Antídotos às trevas do obscurantismo

Edgar Morin nos fala, em um livro cheio de delicadezas, que “estamos condenados ao paradoxo”. Naquele livro sobre Amor, Poesia e Sabedoria, já no preâmbulo emoldura o entendimento com que nos devemos guiar na leitura desses três motivos: o homo sapiens não tem como se desvencilhar do homo demens.

Se tentamos preservar a máscara rígida do sapiens, daquele que se move pela razão, não há como negarmo-nos nossa potência para os afetos extremos, para a paixão, para a loucura e para o patético. Sérios, somos dignos de riso. Risíveis, precisamos ser levados à sério.

Neste momento de pandemia mundial, vejo no espectro sociopolítico brasileiro a expressão nítida de um povo em convulsão paradoxal. Somos o paradoxo. Tresloucadamente nos guiamos por sabedores de plantão, ouvimos expertos, criamos métodos para nos protegermos, ao mesmo tempo que negligenciamos os riscos, duvidamos das estatísticas e egoistamente expomos o outro aos riscos daquilo que negamos.

O establishment neofascista no Brasil atual (se assim podemos chamar semelhante marcha quixotesca) alimenta ainda mais este grotesco contraste. Um discurso populista que aspira a conquistar as massas se alia ao flerte com o poder econômico, “terceiromundiza-se” ajoelhando-se ao primeiro mundo, discute renda básica para perdoar bilhões ao mercado.

Vacuidade e falta de essência

“Alguns inclusive com argumentos paranoicos e delirantes ressuscitam velhos fantasmas da história política mundial”

Na verdade, preciso fazer um parêntese a esta linha de pensamento. Neste caso, em vez do paradoxo, salta aos olhos a contradição inconsistente. Diferentemente da contradição, o paradoxo se dá dentro de um sistema que se alimenta dos polos antagônicos. O direito e o avesso se conjugam e digladiam (sistema este mais afeito ao Tao-te-Ching: a felicidade dormindo ao pé da infelicidade).

Não é o caso do neofascismo brasileiro, não há ali um sistema, mas uma inconsistência condenada a ir e voltar; fazer e desfazer, afirmar-se e voltar atrás, mas pela vacuidade e falta de essência que por complexidade inerente.

Entregue ao contraditório, vemos a grotesca divisão das classes. Alguns inclusive com argumentos paranoicos e delirantes ressuscitam velhos fantasmas da história política mundial, num combate ao comunismo. Estes, do lado do mal; eles do lado de quem? O que defendem? O poder econômico à revelia do bem estar de todos? Por que gritam tresloucadamente contra o isolamento de trabalhadores quando estes serão os mais atingidos pela onda invisível desta pandemia? Querem sua morte?

Decerto que não, apenas na sua condição de casta desdenham dela. Pouco lhes importa que morram, contanto que antes disso, evitem o precipício de sua morte econômica. 

Só há razão onde o amor inspira a poesia

Vivemos em estado de demência. A loucura embora risível e ridícula, precisa ser levada a sério, pois se mostra como uma mancha que ocupa os espaços vazios de um projeto de nação.

Desde a famigerada diáspora que separou politicamente o povo em esquerda e direita até a ascensão ao poder deste grupo visivelmente pouco afeito a ofertar um projeto de unificação e de enlace social, abriu-se uma lacuna à marcha dos insensatos. Eles vêm pateticamente perigosos apodrecendo os pilares do bom senso, fazendo sucumbir a ciência, a cultura, a arte e a educação.

Diante da pandemia, entraram e semearam o delírio. Se em outras nações, passada a pandemia, será necessário reconstruir a solidez econômica, aqui precisaremos primeiramente nos reerguer do caos ético e do limbo esquizofrênico a que estamos sendo lançados.

Mesmo a demência neste caso se divide: não nos referimos aqui a uma loucura passional, aquela que alça os seres aos devaneios da paixão. Não, esta ainda tange o amor.

Falamos de uma loucura perversa, aquela que mata e destrói a si mesma em vista de disseminar o ódio ao máximo limite. Trata-se de uma demência obscurantista que nega a sabedoria aliada a uma seita política cega e putrefata que findará por destruir a todos e a si mesmos.

Sob este ataque, morreremos afetiva e emocionalmente antes mesmo de morrermos biologicamente afetados pela mais cruel expressão de nossa globalização.

Não é comum falar-se de amor quando se pensa a política. São elementos insociáveis. Mas, até para salvar-me da loucura, sigo o viés do autor da complexidade.

Amor, poesia e sabedoria, talvez sejam a vacina e o antídoto a demência pandêmica que nos arrasa a alma e elimina qualquer possibilidade de enlace humano que nos torne novamente um povo.

Só há razão onde o amor inspira a poesia, e esta esparge a sabedoria. Onde há o dinheiro e o poder econômico há a crueldade da ilusão, da demência sórdida e da traição ao humano.

Professor, poeta e contador de histórias [ Ver todos os artigos ]

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