na idéia de que nós não temos um cenário constituído. vou pular esse assunto pra falar de quando eu quis ir explicar, pessoalmente, ao patrício jr. que eu sou free de freudices e que supor que o que me impulsiona a criticar as coisas é o recalque é um grande desperdício de saliva depois do anti-édipo. ele foi educadíssimo ao tentar me explicar que o ponto da crítica dele não é esse, mas sim a minha agressividade que faz extraviar o conteúdo do que escrevo. e eu aqui reitero meu desprezo por reuniões de tias que se xingam com meias palavras bebendo chá. gosto daquele verso do chico buarque cantado por lenine: “eu sou mais as putas!8

o show do donizete lima, que foi animado pela platéia que adora quem faz cover de alguma coisa,  começou e eu fiquei conversando amenidades aos berros com civone. depois saímos para respirar (e se ouvir) na calçada, mas nos separamos. aproveitei a oportunidade (civone não fuma maconha) e fui fumar um beque no canteiro central, até que fui assustado pelas luzes de duas viaturas da biopolícia, que ainda fizeram aquele barulho tenebroso, como cães de guarda latindo para certificar aos passantes que eles estão sendo acossados. não demorou e eu fui embora para a parada, subi num 44 junto a uma moça muito bonita, estudante de filosofia, com quem conversei sobre como o circuito cultural ribeira é um evento interessante por ser multicultural e conectar a ribeira em vários pontos, gerando um trânsito fantástico de pessoas. concordei com ela e concordo. acho que nunca questionei aqui a qualidade do circuito, questionei apenas a demagogia da propaganda, as falhas do discurso e a latente e potencial higiene social que a proposta de transformar a ribeira num lugar agradável para a classe média9 traz consigo. tirando isso, tudo certo.

desci do ônibus e subi a ladeira que dá na minha casa pensando na ribeira de ninguém e cantando aquela ode aos ratos de chico, só que na versão rock and roll de ney mattogrosso10: “rato de rua irrequieta criatura, tribo em frenética proliferação… saqueador da metrópole,
tenaz roedor de toda esperança, estuporador da ilusão: Ó! Meu semelhante,
Filho de Deus, Meu Irmão!”

– – –

¹ urgentemente, peço que percebam: o fato de ter-se institucionalizado o grafite não o desmerece. eu, por exemplo, fiquei encantado com o trabalho de Sinhá no (agora limpo) Beco da Quarentena, assim como aquele próximo ao machadão também me emociona – parece que algo me liga a essa obra; disse no twitter outro dia que ela me remete à minha mãe.

² registre-se: homens-bomba de verdade, conforme paradise now, não vestem o pano cobrindo o rosto livrando apenas os olhos, vestem-se para não ser notados. mas a indumentária usada por rebeldes na palestina me serve de signo, já que a difusão do bioterror classificou-os como o esteriótipo do terrorista.

³ este, certamente, será compartilhado na publicidade do circuito, porque parece mesmo um momento mágico de exaltação ao circuito e à sua ação emancipadora da ribeira.

4 http://en.wikipedia.org/wiki/Cargo_cult e http://www.youtube.com/watch?v=oE853xWLsE8

5 ele mesmo: o propagandaminister da alemanha nazista.

6 escrevi estes versinhos inspirado nisso: treme medrosa a mão do poeta/ diante do insustentável peso da palavra

7 http://www.youtube.com/watch?v=HX7EkEfSjyw

8 http://www.youtube.com/watch?v=EPUjtmt3OiU

9 quero lembrar que a classe média não gosta de ruas sujas, e que a classe média vê moradores de rua como sujeira, e que, por uma progressão lógica, o intento de revitalizar a ribeira “limpando-a” pode implicar numa higiene social capaz de empurrar os moradores de rua prum gueto ainda mais inóspito. ouvi dizer que em são paulo às 5-6 da manhã  tem um toque de recolher acordando mendigos para manter a rua limpa (espero que ninguém entenda isso como uma sugestão!).

10 http://www.youtube.com/watch?v=RWxwj_2JQyY

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